Segurança: um desafio para as redações

A falta de pessoal capacitado, a resistência ao uso de fontes não-oficiais e o dilema ético do jornalista foram alguns dos temas debatidos no seminário sobre Mídia e Violência promovido pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes (CESeC-Ucam) nos dias 16 e 17 de outubro.

O tema foi objeto de pesquisa realizada pela coordenadora da Área de Minorias, Movimentos Sociais e Cidadania do CESeC, Silvia Ramos, e da jornalista Anabela Paiva. O estudo, que analisou 2.514 textos jornalísticos veiculados em nove diferentes jornais brasileiros entre maio e setembro de 2004, mostrou que a segurança pública é tratada de maneira factual e pouco qualificada: 83,6% das reportagens falavam de fatos isolados, classificados pelas autoras da pesquisa como “histórias individuais”.

Os jornalistas presentes concordaram que a ausência de pessoal capacitado para tratar o tema, o enxugamento das redações e a conseqüente falta de tempo para a produção de material aprofundado são os maiores responsáveis pelo fato de a cobertura não estar à altura da complexidade da questão da segurança pública.

Fontes de polêmica

Os pontos mais polêmicos da mesa “Repórteres e fontes: a origem da notícia” foram a dificuldade de acesso a fontes não-oficiais e o questionamento ético sobre dar ou não espaço a um criminoso. De um lado, o medo de chegar até as testemunhas ou mesmo os supostos agentes da violência a ser noticiada, que em geral encontram-se ambos nas áreas mais críticas sob o ponto de vista da segurança pública. Do outro, o compromisso de produzir um texto imparcial e livre de estigmas.

“Não dar espaço às facções criminosas (do Rio de Janeiro) é não dar voz a um segmento que não merece participar do debate sobre a sociedade”, afirmou Luiz Antonio Novaes (Mineiro), editor executivo do jornal O Globo. Já para Plínio Bortolotti, ombudsman do jornal O Povo (Ceará), a decisão deve ser avaliada caso a caso, com vista à melhor forma de apresentar os fatos. “Até mesmo entrevista com bandido é válida, se contextualizada”, concluiu.

Para Bruno Thys, diretor de redação do jornal Extra, o profissional de imprensa precisa tomar cuidado com o uso da “monofonte”, ou seja, restringir sua apuração a informações fornecidas pela polícia. “É importante cruzar o maior número possível de dados para produzir um texto de qualidade”, afirmou.

Segundo Plínio Fraga, secretário de redação da sucursal Rio da Folha de São Paulo, não é apenas o cuidado com a integridade física que faz com que o Boletim de Ocorrência seja a maior, quando não a única, fonte para matérias ligadas à violência. “A dependência do B.O. é também fruto de preguiça e acomodação. O bom jornalismo exige mais”, disse.

Iniciativas pioneiras no Rio e em Porto Alegre

Esse sentimento parece já ter dado origem a reformas em jornais impressos, a exemplo do Jornal do Brasil, no Rio, que inaugurou em 16 de outubro um caderno semanal para tratar exclusivamente de segurança pública.

Humberto Trezzi, do jornal gaúcho Zero Hora, falou da coluna que assina atualmente no jornal com o objetivo de tratar o tema com maior ênfase e propriedade. “O colunismo na área flutua a questão da segurança em diferentes editorias”, explica. “A intenção da coluna é justamente evitar essa pulverização, que acaba por desconectar de seu real contexto as questões relativas à segurança”.

De acordo com a pesquisa do CESeC, o colunismo na área mal chega a existir, na verdade. Segundo Silvia Ramos, dos textos jornalísticos analisados durante o estudo, 69,3% eram reportagens e 27% eram notas informativas. Editoriais e artigos assinados, juntos, não chegam a 3% do conteúdo produzido.

Mídia não cria, mas reflete preconceitos

Segundo o antropólogo e cientista político Luiz Eduardo Soares, a mídia é apenas a ponta de um iceberg no que diz respeito à diferença de tratamento dos personagens envolvidos em situações que envolvem crimes e violência. “A desigualdade social se traduz em desigualdade de acesso à justiça e, por conseqüência, no tratamento dado pela mídia”, explicou.

Para Denis Mizne, do Instituto Sou da Paz (São Paulo), os estigmas não são produzidos pela mídia, mas ela poderia contribuir para que não fossem reforçados se houvesse maior esforço para que a cobertura saísse do factual e mostrasse o contexto no qual aquele ato de violência aconteceu. “A cobertura da segurança pública é gerada por um fato”, lamentou, indicando que o tema poderia ser abordado de forma mais pró-ativa, com foco em políticas públicas de prevenção, por exemplo. “A preferência é pela abordagem dos pontos mais midiáticos, não dos mais críticos.”

Leia em outros sites: CESeC - Projeto Mídia e Violência

Comentários

Parabéns pela iniciativa do

Parabéns pela iniciativa do evento!! Sugiro que seja expandido para todas as capitais, ampliando o debate. O triste é saber que a prática continua em ser outra. No texto, não percebi uma abordagem do jornal enquanto produto, que precisa ser vendido. Talvez nesta perspectiva poderemos compreender melhor a necessidade da empresa jornalística. Assim, aprofundaremos o debate.

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