O primeiro passo para a proteção de jovens em violência armada

ENTREVISTA/Luke Dowdney
Antropólogo e ex-lutador de boxe, Luke Dowdney ficou conhecido por contribuir para que o problema de crianças e jovens envolvidos em violência armada organizada fosse conhecido no âmbito internacional. Membro do conselho consultivo que assistiu Paulo Sérgio Pinheiro em sua pesquisa sobre violência contra crianças no mundo, Dowdney conversou com o Comunidade Segura as conseqüências do estudo inédito.
Luke achou na expressão “crianças e jovens em violência armada organizada”, ou COAV na sigla em inglês, a melhor forma de descrever de que maneira a exclusão social afeta as crianças e como isso se relaciona com crimes de caráter internacional, como tráfico de drogas e armas. Editor de Crianças do Tráfico, sobre a questão no Rio de Janeiro, e de Nem Guerra nem Paz, um estudo comparativo da questão em 10 países, o antropólogo também coordena um programa internacional de proposição de políticas públicas municipais, o COAV Cidades.
As pesquisas são apenas parte do trabalho. Luke fundou em 2000 o Centro Esportivo Esducacional Luta Pela Paz (CEELPP), que fica no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. O local, onde há crianças e jovens armados e envolvidos em atividades ligadas ao tráfico de drogas, é um cenário providencial para discussão internacional sobre violência contra a criança.
Qual é sua maior contribuição para o tema do estudo?
É com grande satisfação que vemos que o tema de gangues e violência cometida por grupos armados organizados foi incluído no esboço do relatório de Paulo Sérgio Pinheiro. É claro que tentamos dar o maior destaque possível à questão e eu espero que minha participação na pesquisa tenha ajudado nesse aspecto. Ser membro do conselho consultivo também me deu a oportunidade de trabalhar com outras pessoas e entrar em contato com outros aspectos importantes da violência contra a criança, especialmente no que diz respeito a gênero.
Na sua opinião, de que maneira o relatório de Paulo Sérgio Pinheiro pode influenciar a comunidade internacional?
Pela primeira vez na história um relatório lança olhar sobre todas as formas de violência contra a criança fora de situação de guerra – é um marco zero. No que diz respeito à violência armada, a questão ficou bem clara no relatório e eu diria: “onde há disponibilidade de armas de fogo, os conflitos costumam levar a lesões graves e a mortes”. Nos últimos 30 anos, vimos um aumento considerável no número de homicídios de jovens praticados com arma de fogo, o que está intimamente ligado à maior disponibilidade de armas e ao aumento do número de gangues e grupos organizados onde há participação juvenil em diferentes partes do mundo. Nesses grupos, o jovem usa a violência como forma de obter de reconhecimento social, vantagens financeiras e de alcançar posições de liderança.
Qual é o significado da presença da questão da violência relacionada a gangues no esboço do relatório de Paulo Sérgio Pinheiro?
Acho extremamente importante que a questão tenha sido tocada no esboço do relatório. Isso nos dá espaço para falar sobre a importância do controle de armas com agências internacionais.
Na sua opinião, vivemos um momento de crise mundial no que diz respeito aos direitos da criança?
As dificuldades são maiores quando às crianças é negado o acesso a melhores oportunidades e espaço para crescer e ser parte da sociedade de forma produtiva. Quando isso é negado à juventude, as armas ocupam o espaço e são promessa de ascensão social e obtenção de reconhecimento. Infelizmente, em qualquer lugar do mundo onde o jovem se veja marginalizado e onde haja disponibilidade de armas, veremos o aparecimento deste fenômeno. Entretanto, eu continuo otimista – se o jovem tiver oportunidades, ele se mostrará mais apto ao convívio social produtivo e mais envolvido com sua comunidade.
Neste aspecto, crianças e adolescentes socialmente excluídos são especialmente vulneráveis à violência armada?
Eu acredito que a sociedades deveria ter maior percepção de que jovens e crianças são as principais vítimas das armas de fogo. Isso, eu espero, daria às agências internacionais mais elementos para agir sobre a questão. No momento, é verdade que o relatório reconhece a questão dos jovens envolvidos em grupos organizados que praticam violência armada. No entanto, acredito que governos e atores internacionais deveriam ter um mais profundo entendimento da situação.
E quais devem ser os primeiros passos no que diz respeito às questões que serão apresentadas no relatório Paulo Sérgio Pinheiro?
Um cuidado maior no que diz respeito à prevenção, reabilitação e controle de armas, além de uma preocupação internacional com o comércio de armas de fogo e de como isso afeta aqueles que são os mais vulneráveis de uma sociedade, que em primeira instância são as crianças. Existe uma relação nefasta entre as mortes por armas de fogo e o comércio ilícito de armas de fogo e, embora isso tenha sido identificado, não houve ações efetivas para solucionar a questão. Acredito que isso tenha que acontecer com urgência.
Você trabalha diretamente com crianças envolvidas em violência armada organizada. Em sua opinião, que aspectos da questão devem ser trabalhados mais intensamente?
Eu gostaria de ver um relatório especial que tratasse de como a violência armada organizada afeta crianças e jovens. Acredito que é importante avaliar o impacto disso na América Central, na África, na Ásia e em muitas partes da Europa. Gostaríamos muito de ver um estudo subseqüente, nos moldes do produzido por Graça Machel sobre crianças-soldado, e talvez, depois disso, uma secretaria especial na ONU.
As crianças e jovens envolvidas com a violência armada são estigmatizadas com freqüência. Esse problema já foi reconhecido?
Um dos maiores problemas para os governos e seus eleitores é como abordar esse tema de forma aberta e com o viés da prevenção. É verdade que essas crianças e jovens matam pessoas e estão envolvidas com níveis muito altos de violência – eles são vítimas e agressores ao mesmo tempo. É um problema enorme que nós temos porque isso costuma embaçar nossa visão e gera medo nas pessoas. Tradicionalmente, a única resposta ou estratégia usada pelos governantes até agora tem sido a repressão e o encarceramento, táticas que só exacerbam o problema. Esse tema foi apontado no esboço do relatório de Paulo Pinheiro quando ele fala que as medidas repressoras adotadas pelos governos contra grupos criminosos ou gangues sem estratégias de prevenção consistentes – que levam em conta informações apropriadas e respeitam os direitos humanos -, contribui para a estigmatização dos jovens pobres e o aumento da violência.
Que idade têm esses jovens envolvidos com armas de fogo?
Existem jovens envolvidos em violência armada organizada em um ambiente com uma hierarquia definida com até 12 anos como o caso das crianças carregando armas de grosso calibre no Rio de Janeiro, por exemplo. E tudo indica que a idade média está diminuindo.
O que significa para as políticas públicas quando a criança afetada pela violência armada é aquela que puxa o gatilho?
O maior desafio que nós temos é o de se lidar com a violência cometida por crianças e jovens a partir de uma perspectiva prática sem ficar presos em preconceitos morais ou éticos. Essas crianças estão sendo envolvidas nesses atos por diversas razões. Quais são essas razões? Podemos trabalhar com esses motivos? Uma vez que esses jovens se envolvem, como podemos tirá-los desse meio?
Existe um conflito com a lei?
De forma alguma! Em muitos casos proteger um jovem em situação de risco significa seguir e garantir a implementação da lei como manda o Estatuto da Criança e do Adolescente. Em outros casos, dispositivos legais estão sendo usados para aplicação de medidas repressivas como as leis anti-gangues na América Central, segundo a qual um jovem envolvido em um crime sofrerá penas mais graves se fizer parte de uma gangue.
Nós dependemos da lei e das ações da polícia que são fundamentais e parte do problema. Mas olhar para a raiz do problema é também olhar além dos estereótipos que apenas alimentam mais a repressão. Olhar para a criança envolvida com a violência significa buscar alternativas à repressão, ao encarceramento, à exclusão social e até às execuções sumárias dessas crianças, táticas que só agravam o problema, como comprovam as gangues da América Central.
O tema da violência armada está relacionado ao tráfico de drogas?
O relatório de Paulo Pinheiro também menciona a exploração do trabalho infantil no tráfico de drogas. Esse é um relatório sem precedentes pois abre janelas que nos permitem ver a vida confusa das nossas crianças excluídas. Nós comemoramos a sua publicação e reconhecemos que esse é só o começo. Ainda temos muito a fazer.
Você trabalha com pessoas muito jovens em situações de extrema urgência mas você também é bem jovem... Como você se envolveu tão cedo com um problema tão sério como este?
Eu não achava que ia ficar tão sério quando comecei o Luta pela Paz (que me levou à minha outra pesquisa). No início, se tratava apenas de boxe, um esporte que tive que abandonar por causa de um ferimento na cabeça, e com o qual eu gostaria de continuar trabalhando como técnico e montar uma academia. O trabalho ficou mais sério quando os jovens começaram a me mostrar as dificuldades que enfrentavam no seu dia-a-dia tentando sobreviver. O fato de estar tão envolvido com eles através do esporte levou a um nível maior de comprometimento. Eu acho que poucas pessoas que estiveram tão próximas a esse problema conseguiram não se envolver pessoalmente apesar de sua idade.
Na Espanha, os Latin Kings (gangue internacionalmente famosa) acabaram de ser “elevados” à categoria de clube ou associação. Você acredita que essa seja uma nova forma de comércio ou uma saída para jovens que queiram se ver livres da violência?
As sub-culturas, estruturas de apoio e vantagens socioeconômicas que esses grupos organizados oferecem aos jovens são bem maiores do que a sociedade pode supor quando os define ou os trata simplesmente como gangues. Por esta razão, reconhecer sua importância como formações grupais, mas encorajando seus membros a se manter longe da violência como uma ferramenta para o reconhecimento social ou territorial/econômico, por exemplo, é definitivamente um passo na direção certa. Se os Latin Kings pararem de se envolver com o tráfico de drogas e com a violência (como aconteceu em Nova York durante um período) e tiverem um comportamento pro-social e inclusivo, esse grupo pode representar uma estrutura positiva para os jovens de qualquer comunidade, em desvantagem ou não.
Traduzida por Aline Gatto Boueri e Shelley de Botton
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