América Central: uma sociedade explosiva
Os jovens, que são metade da população centro americana, são as principias vítimas da violência na região, assim como os principais algozes. Ambos são provenientes do mesmo cenário de exclusão social, partilham as mesmas condições socioeconômicas e culturais e são vistos como uma ameaça pelo resto da sociedade, que reage ao problema com clamores por repressão, o que perpetua o círculo de violência e marginalização.
Esta é uma das conclusões do informe especial “La cara de la violencia urbana en América Central. Armas, violencia y juventud”, lançado em 15 de agosto de 2006 e baseado em uma pesquisa da Fundación Arias, que analisou dados desde 2000 com colaboração de uma equipe de especialistas locais.
“A América Central é uma sociedade explosiva por ser uma zona de pós-conflito, onde a violência é tolerada, com uma considerável disponibilidade de armamento de fácil acesso; quase três milhões de armas em circulação, 700 mil delas oficialmente registradas”, adverte a coordenadora do estudo Ana Yancy Espinoza, da Fundación Arias.
“Violência juvenil hipoteca o futuro da América Central”
A frase, exraída da nota de divulgação da pesquisa, traduz bem a realidade. Segundo o estudo, as vítimas da violência na América Central – e no mundo todo, de acordo com informações internacionais – são jovens entre 13 e 29 anos pertencentes a minorias étnicas ou raciais, vindos de áreas onde há crise econômica ou de ambientes urbanos de baixa renda, com altas taxas de natalidade e densidade populacional, desemprego e baixa escolaridade.
“Muitos dos jovens, tanto vítimas como agentes da violência, sofreram maus-tratos, abuso ou violência familiar em seus lares; experimentaram situações de abandono; nunca tiveram oportunidade de acesso à educação e à cultura e são incapazes de entrar no mercado de trabalho em condições de igualdade e segurança. Estas características e o fato de terem vivido em contextos de exclusão e marginalização constrói uma imagem negativa deles para a sociedade”, destaca Ana.
Isso em vista, a pesquisa pretende interpretar a violência como um fenômeno multicausal de caráter estrutural, resultante da ação recíproca e complexa de fatores individuais, de relacionamento, sociais, culturais e contextuais. Assim, o problema não demanda apenas ações repressivas, como tem sido a resposta até o momento na América Central, mas soluções integrais.
Estudo identifica diferentes formas de organização juvenil
A pesquisa analisa a “rota crítica da violência”, que começa pela família, passa pelo sistema educativo e os meios de comunicação, e estuda vários tipos de comportamento: violência física, psicológica ou emocional, sexual, patrimonial (supressão de bens), que por sua vez se expressam em diferentes âmbitos, como o doméstico, o escolar, o comunitário e o estrutural.
“Sem dúvida, uma das principais contribuições do estudo é desacreditar a identificação simplista, popularmente aceita, entre juventude e delito, grupo de rapazes e gangue, violência estudantil e delinqüência, ‘pandillas’ e ‘maras’, e distinguir com precisão as diferentes formas de organização da violência juvenil”, diz Ana.
O documento analisa processos sociais diferenciados que deram origem ao surgimento de grupos estudantis politizados nos anos 60, ‘pandillas’ de bairro nos anos 80 e ‘maras’ na última década. Também diferencia a violência estudantil, limitada a unidades de ensino; a ‘barra’, que se restringe ao ambiente de bairro; a ‘mara’, ‘pandilla’ (gangue) especializada; e a ‘banda’ armada ou criminosa.
O estudo explica que a ‘mara’ é um fenômeno específico de Guatemala, Honduras e El Salvador, com ramificações nos Estados Unidos e México, que surgiu com a adaptação das ‘pandillas’ de imigrantes centro americanos à cultura das gangues de rua em Los Angeles (Califórnia), Chicago e Nova Iorque.
“Ainda que superdimensionado, o fenômeno é apenas uma parte da violência urbana visível, e foge ao controle quando os Estados Unidos aplicam uma política de prevenção ao delito que manda os ‘mareros’ de volta a seus países de origem”, diz Ana.
O resultado da política norte americana é, segundo a pesquisa, desastroso. “A América Central é incapaz de conter as novas e radicais formas de violência, que se fortalecem ao estabelecer relações com o narcotráfico, com o tráfico de armas, os ‘sicarios’ (grupos de extermínio) e o crime organizado”, adiciona.
Leis antimaras potencializam o fenômeno
O estudo questiona também a aplicação de políticas exclusivamente repressivas para combate da delinqüência juvenil, como as leis ‘antimaras’ ou os planos ‘mano dura’, tanto do ponto de vista do respeito aos direitos humanos quanto de sua alegada eficácia.
“Em alguns países, houve aumento na porcentagem de homicídios, o sistema penitenciário entrou em colapso e guerras carcerárias entre ‘bandas’ rivais passaram a ser corriqueiras”, lamenta Ana.
A conclusão da pesquisa aponta para a necessidade de prevenir o uso da violência juvenil como forma de ‘seleção natural’ por parte de grupos marginais, como controle social do Estado ou como ‘bode expiatório’ para ocultar problemas de segurança estruturais e de difícil resolução.
Para saber mais:
A pesquisa está disponível para download no site da Fundación Arias http://www.arias.or.cr/ (em inglês e espanhol)








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