Colômbia sob a sombra da cocaína
Adan, 62 anos, camponês da Serra Nevada de Santa Marta, na Colômbia. Ex agricultor de cacau, ele começou a plantar coca há 18 anos. Mas ele só não planta folha de coca. Ele também a colhe e a transforma em pasta base de cocaína, um meio de sustentação comum na região.
“Nessas terras se plantava cacau. Agora tudo virou plantação de folha de coca”, diz Adan e aponta para o conjunto de montanhas em volta.
A Serra Nevada de Santa Marta fica no norte da Colômbia, próxima à fronteira com a Venezuela. Na parte mais baixa quem controla a região é a Frente de Resistência Tayrona, bloco local das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), sob o comando de Hernán Giraldo Serna, alias “El Tigre”. Na parte alta o domínio é das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as FARC. Ambos os grupos, embora fundados numa ideologia diametralmente oposta – as AUC são de extrema direita enquanto as FARC são de esquerda - convivem lado a lado, separados por alguns quilômetros de distância e obtém seus lucros de um mesmo produto: a produção de pasta base de cocaína.

- “E o Governo?”, pergunto.
- “Eles sabem”, responde Adan. “Todos sabem os lugares onde se planta coca e onde se produz pasta base neste país. Não é segredo para ninguém”, garante.
Adan é dono de 100 hectares de terra e diz não ter medo de plantar e produzir algo ilegal. “Eles nos protegem”, afirma referindo-se aos paramilitares. “Nós vendemos a pasta aos narcotraficantes e eles, por sua vez, pagam uma taxa aos paramilitares para poder comprar de nós. Quando um narcotraficante tenta pagar diretamente ao produtor, bom... não há quem conte a história”, diz.
Os paramilitares lucram duplamente com o negócio, pois além da taxa paga pelos narcotraficantes, eles também recolhem um “imposto” dos camponeses por hectare plantado.
Cultivo rentável para poucos
A folha de coca dá quatro colheitas ao ano. Quem apanha a folha geralmente são crianças e jovens conhecidos como “raspachinos”, que ganham por quilo de folha recolhido. São eles também que pisam na folha junto com cal e sal durante algumas horas antes de colocá-la em tonéis onde será misturada com gasolina. A primeira das muitas substâncias que serão acrescentadas até se obter a pasta base, entre elas ácido sulfúrico, permanganato de potássio e soda caustica. O processo leva em torno de 24 horas desde o primeiro tratamento e bastam apenas duas pessoas para realizá-lo.
Por colheita, Adan produz em média 6 quilos de pasta base (para cada quilo de pasta base são necessários aproximadamente 250 quilos de folha de coca). Cada quilo é vendido por seis milhões de pesos colombianos, ou o equivalente a seis mil reais.
“Nesse mundo, o agricultor nunca fica rico. Quem fica rico são os que comercializam a droga”, diz. E Adan tem razão. A proporção de cocaína para pasta base é de um para dois. Em outras palavras, para produzir um quilo de cocaína pura são necessários dois quilos de pasta base. No mercado negro dos Estados Unidos um grama de cocaína pode chegar a custar cerca de 170 dólares.
A diferença é ainda maior quando se consideram as etapas de distribuição e de corte do produto. A cocaína é talvez a droga mais sujeita a ser adulterada. Em 1974 os laboratórios Pharm Chem examinaram quarenta amostras de diferentes doses de cocaína que circulavam no mercado clandestino da Califórnia e determinaram que todas estavam adulteradas em proporções que variavam entre 30 e 40%.
E com o Plano Colômbia - programa de combate ao narcotráfico no país com financiamento dos EUA – a cocaína está mais cara e menos pura ainda. Motivo de comemoração para o diretor do Escritório Nacional do Controle de Drogas dos Estados Unidos, John Walters, que acredita que a alta no preço e a menor pureza do produto são indicadores de que a oferta caiu como resultado do programa.
“Nos Estados Unidos, 15% dos usuários de cocaína consomem 80% da droga. Se estas drogas dependem dos viciados, quando interrompemos a oferta, mudamos o mercado de forma duradoura”, disse em entrevista à BBC, em 18 de novembro de 2005.
Segundo Walters, entre fevereiro e setembro do ano passado, o preço da droga aumentou 19%. O funcionário explicou também que como a redução da oferta foi maior do que a redução na demanda, a droga está sendo vendida menos pura para render mais.
Há dois tipos de “cortes” para a cocaína. Os cortes inativos servem para dar peso: lactose, talco, bórax, ou qualquer produto semelhante à cocaína que não tenha efeitos colaterais perceptíveis de forma imediata. Para compensar a potencia perdida nas adulterações, são acrescentados cortes ativos, que podem ser de dois tipos: excitantes (anfetaminas em pó) e produtos que imitam o efeito característico de adormecimento da boca como novocaína ou benzocaína. Acredita-se que a quantidade de cocaína que chega ao consumidor final possa chegar a apenas 20%.
Fumigações
Walters também rebateu críticas à falta de políticas do governo dos EUA para a redução do consumo interno: “Sabemos que resolver o problema em casa é central no que necessitamos fazer para o bem do nosso país e reduzir a demanda que sabemos que está criando problemas em outros países”.
Os problemas realmente não são poucos. O Plano Colômbia está em atividade desde julho de 2000. A meta era reduzir os cultivos de coca em 50% até o fim de 2005. Durante os primeiros anos de execução os cultivos aumentaram até 169 mil hectares. Na época, as autoridades responsáveis explicaram que o programa levaria tempo em mostrar resultados. Em 2002 os cultivos efetivamente diminuíram até 134 mil hectares e em 2003 se reduziram para 114 mil. Porém a cifra se manteve igual no ano seguinte, apesar de ter sido o ano com mais fumigações: 130 mil hectares.
As hipóteses levantadas para o retrocesso são o deslocamento dos cultivos de uma região para outra, a preferência por áreas cada vez menores de plantação e até mesmo a existência de uma semente de coca transgênica, que seria mais resistente aos químicos lançados dos aviões.
Em todo caso, as fumigações prejudicam a população local e podem resultar numa catástrofe ambiental de graves conseqüências. Os herbicidas utilizados pelo governo incluem produtos químicos como o Paraquat e o Triclopyr, e outros, muito mais nocivos, como o Imazapyr, a Hexaxinona, o Tebuthiron e o Glifosato, a maioria produzidos pela multinacional Monsanto.
E apesar da estratégia, que não só inclui a fumigação com químicos, mas também forças militares de combate à guerrilha e a contratação de pessoas para a erradicação manual, a Colômbia continua sendo responsável por mais de 80% da cocaína vendida no mercado internacional. Mesmo assim, o plano é considerado um sucesso por ambos os países e é responsável por colocar a Colômbia no terceiro lugar em ajuda estadunidense, atrás de Israel e Egito.
Desde sua criação, o programa já consumiu cerca de US$ 3 bilhões de dólares, e para este ano os Estados Unidos prevêem destinar mais US$ 740 milhões a toda a região andina. Já para o tratamento do consumo interno, os EUA planejam gastar US$ 3 bilhões em tratamento e US$ 200 milhões em prevenção, segundo Walters.
Alternativas escassas
Adan conta que as plantações de folha de coca começaram a surgir na região há 20 anos e desde então vem se expandindo rapidamente. Antes a cultura predominante na zona era o cacau, mas uma peste destruiu a maioria dos cultivos há cerca de 15 anos e fez com que os agricultores se voltassem para a coca.

“Ao Governo não lhe interessa acabar com a coca. Eles nunca nos ofereceram ajuda e eles sabem o que se planta e se produz aqui”, denuncia. “Para eles é muito mais lucrativo deixar as coisas como estão. A polícia e o exército são muito bem pagos pelos narcotraficantes para que os deixem trabalhar em paz”.
Adan diz que antigamente alguns deles também produziam cocaína, mas os paramilitares os proibiram já que para transformar a pasta base em pó é necessário usar peróxido de acetona, um químico altamente explosivo.
“O medo deles é que a guerrilha roube nossa acetona para fabricar bombas, então nós agora só podemos produzir pasta base”.
Sobre a guerrilha, Adan diz não saber muita coisa, a não ser pelos desertores que se unem aos paramilitares.
“Têm muitas pessoas que resolvem abandonar a guerrilha e mudar de lado. O contrário é raro. Lá a vida é dura, restrita. Já com os paramilitares é diferente. Não é necessário se esconder nem viver isolado. Tudo funciona dentro da lei”, diz.
E de fato o domínio dos paramilitares na região não é segredo para ninguém. Eles são vistos com freqüência andando e vigiando as montanhas da Serra Nevada e para poder entrar na zona é necessário pagar uma taxa, carregar cópia do passaporte ou documento de identidade e obter um salvo-conduto. Tudo agenciado por uma única empresa de turismo local, que detém o monopólio sobre as visitas à área.
Estado paramilitar
A Colômbia, assim como a maioria dos países da América Latina, é uma nação rica em contrastes. O país vive um conflito civil que dura mais de 30 anos. Os atores armados em atividade são as guerrilhas de esquerda (FARC e o Exército de Libertação Nacional, ELN), os paramilitares - financiados pelas elites latifundiárias - e as forças armadas.
Após infinitas tentativas mal sucedidas de negociações de paz ao longo de todos esses anos, o atual presidente Álvaro Uribe conseguiu fechar um acordo com os grupos paramilitares para que se desmobilizem sob a polêmica Lei de Justiça e Paz. Cerca de 20 mil combatentes das AUC já entregaram suas armas desde que o grupo começou as conversações com o Governo em 2003. No entanto, a nova legislação é alvo de inúmeras críticas, tanto por setores da sociedade civil colombianos, quanto por organizações de defesa dos direitos humanos internacionais.
O Alto Comissionado das Nações Unidas para Direitos Humanos (ACNUDH) adverte que a lei pode “abrir caminho para a impunidade” por ser permissiva demais. Pela legislação, os paramilitares que entregarem suas armas, liberarem seqüestrados, se desmantelarem e cessarem qualquer hostilidade serão beneficiados com uma forte redução de penas de privação de liberdade e amplas possibilidades de liberdade condicional para quem cometeu crimes graves, inclusive contra a Humanidade.
Além disso, a lei tem um caráter voluntário e não obriga a dizer toda a verdade, já que tudo depende da informação que a pessoa queira entregar. “A lei foi criada pelos paramilitares. Estimula a impunidade, não toca na questão da terra e dá um caráter político a um grupo insurgente, que possibilita sua legalização e facilita a lavagem de dinheiro”, aponta Ivan Ramirez, sociólogo da ONG Corporación Paz y Democracia, em Medellín.
Ivan também adverte para a brecha aberta para os narcotraficantes, que podem comprar um exército e tornarem-se comandantes para logo depois se desmobilizarem sob os benefícios da lei, escapando de uma possível extradição para os EUA.
E de fato ocorreu uma expansão paramilitar no país, indica o Relatório sobre a Situação dos Direitos Humanos na Colômbia de 2005. Elaborado pelo ACNUDH, o documento alerta para a eventual interferência política desta organização no país. O que foi confirmado por Vicente Castaño - um dos principais chefes paramilitares da Colômbia – que declarou à revista Semana, em 6 de junho de 2005, que as AUC detêm 35% de representatividade no Congresso Nacional.
E ainda, segundo o relatório da Organização dos Estados Americanos (OEA), divulgado no início de março deste ano, pelo menos quatro mil paramilitares retornaram a suas atividades criminais, entre elas a extorsão, a intimidação, o homicídio e o controle territorial para a exportação de cocaína e contrabando de armas. O documento explica que diversas frentes paramilitares deixaram grupos clandestinos sem se desmobilizar e começaram a operar com outros nomes.
Falsa segurança
Sobre as desmobilizações Adan diz que não o preocupam. E não é para menos. A uma semana da data marcada para a Frente de Resistência Tayrona entregar suas armas era visível a apreensão dos camponeses da região que se preparavam para se apresentar ao conselho local para se “desmobilizar”. Em troca das armas – a maioria velha e defeituosa – eles receberão uma pensão mensal de 400 pesos colombianos por mês durante quatro anos. Um motivo mais do que suficiente para apoiar o homem que os protege e que atua como a lei no local.
E apesar de admitir não saber o que vai acontecer, Adan aposta que pouca coisa vai mudar. “Nós aqui formamos 108 veredas (cada vereda é habitada por uma média de 50 famílias) e nenhuma quer ver ‘El Tigre’ atrás das grades ou, muito menos, sendo extraditado para os Estados Unidos. Nós podemos facilmente nos virar para o lado da guerrilha e o Governo sabe disso”, diz em tom de advertência.
Em ano de eleições gerais na Colômbia as palavras de Adan têm um peso ainda maior. Uribe é forte candidato à reeleição. A base de sua campanha são as diminuições nos índices de violência em todo o país. Segundo dados oficiais, a taxa de homicídios caiu para 10%, a menor em 18 anos. Mas se para a maioria das pessoas a atual administração trouxe segurança, para alguns não passa de uma falsa percepção. “O que aconteceu é que o Estado se narcotizou”, afirma Ivan, e aponta para o fato das estatísticas ignorarem o índice de desaparecidos, que cresceram numa proporção maior ao de homicídios.
“A segurança na Colômbia foi privatizada e todos nós estamos pagando um preço muito alto por isso. Com a nossa liberdade”, sentencia.
*Reportagem e fotos por Carola Mittrany, publicada originalmente na Revista Fórum, número 37, em abril de 2006.







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