Impressões de uma desmobilização, parte 1: o grupo
Acompanhar uma desmobilização de combatentes de um conflito é uma experiência muito forte. Por mais que você saiba para onde está indo e o que está indo fazer, as imagens, as pessoas, os sentimentos surpreendem e trazem muitos questionamentos. Mas antes de iniciar essa história é preciso contextualizá-la.
A Colômbia vive hoje o conflito mais duradouro da América Latina. A riqueza concentrada nas mãos de poucos e a corrupção generalizada por séculos gerou uma situação propícia para aparição da guerrilha, que viu na insurreição armada uma possibilidade de reforma agrária e justiça social, sendo seus principais alvos, inicialmente, os latifundiários.
A atuação da guerrilha, com seqüestros, extorsões, assassinatos de políticos e empresários agropecuários, desencadeou o surgimento dos grupos de “autodefesa” locais na década de 60, respaldados então pelo governo, que posteriormente agruparam-se sob o nome “Autodefensas Unidas de Colômbia” (AUC), um conjunto de ”defensores” locais articulados estrategicamente, em meados dos anos 90. Nessa época a existência de tais grupos já era considerada ilegal pelo mesmo governo que a tornou legal. Em muitas regiões este grupo conseguiu fazer a guerrilha recuar e com isso obteve o controle social, econômico e político das mesmas.
Em 2004, quando as Autodefensas Unidas de Colômbia estavam no seu auge, se iniciou um processo de diálogo entre este grupo e o Governo, que culminou com a assinatura de uma série de acordos de paz.
Estes acordos previam a “desmobilização, desarmamento e reinserção” (DDR) dos membros do grupo, que a partir da entrega de armas e do compromisso de não voltar a armar-se, ingressam em um programa de DDR onde recebem uma série de benefícios com objetivo de se reintegrarem à vida civil.
Desde a assinatura destes acordos até o presente momento já foram desmobilizados aproximadamente 30 mil homens e mulheres. Todavia é importante ressaltar que o conflito não termina aí, pois ainda existem grupos de guerrilhas lutando.
Para os que não conhecem uma desmobilização, apesar de haver variações entre países, o processo se dá mais ou menos assim: os grupos armados são reunidos em uma “zona de concentração” previamente acordada entre as partes e nessa zona permanecem por alguns dias (ou meses em alguns casos)1.
Depois os grupos passam por um “circuito”, ou seja, uma série de instituições que vão identificar cada um, recolher declarações de crimes cometidos, como/onde atuava, dados pessoais e onde pretende viver, assinar termos de compromisso de deixar armas, etc. Neste mesmo espaço fazem uma avaliação de saúde, recebem sensibilizações sobre o processo, indenizações por deixarem as armas, e por último, entregam as armas em uma cerimônia onde estão presentes autoridades, organismos de verificação, imprensa e membros da comunidade.
O grupo
Quando se fala em “grupo”, em geral se tem a idéia de homogeneidade, e essa foi a primeira surpresa que tive quando cheguei à zona de concentração: perceber que o “grupo” é muito heterogêneo. À medida em que as pessoas vão chegando, você pode perceber as diferenças entre umas e outras.
Dentre os combatentes existem “pais” e “mães”, “esposos” e “esposas” que deixaram suas famílias e por muito tempo não puderam acompanhar o crescimento de seus filhos. Estes chegam com um semblante de esperança e alívio, vão enfim voltar para o seio da família. Vão poder estar com filhos, marido ou esposa à luz da vida civil.
Há muitos jovens que chegam com uma expressão que mistura medo e vontade de viver. São jovens que foram recrutados de maneira forçada ou se viram forçados a entrar no conflito, em geral por questões econômicas: a tão falada “falta de oportunidades”. Esses costumam chegar muito desconfiados. São pessoas que levaram muitas rasteiras da vida, e não podem se dar ao luxo de levar outras. Têm dificuldade de falar e não vão acreditar na reinserção até que ela se torne uma realidade em suas vidas.
Por outro lado, pode-se identificar os matadores ou “sicários”. São pessoas que geralmente “lutam” em áreas urbanas, são contratados para cometer assassinatos contra alvos bem específicos. Esses são solitários por natureza, trabalhavam sós ou em pares, e sabem que estão marcados por duas razões: porque cometeram pessoalmente muitos assassinatos “a sangue frio”, muitas vezes presenciados por companheiros, filhos, pais ou irmãos da vitima, e a desmobilização não traz consigo o perdão incondicional de todas a vítimas do conflito. E porque são muito “valiosos” para os que os contrataram, guardam muitos segredos e poderiam ajudar a resolver crimes que muitos não querem que sejam resolvidos. Podem terminar mortos por seus próprios companheiros.
Ainda, estes estão marcados de outra forma e para se reinserir necessitarão de um apoio psicológico muito especial, pois se desumanizaram para poder cumprir com suas funções. São personagens especialmente afetados e estigmatizados pelo conflito.
Existem também os deficientes físicos, que se feriram em “combate”. Esses, apesar de chegarem muito vulneráveis, são muito receptivos: “qualquer ajuda é bem-vinda”.
Há os “cooperantes” e a chamada “base social”. Os primeiros vão desde operadores de rádio e informantes (milicianos) até cozinheiros, costureiros, provedores de comida. Ainda há as mulheres: a maioria cozinheiras ou prostitutas (às vezes fazem os dois), porém há o grupo das combatentes. Vêm armadas e fardadas como os homens. São mulheres que em geral se envolveram no grupo através de seus companheiros, e em alguns casos se tornam combatentes tão duras quanto seus parceiros masculinos.
Por fim, chegam os comandantes. Na sua maioria são fáceis de identificar, pois têm uma liderança muito forte sobre seus “soldados”, estão sempre rodeados de gente (soldados ou escoltas), são consultados com freqüência e têm um papel de “organizar” o grupo na zona. Esses tampouco são um grupo heterogêneo e é muito difícil saber de suas intenções ou próximos passos. Alguns efetivamente deixarão o conflito, outros provavelmente não. Isso se deve por um lado ao fato de que na Colômbia o conflito continua, ainda há atores armados para “combater” e, por outro lado, ao fato de o conflito nesse país estar entrelaçado com o narcotráfico e com o dinheiro que este gera. Há ainda, é claro, questões relacionadas ao poder, e em alguns lugares ao respaldo adquirido nas comunidades onde atuavam.
Os comandantes em geral são divididos em “altos” e “médios”. Os comandantes “médios” são personagens que coordenavam taticamente as operações em regiões determinadas. Tem uma postura bastante militar, e são talvez as maiores incógnitas do processo de reinserção. Em geral não saem do conflito com as fortunas dos “comandantes altos”, são facilmente identificados pelas comunidades que controlavam, e como não participavam diretamente dos processos políticos, não têm a continuidade de poder garantida. Estão muito próximos dos “ex-combatentes” e podem facilmente voltar a delinqüir.
Já os comandantes “altos” são homens muito poderosos, na sua maioria figuras políticas, que “negociam com o governo”. Alguns lutaram batalhas junto a seus soldados, mas todos coordenavam estratégica e politicamente seus “grupos”. Em geral têm aspirações políticas e são muito carismáticos. Andam com uma média de cinco escoltas armados com armas modernas e por isso também são fáceis de identificar. São admirados por muitos, tanto por seus soldados, como pelas comunidades que formavam sua “base social”.
No fim do circuito acontece a cerimônia, pomposa e cheia de esperança. Ao todo, na cerimônia, aproximadamente 4500 homens e mulheres estão se ”desmobilizando”, mais de 800 armas (curtas e largas), 600 granadas e 140.000 cartuchos estão sendo entregues.
Os discursos falam de guerra e paz, de ódio e amor, de desespero e esperança. A fala do comandante mais alto por vezes causa revolta, mas também emociona e faz chorar. A música, interpretada por um compositor local, faz dançar. Os combatentes, soldados, formados em filas geometricamente alinhadas, fardados e armados, tão desumanizados pelo que representam, pelas fardas, armas e disciplina imposta, se desfazem de seus braceletes, chapéus e casacos camuflados ao ouvir a música. Aí precisamente se pode ver o ser humano dentro do conflito. O ser humano que é perpetrador e também é vítima da “guerra”. O ser humano que é parte do problema, mas também pode ser parte da solução. São os minutos onde tudo parece possível: até o fim do conflito, até a tão sonhada paz.
1 Na Guatemala, por exemplo, os combatentes permaneceram três meses na zona de concentração recebendo uma serie de capacitações e apoio psicológico antes de serem reintegrados à sociedade.








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