Quantos ajudaram a matar o sargento?

José Luiz Ferreira Viana tinha 54 anos de idade e contava os dias para se reformar como sargento da Polícia Militar do Rio. Segunda-feira passada, prendeu um ladrão que fugia na garupa de uma moto, jogando-o no chão. Por um instante, de arma na mão, desviou o olhar para acompanhar a prisão de outro bandido. Foi o que bastou para que o seu preso sacasse uma pistola escondida e desse um único tiro. José Luiz, o veterano sargento da PM, morreu na hora.

Você não tem qualquer experiência como policial. Mesmo que faça um curso de tiro, nada pode prepará-lo para um duelo com um marginal profissional. Principalmente se ele parecer indefeso, e mesmo que você tenha um revólver na mão. Ou uma bazuca. Você é amador, ele é profissional, e isso faz toda a diferença. Sem falar no fato de que, se ambos estiverem nervosos, o estado de espírito levará você a hesitar e ele a apertar o gatilho.

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, armas de fogo são usadas em 62,7% dos assassinatos no Brasil. No Japão, onde são proibidas, o índice é de 3,1%. Por que não as proibimos? O governo Fernando Henrique tentou, mandando ao Congresso um projeto que proibia porte e venda. Apesar de o governo ter maioria na Câmara e no Senado, o projeto foi eficazmente estraçalhado nas duas casas. Na apelidada Semana de Segurança na Câmara, nem a versão aguada do projeto inicial teve qualquer chance: foi retirada de pauta por acordo de lideranças. O motivo alegado foi o de que seria “muito polêmico”. Só de brincadeira, tente pensar em meia dúzia de medidas de alta importância que não sejam, por isso mesmo, muito polêmicas. E ficamos devendo ao ministro da Justiça um extraordinário argumento contra a proibição de venda de armas: “proibir é coisa superada pelo tempo”. Alguém consegue traduzir? O tempo, que se saiba, só acrescentou argumentos em favor da proibição, e não fez brotar medida ou política que prometessem reduzir com maior eficiência o potencial de bangue-bangue.

Mais poderoso que o tempo, existe um bem municiado lobby montado pela Companhia Brasileira de Cartuchos e pela fábrica de armas Taurus. Juntas, elas doaram pouco mais de R$ 1 milhão a candidatos ao Congresso em 2002. Nada há de ilegal nisso. Políticos reconhecidamente honestos, como a hoje deputada Denise Frossard, estão na lista dos beneficiários (que inclui o atual presidente da República). Eles não têm culpa se o lobby teve a esperteza de misturar, na lista de doações, pessoas íntegras e candidatos que vendem seus votos por dez réis de chumbo derretido. Ou deveriam pensar duas vezes? Cada honesto sabe de si. De qualquer maneira, dize-me com quem votas...

Pois assim estamos. O número de armas de fogo vendidas a amadores não pára de crescer. O número de mortes de inocentes, também não. Quem sabe, pelo menos o pessoal de Brasília acabará tendo o pudor de não chamar de Semana da Segurança estes dias que começaram com a morte estúpida do sargento José Luiz, vítima de uma arma provavelmente roubada de um boboca com complexo de John Wayne.

Publicado por O Globo

27/06/2003

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