Guatemala: Reality show transforma membros de gangues em empresários

20 de março de 2006 – Como reality show, ‘Desafio <?xml:namespace prefix = st1 ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:smarttags" />10’ tinha tudo para ser um grande e retumbante fracasso: dez estranhos morando juntos na mesma casa recebem treinamento durante dez dias com a missão de ao final do programa abrir um novo negócio. Nesse período, eles têm aulas de contabilidade, administração e relações públicas. As câmeras mostram todas as dificuldades na elaboração e implementação do projeto. De fato, nada mais entediante para os padrões atuais da TV mundial.


<?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" />

 


A idéia só começa realmente a ganhar contornos de candidato a grande sucesso na Guatemala a partir da escolha dos participantes: nada mais nada menos que dez jovens ex-membros de grupos rivais, como Mara Salvatrucha, 18, White Fence e North Hollywood. Segundo seu idealizador, Harold Sibaja, “jovens que todos querem ver mortos ou presos”.


 


Com estréia prevista para as próximas semanas na TV guatemalteca, ‘Desafio 10’ teve uma logística de produção complicada que exigiu paciência e jogo de cintura. Para colocar todos os ex-membros de gangue morando juntos na mesma casa, a Agência para o Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos (USAID), parceira do projeto, pagou $15 mil dólares para fechar contrato com a Creative Associates Internacional, uma empresa especializada em consultoria em Washington. Já empresas do setor privado investiram mais $50 mil dólares na produção, gravação e edição do programa.


 


Carlos Zúñiga, que trabalhou como uma espécie de mentor de um dos grupos na casa, admite que sempre achou que a solução para os jovens de gangue no país passava mais pelo lado policial do que social. Na verdade, não só ele como grande parte da população local. Hoje, Zúñiga mudou de idéia e se deu conta que os jovens são na verdade mais vítimas da pobreza, abuso e abandono do que propriamente criminosos que precisam ser punidos.


 


Em entrevista ao jornal The Washington Post, Zúñiga disse que “a questão das gangues precisa ser discutida pelo país inteiro”. E finaliza: “Esses jovens poderiam ser meus filhos!”.


 


"Já não sou um criminoso"


 


Entre os novos “filhos” de Zúñiga estão Marcos “Califórnia” Pérez, de 26 anos, e Eduardo “El Seco” Valle, de 22, os dois com histórias de vida bastante parecidas. Peréz, por exemplo, entrou para a gangue North Hollywood aos 11 anos – mesma idade que Valle na Mara Salvatrucha - e voltou para Guatemala aos 25 deportado pelas autoridades americanas após quase três anos na prisão por tráfico de drogas. Valle ainda tentou deixar a vida do crime duas vezes fugindo dos Estados Unidos.


 


Durante as duas semanas de gravação do programa, Pérez e Valle passaram por uma verdadeira transformação pessoal - não só eles como todos os participantes. Valle conta que ficou especialmente surpreso com a forma como as pessoas ao seu redor estavam dispostas a ajudá-lo. “Realmente não esperava por isso. A sociedade nos discrimina mas acho que agora que puderam nos conhecer melhor muitas pessoas estão nos apoiando”,  disse.


 


Os dez participantes do ‘Desafio 10’ foram divididos em duas equipes que tinham como missão abrir uma empresa ao fim do programa. A primeira optou por um pequeno negócio de reparo e manutenção de calçados, localizada num grande edifício comercial na Cidade da Guatemala. Esse grupo tem obtido sucesso rápido e aos poucos já começa a lucrar.


 


A outra, do qual Zúñiga era um dos mentores, abriu um serviço de lavagem de automóveis. Até o momento, o lava-carros não conseguiu muitos clientes. Mas Zúñiga acredita que a estréia do programa vai ajudar na promoção do negócio.


 


Outro ponto curioso na proposta do ‘Desafio 10’ é que durante as gravações todos os participantes usaram máscaras para esconder sua identidade. À medida que o tempo foi passando apenas dois mantiveram o anonimato. Pérez, que foi um dos últimos a tirar a máscara, admitiu que teve medo. Depois se deu conta: “não preciso mais me esconder, não sou mais um criminoso”.


 


Política Mano Dura


 


As gangues representam hoje um enorme desafio para os governos da América Central. Talvez, o maior desde o fim das guerras civis que devastaram a região há mais de uma década. A questão também é encarada como problema de segurança nacional nos Estados Unidos. Prova disso, é que os governos estaduais e municipais vêm adotando leis de tolerância zero para punir e prender integrantes de gangues e imigrantes ilegais.


 


Os governos de países da América Central também têm optado por uma política de segurança linha dura (ou ‘Mano Dura’, como são conhecidos ou programas de repressão). Na Guatemala e Honduras, por exemplo, os governos estudam o uso de militares em ações de repressão contra gangues. Outro caso comum é de policiais e até cidadãos comuns que decidem fazer justiça com as próprias mãos, os temidos grupos de extermínio que executam jovens sem a mínima cerimônia.


 


Em meio a tanto ódio e terror, as oportunidades de reabilitação para jovens envolvidos com violência armada são raras. Até para aqueles que decidem deixar as gangues.


 


Fontes: Washington Post, Presa Libre


 


Para saber mais: El Salvador endurece plano de repressão contra gangues