Viver o presente como opção de vida
ENTREVISTA/Marta Macías
Vestida de rosa, com acessórios no cabelo e anéis nos dedos, Marta Macías é uma jovem vaidosa. Bonita e simpática, é difícil crer que no passado ela esteve vinculada à violência armada organizada. Natural de Medellín, Colômbia, hoje em dia Marta é líder do Movimento Solidário pela Vida e pelo Desarmamento “No Matarás”, grupo que, segundo ela, tem como objetivo principal “arrebatar jovens do conflito”.
O movimento é composto por jovens que estiveram envolvidos em violência armada organizada. “Eles formam o grupo base e tratam diretamente com os chefes dos setores para que não matem os camaradas que por alguma razão tenham sido jurados de morte”, explica Marta.
Este grupo base é formado por 50 jovens que decidiram sair do crime e agora trabalham para resgatar e evitar o envolvimento de seus companheiros. Além disso, o movimento também conta com a participação de jovens que ainda não saíram da violência e alguns que se encontram em situação de risco. O grupo, com aproximadamente 200 jovens, integra as “células de vida” que atuam nos bairros e realizam trabalhos de prevenção chamados de “alertas preventivos”.
"No ‘No Matarás’ trabalhamos o tema da defesa e da vida”, afirma Marta. O movimento participa e apóia processos de não-agressão, de não-violência e de reconciliação, de programas institucionais, governamentais e não-governamentais, além de oferecer oficinas de educação cidadã e resolução de conflitos, entre outras.
“Trabalhamos com a mesma força a prevenção e a atenção”, diz Marta. O movimento tem sete anos de vida, Marta ingressou nele há quase cinco. “Vivo no presente. Esta é uma opção de vida”, afirma.
Delinqüência e paramilitarismo
Marta, assim como os demais companheiros do movimento, conhece de perto a realidade dos jovens em situação de risco. Não estudam, não trabalham e vivem em função das ‘galeras’. A droga faz parte do cotidiano, assim como aventurar-se pelo país. Em conseqüência, muitos acabam roubando, vendendo drogas e envolvendo-se na violência armada organizada como forma de subsistência.
“Comecei a usar drogas quando tinha 13 anos. Um ano depois saí de casa e me dedicava exclusivamente à gangue. Aos 19 anos tive uma overdose de cocaína e decidi sair dessa vida. Muitos dos meus amigos tinham sido assassinados e outros morreram em conseqüência do uso de narcóticos”, conta.
Dos companheiros que sobreviveram, Marta sabe que alguns atuam hoje em dia como comandantes de grupos paramilitares e apenas uma minoria conseguiu sair. “A guerra aqui em Medellín não mudou muito nos últimos 10 anos. Só mudaram os protagonistas”, diz.
Marta explica que a delinqüência comum passou a ser aproveitada pelos grupos paramilitares que utilizam as gangues para realizar o “trabalho sujo” do conflito armado, como matar, roubar e vender drogas. O território é dividido em áreas lideradas por chefes paramilitares, numa estrutura hierárquica onde o jovem fica cara-a-cara com a morte.
A informação é confirmada por Iván Ramírez, pesquisador da Corporación Paz y Democracia e colaborador do projeto COAV Cidades em Medellín. O informe que Iván produziu para a pesquisa internacional Nem Guerra Nem Paz revela que a maioria das gangues atualmente está subordinada aos grupos paramilitares (para ler o capítulo sobre a Colômbia, clique aqui).
Armas e mulheres
O acesso às armas é outra característica que torna letal e banaliza o envolvimento dos jovens na violência. “É muito fácil conseguir uma arma no mercado negro, o que habilita quase qualquer um a cometer um roubo”, observa Marta.
A jovem destaca também outro personagem do conflito armado: a mulher. “Há poucas mulheres com visibilidade nas gangues, mas há muitas que atuam por trás dos homens. A maioria dos camaradas se envolveu na violência por causa de uma mulher”, revela.
É necessário criar alternativas
Marta, que perdeu dois irmãos por conta da violência (um era chefe de gangue e foi assassinado enquanto estava em processo de reintegração, o outro foi vítima) acha que muitos jovens se envolvem em violência armada por falta de opções.
Para modificar este quadro, Marta considera necessário oferecer alternativas e criar espaços de cidadania onde os jovens possam ter uma participação efetiva. “Faço esse trabalho por amor. Sofri muito durante o tempo em que estive envolvida na violência e quero fazer o possível para evitar que outros companheiros passem pelo mesmo. Tenho apreço pela vida acima de tudo”, finaliza.
Traduzido por Aline Gatto Boueri
Para saber mais:
Leia o capítulo sobre a Colômbia, parte da pesquisa internacional Nem Guerra Nem Paz: Medellín: As crianças invisíveis do conflito social e armado








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