‘Temos estatísticas de guerra em Pernambuco’

Fórum Brasileiro de Segurança Pública

ENTREVISTA / Eduardo Machado

eduardo_machado_peq.jpgAos 34 anos, o jornalista Eduardo Machado é um dos nomes relevantes entre os que escrevem sobre segurança pública no Brasil. Nascido no Recife e repórter especial do Jornal do Commercio, Eduardo é autor de reportagens premiadas sobre violência, direitos humanos e segurança.

Em 2002, recebeu o Prêmio Essso de Jornalismo por um texto sobre quatro favelas violentas do país em São Paulo, Rio, Vitória e Recife. Também conquistou o Prêmio Vladimir Herzog, em 2006, por um caderno especial sobre como a Colômbia conseguiu contornar seus graves problemas de homicídios.

Em 2007, Machado criou, junto com três colegas jornalistas, o site PE Body Count, um contador online que contabilizava os homicídios no estado de Pernambuco. O registro era realizado a partir de um minucioso levantamento feito pelo grupo junto a institutos de medicina legal, delegacias e batalhões de polícia, entre outras fontes.

Para acompanhar a contagem, os jornalistas promoveram ações de conscientização com grande repercussão. Penduraram mais de mil lenços em uma igreja do Recife, representando pessoas assassinadas, fincaram centenas de cruzes na praia de Boa Viagem e pintaram durante um mês desenhos de corpos no local de assassinatos, todos com a palavra “Basta” escrita no peito.

Com a iniciativa, incomodaram autoridades locais a respeito da violência no estado, conseguiram chamar a atenção da mídia e incentivaram um debate mais profundo sobre os problemas e soluções para a segurança pública nacional.

No início de setembro - três anos e quatro meses depois de inaugurado -, o projeto acabou por falta de patrocinadores. "Acreditamos que cumprimos o nosso objetivo. Nascemos da inquietação. Do sentimento de que era possível cobrar e construir saídas coletivas. Começamos a caminhada em primeiro de maio de 2007, uma semana antes de o governo do Estado lançar o Pacto pela Vida", afirmam os jornalsitas no último post do blog.

Como você se tornou um jornalista especializado em segurança pública?

Comecei como estagiário do Jornal do Comércio em 1997, na editoria de Cidades, que trata do dia-a-dia do Recife. Já entrei logo na área de polícia, escrevendo sobre segurança pública. Foi algo do qual gostei logo de início. Ali aprendi a desconfiar do que estão dizendo, aprendi a entender a necessidade de ouvir sempre os dois lados da notícia.

O que aprendeu com as reportagens sobre violência e direitos humanos?

Com a reportagem com a qual ganhei o Esso, em 2002, em que falava das quatro favelas mais violentas do Brasil, tive de viajar para São Paulo, Rio, Vitória, comparando todas elas com uma comunidade do Recife e mostrando que esses eram os lugares mais violentos do Brasil.

Não fomos a esses locais mostrar a violência, fomos para mostrar que, neles, quem praticava a violência e criminalidade era uma minoria. Que ali existem várias pessoas e famílias que levavam suas vidas de forma digna, mas que viviam oprimidas por essa violência e até pelo combate a essa violência.

Isso foi um marco em minha mudança de visão sobre segurança pública. A partir dessa reportagem demos um passo na tentativa de mostrar como tudo podia ser diferente, que o foco não precisa ser na guerra contra o crime, mas sim na prevenção e na valorização de bons exemplos e boas práticas.

E essa mudança da visão sobre a cobertura jornalística de segurança pública acontecendo também com outros veículos e jornalistas?

Acho que ainda estamos em um processo de avanço nessa questão da visão da imprensa, de maneira geral, em torno da criminalidade e de vários outros temas, como direitos humanos. Isso tudo faz parte de um amadurecimento.

Temos de ver que faz 25 anos que acabou uma ditadura no Brasil. A imprensa pode se dizer livre apenas a partir de 1985 e talvez a gente esteja apenas na segunda ou terceira geração de jornalistas que estão começando a entender as coisas de uma maneira mais ampla.

Há dezenas de exemplos de jornalistas que têm consciência do que estão fazendo, mas existe, claro, uma parcela enorme de expoentes que ainda não conseguiram enxergar que há uma responsabilidade muito grande na difusão de notícias de criminalidade.

Como é a relação entre as autoridades e o setor da imprensa que escreve sobre segurança pública?

É uma relação mais de ódio que de amor. As autoridades brasileiras ainda estão longe de entender o que é uma crítica, de afastar a questão pessoal do desempenho profissional deles. É muito difícil uma autoridade entender que o melhor amigo dele é um fiscal criterioso e honesto que quer a melhoria dos serviços prestados à sociedade. É importante saber lidar com a mídia – claro, aquela mídia que faz críticas, mas que trabalha de forma respeitosa e é honesta. A autoridade e a imprensa, juntas, podem construir muito mais.

Como está hoje a situação da violência em Pernambuco, considerado um dos estados com os piores índices de criminalidade do país?

Pernambuco hoje tem um sólido programa de segurança pública com um acompanhamento e um controle que não existiam até então. É um programa chamado Pacto pela Vida, que acompanha semanalmente todas as estatísticas policiais de homicídios que ocorrem no estado.

O estado foi dividido em áreas, e cada área tem um gestor da Polícia Militar e da Polícia Civil. Toda semana esses gestores têm de prestar contas a seus superiores a respeito de quantos homicídios ocorreram em sua área. Eles têm metas estipuladas, têm prazos e também soluções para que esses crimes não explodam.

Ou seja não é simplesmente jogar os caras nessas áreas e dizer que não pode ter homicídio lá. Há uma série de operações policiais e medidas que eles podem colocar em prática e que são acompanhadas diretamente. Há um envolvimento direto do governador nisso.

Sem contar que a liderança não fica a cargo exclusivamente dos policiais. O secretário de Planejamento do estado é quem conduz isso e é quem mais cobra essa questão. Até porque o Pacto pela Vida não se resume à Secretaria de Defesa Social. Existem ações que são desempenhadas pela Justiça, pelo Ministério Público, pela Secretaria de Saúde e pela Secretaria de Desenvolvimento Social.

E quais são os resultados?

Desde 2007, o nosso estado entrou num processo decrescente nos números de homicídios. Em 2007, houve queda de 2%; em 2008 de 2,5%; em 2009, tivemos uma queda de 12% no número de homicídios. No primeiro trimestre de 2010, houve uma queda de 13%.

É uma iniciativa, portanto, que tem trazido resultados realmente positivos. Apesar de Pernambuco continuar sendo um dos estados mais violentos do Brasil - de acordo com os últimos dados nacionais divulgados em 2008, ainda estamos em terceiro lugar no ranking dos estados mais violentos do país. Temos ainda estatísticas de guerra.

Como surgiu a ideia de criar o site PE Body Count?

No começo de 2007, saiu uma reportagem no jornal falando do Rio Body Count, que era um contador de homicídios a partir de notícias vinculadas na imprensa feita por um grupo de amigos. Eles instalaram na internet um contador de homicídios.

Vi que aquilo poderia ser feito em Pernambuco também. Quando tinha feriado aqui, a gente contava os homicídios e publicava o resultado às segundas-feiras no jornal, o que sempre causava grande repercussão, pois a gente contrapunha esses dados com os dados oficiais. A contagem era feita telefonando para as delegacias, institutos médicos legais do estado e hospitais.

De 2006 para 2007 explodiu o fenômeno dos blogs. Vimos que poderíamos juntar as duas coisas: poderíamos ter, ao mesmo tempo, um contador e um blog para cada um relatar os bastidores de suas reportagens de polícia. Enfim podíamos colocar no blog informações que não cabiam no espaço físico do jornal.

Lançamos o contador de homicídios em maio de 2007 e foi uma repercussão tremenda. Tem um conteúdo muito importante de conscientização, que é o que a gente queria fazer, acabando com aquela história de ficar só reclamando da falta de segurança e incentivando uma discussão mais profunda a respeito do tema. Conseguimos fazer isso.

Quais são as suas fontes?

No começo, nós quatro revezávamos, cada um fazendo um dia essa contagem por telefone. A gente faz umas dezenas de ligações por dia, entre 30 e 50 ligações para delegacias, para batalhões de polícia, para os institutos de medicina legal de Pernambuco.

Com esse levantamento, uma empresa de software daqui de Recife criou para nós uma página de administração onde a gente cadastra os nomes das pessoas mortas e automaticamente é atualizado o número de homicídios. Todos os dias fazemos esse balanço, praticamente em tempo real.

E como foi a reação das autoridades?

Tivemos algumas reações veladas e outras explícitas. Fizemos ações que extrapolaram a internet. Fizemos, por exemplo, uma ação chamada Mar de Lágrimas, em que penduramos lenços na frente de uma igreja de Recife representando as pessoas assassinadas em Pernambuco. Fincamos cruzes na praia de Boa Viagem. Durante um mês, mandávamos a lista das pessoas assassinadas naquela semana para as igrejas e os padres liam nas missas os nomes das pessoas mortas.

A mais forte dessas ações foi o Mártires da Violência. Durante o mês de outubro de 2007, pintamos no chão o desenho de um corpo no local onde a pessoa foi assassinada, com a palavra “Basta” no peito. Isso deu uma grande repercussão. Depois de um mês, a cidade tinha mais de 80 marcas espalhadas.

Acreditamos na transformação através do constrangimento. E foi bastante constrangedor para as autoridades a repercussão do trabalho que a gente estava fazendo. Isso contribuiu para que muita coisa mudasse.

Saiba mais:

Ações integradas e participação da sociedade

Pacto pela Vida reduz homicídios em Pernambuco

Pernambuco conta seus mortos

Em outros sites:

PE Body Count

Secretaria de Defesa Social de Pernambuco

Rio Body Count

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