Uma documentarista na zona de conflito
ENTREVISTA / Shelley Saywell
Não há tema intimidante, distante ou perigoso demais para a documentarista canadense Shelley Saywell. Há 20 anos ela leva a sua câmera e pequena equipe para zonas de guerra e áreas de conflito, trazendo para casa notícias sobre as mulheres, crianças e homens afetados pela violência em suas mais diversas formas. Seu trabalho a levou para o Iraque antes e depois da ivasão americana e filmou na Bósnia, Afeganistão, Somália, para citar apenas três lugares.
O filme "A Child's Century of War" ("Um século de guerra para crianças", em tradução livre) registrou os testemunhos de crianças na Chechênia e Serra Leoa. Dentre os seus temas recorrentes, estão a mulher e o conflito: a vida de Faye Schulman, judia sobrevivente do Holocausto; Kim Phuc, a menina que tornou-se um ícone da Guerra do Vietnã ao ser fotografada após a explosão de uma bomba de napalm.
Perto de casa, Saywell também filmou garotas em Toronto que escolhem gangues como um meio de encontrar amor próprio e encarou a tarefa de mostrar como armas legais passam para o mercado ilegal em "Devil's Bargain" ("Negociando com o diabo", em tradução livre), um filme que começa em um mercado de armas na Somália, e segue as rotas de comércio que passam pela França, África do Sul, Bósnia, Moldávia, EUA e Canadá.
Nessa entrevista exclusiva, Shelley Saywell - premiada com um Emmy por Jornalismo Investigativo, e com a Medalha de Prata Gandhi da UNESCO por promover a cultura de paz - discute "Devil's Bargain" e nos conta sobre sua vida e trabalho como realizadora de documentários.
O que a levou a fazer documentários?
Eu era interessada em jornalismo. Cresci, até certo ponto, fora do Canadá. Meu pai era um professor universitário. Vivemos na Ásia e desde muito cedo fiquei interessada em como as pessoas viviam em outras partes do mundo. Eu sempre gostei muito de política e arte, com uma forte tendência para o ativismo.
Ativismo... Isso é algo que partilha com a sua geração? De onde ele vem?
Quando eu era uma menina, a Guerra do Vietnã estava acontecendo, e a Revolução Cultural na China. Eu era muito antiguerra, EUA, Vietnã... Sempre fui muito consciente. Quando eu tinha 12 anos, nós viajamos para o Afeganistão e o Camboja... Minha geração foi aquela um pouco depois da geração hippie, que estava reinventando tanta coisa. Eu lembro de desejar ser mais velha, ser parte daquela geração.
Como escolhe os seus tópicos?
Meu primeiro filme foi em 1988 - tenho agora pouco de mais de 20 anos de estrada. Geralmente, sou tocada por algo que leio no jornal, algo que me deixa com raiva, incomodada. Isso é o que me inspira a agir.
Ultimamente, tenho dito à minha família e amigos que "chega de conflitos e guerras...", que eu quero fazer algo leve e divertido, mas não adianta. Essas são as histórias que realmente importam para mim. E uma história leva a outra: fizemos um filme sobre mulheres e guerra, que nos leva a perceber o impacto da guerra para nas crianças. Daí foi uma transição natural para conceber um documentário sobre armas. Isso acontece com qualquer filme que você faça numa zona de conflito, onde, inevitavelmente, todas essas questões estão presentes: estupros, crianças em risco, sociedade se tornando ingovernável...
Como se prepara para os documentários?
Nós tendemos a fazer muita pesquisa antes ir a qualquer lugar; contatamos outros jornalistas, jornalistas locais e especialistas. Quando estamos indo para o local, já temos claros os elementos que estaremos procurando. Quando você não tem um orçamento grande, quer garantir que vai conseguir o que está procurando.
O que a levou a tratar especificamente do tema das armas?
O tópico do tráfico de armas surgiu de todos os outros filmes em zonas de conflito. Fizemos dois no Iraque, filmamos na Bósnia, Afeganistão... Foram muitos filmes e, é claro, o denominador comum foram as armas pequenas e leves.
E o que mais a tocou?
No passado, se você fosse um jornalista, a profissão lhe garantia uma certa segurança. Mas as coisas mudaram tanto que chegou um ponto na guerra da Chechênia em que, se você fosse um jornalista, você precisava contratar guardas armados. No filme que fizemos sobre crianças afetadas pela guerra tem uma parte inteira filmada somente em Serra Leoa e os garotinhos só falavam de armas. Tudo isso nos levou até a necessidade de falar sobre as próprias armas pequenas e leves.
Em "The Devil's Bargain", a senhora se concentra em como as armas saem do mercado legal...
O que eu queria fazer era a conexão entre o mercado legal e ilegal. Frequentemente, tínhamos autoridades falando que o que nós estávamos querendo saber não era relevante, pois tratava-se do mercado ilícito. E o que eu queria era fazer um documentário justamente sobre como armas legais iam parar no mercado ilegal. Eu queria explorar essa conexão.
E por que o foco na Somália?
Passei cerca de um ano lendo e me preparando e acabei ficando um pouco deprimida. O tópico é tão vasto! Você poderia filmar praticamente em qualquer país. Relatórios são publicados quase todo dia, da República Democrática do Congo, Somália, Colômbia, etc... Poderíamos filmar até no Haiti. A verdade é que poderíamos tê-lo feito em qualquer lugar. Queríamos um estudo de caso no qual pudéssemos mostrar o efeito desse fluxo de armas e seguir seus rastros de volta até os fabricantes, então escolhemos a Somália porque não há lugar tão desestabilizado pelo efeito das armas como este.
Como seus projetos são financiados?
Levantamos o dinheiro, encontramos a rede de televisão que quer o filme, filmamos, e vendemos para um distribuidor que o exibe fora do Canadá. Para termos uma segurança inicial, temos ideias e as enviamos para diferentes profissionais de TV para ver se eles mostram interesse ou não. "The Devil's Bargain", por exemplo, foi exibido e financiado pela televisão canadense.
Quais as repercussões que os seus filmes têm?
Eu penso muito nisso quando estamos filmando ou editando. Não queremos que ninguém sofra por ter estado no filme, queremos proteger as pessoas de quaisquer repercussões. É claro que depende do filme. Não tenho nenhum problema em expor pessoas que estejam fazendo coisas erradas, mas devemos ter em mente que nós deixamos esses países, enquanto elas permanecem lá. Fazemos escolhas em relação a quanto incluir ou mostrar no filme. Para fazer um filme bom e forte, é necessário expor essas coisas, mas também não queremos gerar uma retaliação.
Por exemplo, agora nós estamos fazendo um filme sobre meninas adolescentes e algumas têm sido muito abertas conosco e me sinto responsável por elas. No entanto, é também a história delas, é uma história local que estamos contanto.
Então pode ser a privacidade ou a vida de alguém em risco...
Um fixer (jornalista local que age como consultor) que trabalhou conosco foi morto; ele era um jornalista e tinha o seu próprio programa de rádio. Quando algo como isso acontece, é tão terrível... Mesmo que nunca descubramos as causas e as circunstâncias, sempre nos perguntamos se existiu alguma ligação entre o fato e o nosso trabalho.
E as repercussões positivas?
Um filme que fizemos sobre Kim Phuc, a famosa garota da foto da Guerra do Vietnã, que foi ferida com napalm. Foi exibido em 30 países em todo o mundo, iniciamos a Kim Foundation para crianças afetadas pela guerra. Então, ajudamos. Eu gostaria de acreditar que meus filmes contribuem para mudar políticas, mas isso é difícil de demonstrar.
É possível discutir qualquer tema em um documentário?
Em relação ao que pode ser filmado, eu acho que isso se aplica a meus amigos que são escritores, que são jornalistas. Se você sabe que algo é verdade, mas não pode mostrá-lo, então isso não dá um bom filme. Se você não pode conseguir que uma câmera o filme, se for impossível em termos de censura... Mas se estamos falando de idéias, então acho que o céu é o limite. Há filmes sobre políticos gays, bicicletas na Europa, tortura, erotismo entre lésbicas... Há todo o tipo de cineastas experimentais, trabalhando com a própria linguagem.
No que está trabalhando atualmente?
No momento estou trabalhando em um documentário sobre babás filipinas abusadas por seus empregadores; É ambientado aqui no Canadá.
Como uma ativista, como a senhora se relaciona com o trabalho dos acadêmicos?
São dois diferentes tipos de trabalho, mas que estão conectados. Pesquisadores de armas de fogo pequenas e leves são meus herois e fiquei chocada ao saber da morte em campo de um deles recentemente. Eles não são realmente acadêmicos, esses estudos são fundamentalmente importantes em tantos níveis...
Se não fosse pelos pesquisadores fazendo esses relatórios, não poderíamos fazer lobby por mudanças: conhecimento é de fato poder. Pegue um movimento ativista como o Greenpeace, por exemplo, eles aprenderam isso há muito tempo. Eles estavam por aí atraindo mídia e fazendo acrobacias espetaculares. Mas eles precisavam atrair cientistas para produzir estudos sobre toxicidade para começar a gerar mudanças. Como se luta contra essas coisas? Corporações e governos não querem mudanças; precisamos dos fatos e estudos...
Como é a sua equipe?
Eu trabalho sempre com a mesma equipe. No total, falamos quatro idiomas. Sempre trabalhamos com jornalistas locais também. Por exemplo, se estou indo para a Faixa de Gaza, a primeira coisa a fazer é contratar um jornalista local - no nosso jargão, o chamamos de fixer - que irá nos mostrar onde é seguro ir, como ter acesso...
E temos tido muita sorte, pois em cada um dos países ou regiões que estivemos pudemos contar com excelentes contribuições locais. Isso é o relacionamento-chave. No fim das contas, essas relações crescem ao longo do tempo e nos tornamos amigos, desenvolvendo relações também com suas famílias. Nossa produtora - a Bishari films - é pequena: somos duas pessoas trabalhando juntas ao longo dos anos.
Saiba mais:
Tratado Global sobre Comércio de Armas
Programa de Ação da ONU contra a proliferação das armas de fogo







