Vozes da prisão
ENTREVISTA / Mark Johnson
No Reino Unido, 75% dos infratores juvenis cometem novos crimes em até dois anos após a saída da prisão. A informação é do informativo Prison Reform Trust's Bromley Briefing Prison Factfile de dezembro de 2010. O problema custa cerca de 11 bilhões de libras aos contribuintes britânicos e mantém aproximadamente dois mil jovens atrás das grades.
Poucas pessoas compreendem a questão tão bem quanto Mark Johnson. Preso pela primeira vez aos 16 anos por causa de uma briga de gangues, ele foi preso novamente aos 18 por roubo. Johnson foi para a prisão em diversas ocasiões e passou no total quatro anos atrás das grades.
Depois de fazer um tratamento para se livrar das drogas aos 29 anos, ele começou o Treewise, empresa que trabalha com arborização pública, no qual empregou ex-prisioneiros amigos, e escreveu suas memórias em Wasted (publicado pela editora Sphere em 2007).
Em 2005, seu trabalho com Treewise lhe rendeu deu o Prêmio Prince’s Trust de Jovem Empreendedor do Ano e Johnson se tornou consultor especial em reabilitação criminal da organização Prince’s Trust, do Príncipe Charles de Gales. Mais tarde ele fundou a User Voice, uma organização sem fins lucrativos com foco na reabilitação de jovens envolvidos com o crime e, em 2009, se tornou um membro Ashoka, uma rede de empreendedores sociais.
No Prince’s Trust, Johnson levou a sua visão para quatro prisões. Trabalhando com autoridades prisionais, criou o programa Conselhos Prisionais, onde os detentos podem dar voz às suas reclamações e compartilhar sugestões para reforma das prisões e reabilitação dos companheiros. Atualmente atuando em dez prisões, a User Voice já beneficiou 4.500 prisioneiros até hoje.
"A organização dá aos infratores uma voz na construção do sistema, e permite que eles sejam ouvidos no nível da política,” diz Johnson. Além dos Conselhos Prisionais, a User Voice realiza pesquisas e consultoria aos escritórios do governo e outras organizações ligadas à Justiça Criminal com base na visão dos próprios detentos. A organização também organiza mesas-redondas e reuniões públicas entre membros do governo e ex-infratores para discutir formas de melhorar o sistema de Justiça Criminal.
De acordo com o relatório "O poder interno: o papel dos Conselhos Prisionais", da User Voice, a participação dos detentos nos conselhos superou os 50% nas prisões atendidas pela organização. Além disso, nessas casas de detenção, as reclamações dos prisioneiros caíram 37% e o número de dias em que os prisioneiros são mantidos em isolamento como medida disciplinar passou de 160 para 47.
Como você se interessou pelo serviço público?
Eu tenho uma história turbulenta. Tive um pai violento e alcóolatra. Minha família não era muito carinhosa e aos oito anos eu descobri que podia mudar como me sentia usando substâncias.
Fui preso aos 16 anos e meu comportamento piorou. Não melhorou. Depois fui para uma prisão [adulta] por crime violento, saí e fiquei morando nas ruas de Londres. Nessa época, eu já estava usando crack e heroína ao mesmo tempo. Depois de mais ou menos um ano na rua, fui para os hospitais. Um assistente social me colocou em tratamento. E eu falhei algumas vezes. Isso é o que acontece: as pessoas falham algumas vezes.
Consegui um empréstimo para começar um negócio de arborização pública e fiz dele uma política para empregar jovens infratores para que tivéssemos um ambiente de trabalho terapêutico. Existem jovens vindas da prisão que nunca trabalharam antes. Em cerca de quatro anos, tínhamos 200 pessoas dentro do programa.
Como você fundou a User Voice?
Nós ganhamos alguns prêmios e, em 2005, fomos convidados a participar do Prêmio Prince’s Trust, com o Príncipe Charles de Gales. Eu conversei com o Príncipe Charles e ele pediu que eu me encontrasse com um grupo de políticos para falar sobre o sistema de Justiça Criminal e trabalhar para sua organização, o Prince’s Trust. Lá, comecei um projeto de orientação para jovens infratores e em 2005/2006 planejei e executei o Orientação para Saída da Prisão (Leaving Prison Mentoring), um projeto-piloto para o Prince’s Trust. Agora ele está presente em seis regiões diferentes.
Em 2007, vendi a empresa de arborização pública e comecei a User Voice com meus próprios recursos.
Qual é o objetivo da User Voice com relação ao sistema de Justiça Criminal?
Existe uma grande lacuna de entendimento entre as pessoas que fazem a lei e os que vivem a realidade. As pessoas que tomam as decisões não entendem a natureza dos problemas dos que vão parar na cadeia. A Justiça Criminal se baseia na proteção pública ao invés de na intervenção terapêutica das pessoas envolvidas com o crime.
Jovens infratores têm histórias de experiências passadas traumáticas e abusivas. Nós tratamos o problema de maneira não convencional, até errada, exacerbando os problemas deles e assumindo que essas pessoas fizeram uma escolha moral e sabem a diferença entre certo e errado. Mas muitas dessas crianças vivem em mundos confusos e seus parâmetros são despedaçados ou obliterados por pais que cometem abusos.
Meu trabalho foi na direção de trazer a voz dos jovens infratores para a política nacional. A User Voice recebeu esse nome porque é a voz das pessoas que usam os serviços – neste caso, os serviços da Justiça Criminal. E tem a ver com agregar valor, não sobre antagonizar o sistema. Se você conseguir que a voz das pessoas que usaram os serviços diga porque ele funcionou ou porque não funcionou, então você certamente consegue um serviço melhor.
Quais são as atividades principais?
Nós treinamos ex-infratores como pesquisadores, gerentes de programas e os mandamos de volta para as prisões para fazer seu trabalho. Trabalhamos com toda a prisão e executamos campanhas eleitorais democráticas lá dentro. A comunidade vota, nós oferecemos treinamento e eles se encontram com o diretor da prisão. Eles procuram resolver seus problemas com defensores públicos.
Nós trabalhamos com o Serviço de Informação de Londres e fizemos relatórios para a Comissão da Criança. Também já trabalhamos com a Faculdade de Serviço Social e o Ministério da Justiça, entre outros.
Que inovação a User Voice traz para o sistema penal?
O problema com muitas organizações de caridades é a falta de uma análise mais detelhada. Os usuários dos serviços são usados por estas instituições para proteger a sua imagem pública. Dentro da Justiça Criminal não existe vontade de escutar. Muitas pessoas não entendem que o que o sistema prisional está fazendo é conter o problema na prisão e soltá-lo quando a pena de um prisioneiro acaba. Nós precisávamos de um mecanismo para dizer aos diretores das prisões qual é o problema de uma maneira profissional. Dessa maneira, acabamos conseguindo melhores serviços.
Quem é um típico beneficiário da User Voice?
Muitos deles tiveram uma infância abusiva, cresceram em orfanatos, em serviços para crianças. Suas idades variam de 11 a 21.
E o que acontece uma vez que o infrator é libertado da prisão?
As pessoas focam em emprego, mas na realidade deviam ter o foco na sua empregabilidade. Alguém que sai da prisão, que utiliza remédios, por exemplo, precisa se curar do vício para se tornar empregável.
Uma coisa que é normalmente negligenciada é o talento empreendedor deste grupo e como você pode extraí-lo e empregaá-lo. O que os empregadores fazem é ir pelo caminho mais fácil escolhendo os mais fáceis de se empregar. Não os que mais precisam da chance.
O que torna um infrator mais ou menos provável de voltar para a cadeia?
A idade é o principal indicador. O que isso sugere é que está relacionado ao desenvolvimento emocional. É só uma progressão natural dentro do sistema de Justiça Criminal. Um número grande de crianças nunca irá para a escola. Aquele mundo, por ser desenhado para a classe média – pessoas que têm famílias e oportunidades – é planejado sem levar em conta a necessidade de acompanhamento familiar, coisa que essas crianças não têm.
O crime é um caminho natural. Se você não tem uma família, vai ficar com as pessoas que se importam mais com você. O que nós precisamos entender sobre abuso e trauma é que não é o evento que causa o estrago. É o sentimento de isolação que resulta dele. A prisão precisa ser uma resposta terapêutica e educacional. Nós precisamos valorizar a educação baseada na emoção tanto quanto valorizamos o aprendizado acadêmico.
Poderia explicar melhor?
Como seres humanos, todos temos a capacidade de mudar. Tudo isso é sobre ser capaz de estar em um ambiente onde você pode ser honesto consigo mesmo. O sistema de Justiça Criminal é tão desconectado que ninguém faz perguntas como: "Quem é você?", "O que você quer fazer com você mesmo?". Prisões são apenas armazéns.
Que mudanças trouxeram os Conselhos Prisionais?
No nosso último projeto com um grupo de 10 ex-infratores, criamos oito mudanças: uma delas foi garantir uma resposta face-a-face quando um prisioneiro fazia uma reclamação, outra foi o uso de roupões quando crianças são revistadas. Os participantes também liberaram uma queixa oficial contra o uso excessivo de restrições nas prisões.
Quais os próximos passos da User Voice?
Estamos procurando diferentes modelos de expansão.
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