Simulação da paz real
ENTREVISTA / Swaran Singh
Por Amy Dhillon
A Universidade da Paz (UPeace) foi criada em 1980 após a Assembleia Geral das Nações Unidas daquele ano, em Nova York. Localizada na Costa Rica, a missão da instituição é “contribuir para a grande tarefa de educar para a paz se engajando no ensino, na pesquisa, no ensino da pós-graduação e na disseminação de conhecimento através do estudo interdisciplinar de tudo que está relacionado com a paz”.
A UPeace colabora com universidades, ONGs e instituições do mundo todo na pesquisa de diferentes práticas que conduzam à paz. Uma dessas parcerias foi com o Centro para Políticas Internacionais, Organização e Desarmamento (Cipod, do inglês Center for International Politics, Organisation and Disarmament), na Universidade de Jawaharlal Nehru, em Nova Déli, onde o professor Swaran Singh dá aulas sobre Diplomacia e Desarmamento.
Além de ter lecionado no curso de mestrado da Jawaharlal Nehru, Singh é presidente da Associação de Bolsistas da Ásia, secretário-geral da Associação Indiana de Estudos da Ásia e do Pacífico e mentor do Centro de Resolução de Conflitos e Segurança Humana de Nova Déli.
Em 2009, Singh desenvolveu um modelo de acordo de paz para o Sri Lanka junto om estudantes da UPeace e realizou uma simulação na qual os alunos negociaram um acordo de reconstrução pós-conflito entre a Sinhala, a classe dominante, e a minoria Tâmil. Singh conversou com o Comunidade Segura sobre a sua experiência na UPeace e sobre as bases e resultados deste exercócio.
Quando o senhor começou a trabalhar com a UPeace?
Minha conexão com a Universidade da Paz começou em 2004, quando a minha universidade colaborou com a UPeace para promover o trabalho deles na Índia. Eu organizei duas grandes conferências para a universidade na Índia e depois fui convidado a dar um curso na Costa Rica em 2006 e em 2009. Em 2009, eu dei um curso de mestrado sobre “Construção da paz e Reconstrução” na UPeace, em que essa simulação era parte da aula.
Qual era a sua abordagem nesse curso?
Exercícios de simulação permitem que os estudantes internalizem o que estão fazendo e aprendendo. Eles estão vivendo e evoluindo por meio de formas de educação que permitem que se quebre a monotonia da palestra e o formato de leitura que há na maioria das salas de aula. Os estudantes também acabam fazendo leituras e pesquisas extras para exercer seus papéis corretamente, ganhando conhecimento a mais.
Como o tema do exercício foi escolhido?
Eu decidi conduzir um exercício de simulação para o meu curso que replicasse o então existente conflito no Sri Lanka. Naquela época, o Estado do Sri Lanka tinha lançado uma guerra contra os insurgentes representantes da minoria ética dos Tâmils e o conflito parecia estar se direcionando para uma derrota da insurgência.
O que tornou este exercício especialmente estimulante é que o moderador (eu mesmo) não tinha que criar uma ficção sobre os cenários aos quais os participantes da representação deveriam reagir. O fato da simulação representar uma situação real e presente tornou a experiência particularmente empolgante e interessante.
E qual era a formação da turma? Existia uma diversidade?
A minha turma de mestrado continha 22 estudantes representando 19 países. A maioria desses estudantes tinha trabalhado em áreas similares dentro dos seus respectivos governos e fóruns da sociedade civil antes de ir para a UPeace.
Na turma também havia quatro professores que tinham lecionado sobre estudos de paz e conflito nas suas respectivas instituições. A parte mais interessante da minha turma era que ela também tinha dois alunos do Sri Lanka: um da maioria Sinhala, a classe dominante, e o outro da minoria Tâmil. Isso ajudou a dar à simulação um senso de realismo ainda maior.
Como a simulação foi conduzida?
O exercício ocorreu durante cinco semanas e foi conduzido online. Os alunos se dividiram em grupos e determinaram diferentes papéis para organizações e governos, como o governo do Sri Lanka, a União Europeia, as Nações Unidas e por aí vai.
Os estudantes não conheciam as identidades dos outros até o último dia do exercício. Os alunos tinham a liberdade de impor as suas posições e a discussão foi bem intensa. Documentos e notícias foram fornecidos a todos.
No final, um acordo de paz tinha sido rascunhado. No último dia do exercício, os alunos se encontraram pessoalmente para uma simulação de reunião das Nações Unidas para finalizar os acordos e fazer qualquer alteração final. Foi interessante assistir as negociações abertas que ocorreram, as alterações que foram feitas. O dia também incluía uma pausa de meia hora que permitia negociações por fora. Os alunos assumiram seus papéis com muita seriedade.
Qual é o valor dos exercícios de simulação?
As simulações permitem que os participantes se autotreinem, autoensinem e auto-aperfeiçoem suas habilidades (com a ajuda de um moderador treinado) na arte das negociações em seus respectivos campos de especialização – reconstrução pós-conflito, nesse caso - com a oportunidade de aprender com seus erros e apenas com uma restrita bagagem de história e limitações institucionais, de precedentes e ideologias.
Esses exercícios realmente encorajam o livre pensamento e as abordagens inovadoras no ataque aos conflitos intratáveis e persistentes onde, na vida real, os cessar-fogo são conhecidos por entrarem em colapso em uma média global de cerca de cinco anos.
Quais seriam as aplicações dessa atividade?
Eu sempre recomendo muito os exercícios de simulação para desenvolver coordenação entre atores variados de diversos setores no campo da construção de paz. Tais exercícios são ferramentas especialmente úteis para a sociedade civil e as redes de organizações não-governamentais onde os líderes não são normalmente treinados na arte da negociação para completar suas agendas com custos mínimos.
Exercícios de simulação são igualmente úteis para treinar trabalhadores de campo que lidam com situações de tempo real onde eles têm que dar respostas automáticas e não têm o luxo de tomar decisões erradas, já que os custos são normalmente muito altos.
O senhro acredita que essa atividade pode ser aplicada no mundo real?
Apesar de nunca ter feito parte de negociações reais desse tipo, meu sentimento é de que a diferença está na condução das mesmas por diplomatas. Na vida real, as negociações demoram muito mais e os diplomatas são distraídos por outras preocupações e realidades políticas.
A motivação mostrada por esses estudantes durante o exercício pode não ser sustentada ao longo de negociações verdadeiras, mas esta simulação não pretende replicar exatamente o que está acontecendo e sim prover uma certa ideia do que pode ocorrer e o estilo geral de como as negociações são feitas.
Qual foi o resultado desse exercício?
Os melhores resultados visíveis desse exercício de simulação na UPeace foram que: todos os participantes mantiveram segredo total sobre as suas identidades até o momento em que foram revelados na conferência de conclusão; cada participante trabalhou duro para assumir o papel que estava representando, o que significa uma enorme quantidade de leitura e consultas; aconteceram muito poucas situações de atrito e o comportamento dos participantes foi talvez mais educado e controlado do que o que se vê nas negociações reais entre Estados; e houve a produção de um acordo detalhado com determinações específicas para vários setores, questões e preocupações.
A liderança da UPeace confirmou que foi a primeira vez que um exercício de simulação tão intensivo ocorreu no campus e muitos dos estudantes que participaram do curso e que hoje estão trabalhando em outros países escrevem para mim com frequência relatando como eles estão lidando com seus atuais deveres aplicando o que eles aprenderam enquanto foram parte deste exercício de simulação.
Tradução: Natasha Ísis








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