Operação para botar ordem na casa
O Rio de Janeiro amanheceu nesta quarta-feira (16) com uma nova chefe de Polícia Civil, a delegada Marta Rocha (foto). Primeira mulher a assumir o cargo, ela substitui o delegado Allan Turnowski, que deverá ser indiciado por vazamento de informação.
Uma grande crise abala a segurança pública do estado desde sexta-feira (11), quando foi iniciada a Operação Guilhotina, da Polícia Federal em conjunto com a Secretaria de Segurança e o Ministério Público estaduais. Nos últimos dias, 38 pessoas foram presas, sendo 30 policiais - 20 militares e 10 civis.
Segundo as investigações da Polícia Federal, baseadas em grampos telefônicos, o próprio Turnowski teria alertado um inspetor acusado de participar de uma milícia em Ramos sobre a operação que a Polícia Federal preparava. Este policial fazia parte de um grupo chefiado pelo delegado Carlos Antônio Oliveira, que até agosto de 2010 era subchefe da Polícia Civil e braço direito de Turnowski. Segundo as investigações, a quadrilha vazava informações sobre operações policiais, vendia armas para traficantes, apropriava-se de bens de criminosos e atuava junto à milícia que dominava a Favela Roquete Pinto, em Ramos.
O delegado Carlos Oliveira teria sido afastado da cúpula da Polícia Civil no ano passado, após o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, ser informado de resultados das investigações da Polícia Federal. Oliveira então mudou de esfera. Desde o início do ano, era subsecretário de operações da Secretaria Especial de Ordem Pública (Seop) do município, cargo do qual já foi exonerado. Na prefeitura, segundo as investigações, continuou a controlar seu grupo de policiais civis, militares e informantes.
Já no primeiro dia da Operação Guilhotina, Turnowski foi chamado a depor na Polícia Federal sobre as atividades de Carlos Oliveira. Dois dias depois, ainda no comando da Polícia Civil, ele determinou uma devassa na Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), chefiada pelo delegado Claudio Ferraz, onde começou parte da investigação que resultou na Operação Guilhotina. A delegacia teve as portas lacradas.
Turnowski (foto) justificou a ação, alegando ter recebido uma denúncia anônima sobre um suposto envolvimento da equipe de Ferraz – que colaborou nas investigações da Operação Guilhotina - em extorsões contra empresários e prefeituras. A determinação é de que a Corregedoria Interna da Polícia Civil faça uma correição extraordinária na delegacia, antes de Ferraz passar o cargo ao delegado Fernando Capote.
Ferraz, por sua vez, é homem da confiança de Beltrame. Caçador de milicianos - prendeu mais de 500 homens acusados de participar de milícias no estado do Rio -, é um dos co-autores do livro "Elite da Tropa 2", que aborda justamente a rede de favorecimentos entre criminosos e agentes da lei.
Na véspera do início da Operação Guilhotina, Ferraz foi nomeado subsecretário da Contra Inteligência, cargo ligado diretamente Beltrame. Na mesma ocasião, o secretário determinou que a Draco ficasse sob o comando direto da Secretaria de Segurança, saindo da estrutura hierárquica da Polícia Civil.
A disputa interna na Polícia Civil começou há meses. Segundo especulações, Ferraz era cotado como possível futuro chefe de polícia. Na queda de braço, Turnowski perdeu, mas conseguiu evitar que o rival o ganhasse seu posto.
Para o antropólogo Paulo Storani (foto), especialista em Segurança Pública, a ordem de Turnowski para investigar a Draco foi uma retaliação a Ferraz, por ter participado da Operação Guilhotina. Storani acredita que as denúncias já existiam e estavam sendo guardadas para o momento apropriado. “Trata-se de uma óbvia disputa interna pelo poder. Foi iniciado um processo de autofagia institucional da Polícia Civil e quem pagará a conta será a população e os policiais corretos”, afirma.
Para o especialista, encampar a Draco foi uma forma de o secretário blindar Ferraz da ingerência de Turnowski. “Contudo, esta ação não impediu a inviabilização do seu nome para sucessão da chefia da Polícia Civil, em razão das denúncias de corrupção”, completa.
Storani ressalta a peculiaridade da Operação Guilhotina, que investiga e prende policiais, “profissionais que deveriam proteger a população, mas que usam sua instituição, função pública, equipamentos, informações privilegiadas e recursos públicos para seus benefícios financeiros, e se associam, ainda, com aqueles contra quem deveriam reprimir.”
O especialista acredita que, para combater a corrupção há tantas décadas entranhada nas corporações policiais, é necessário fortalecer as estruturas institucionais, de forma a minimizar a ação de funcionários corruptos. “É preciso melhorar o processo de seleção, treinamento e, principalmente, controle de desempenho, e melhorar as condições salariais e de trabalho. As polícias estão cada vez mais enfraquecidas e desacreditadas. É urgente sua reforma estrutural”, conclui.
Storani também defende que as portas das instituições públicas sejam abertas à sociedade. “Não podemos esquecer que contribuímos para a construção deste modelo, quando nós, a população, não conseguimos sair da confortável posição de expectadores de escândalos para a de protagonista, cobrando de nossos representantes os instrumentos necessários para estruturação de instituições fortes, como deve ser a polícia. Este é o preço da nossa frágil representatividade”, acredita.
Para a antropóloga Alba Zaluar (foto abaixo), mais uma vez ficou provada a competição fora de propósito entre órgãos da mesma polícia que deveriam estar cooperando. “Vaidades pessoais superam o espírito público”, critica. Para ela, o secretário Beltrame tem toda razão quando diz que não se pode fazer política de segurança e corrigir os excessos e crimes de policiais com base no "eu acho", "ouvi falar", "me contaram". “Falar é muito fácil, provar é muito difícil. Por isso, é necessária a investigação que, por sua vez, exige a cooperação entre os órgãos da mesma polícia e, claro, entre as polícias estaduais e federal”, diz.
Na sessão plenária de terça-feira (15) da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, o deputado Marcelo Freixo, que liderou a CPI das Milícias e acaba de lançar a CPI das Armas, afirmou que a Operação Guilhotina não é ruim para a polícia, mas para alguns policiais.
“A Operação chama a atenção porque parte dela não pôde ser feita pelos comitês internos das corregedorias das polícias. Quem está sendo preso tem cargo de chefia - de delegacia e do tráfico de armas", enfatizou.
Ele lamentou que a operação esteja perdendo espaço nos jornais para a briga entre o ex-chefe da Polícia Civil e a Draco. “A operação tem que ser a notícia. Ela, sim, é fundamental e tem que ir até o final", defendeu. Ele aproveitou para frisar que o delegado Cláudio Ferraz foi estratégico e contribuiu muito para o sucesso da CPI das Milícias, que levou para a cadeia 676 milicianos.
Freixo também comentou a transferência do delegado Carlos Oliveira para o município. "Não há coincidência na vida política. Não é possível achar que é coincidência a Secretaria de Ordem Pública da Prefeitura estar tão próxima das mílicias. O que Carlos Oliveira fazia na Seop?”, questionou.
Mulher unânime
Com 29 anos de polícia e diretora geral da Divisão de Polícias de Atendimento à Mulher (Deam), Marta Rocha destaca-se por sua atuação em delegacias especializadas. Além das delegacias de atendimento à mulher, ela implantou a Delegacia Especial de Atendimento ao Turista (Deat). No governo de Anthony Garotinho, na gestão do coronel da Polícia Militar Josias Quintal como secretário, ela ocupou a subchefia da Polícia Civil.
Em entrevista coletiva, o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, disse que Marta está afinada com os horizontes da Secretaria. Ele contou que fez várias consultas e que seu nome foi praticamente uma unanimidade. Para Beltrame, uma mulher à frente da Polícia Civil significa uma mudança de paradigma institucional. A delegada enfatizou a importância dos bons policiais e defendeu uma corregedoria forte para uma polícia eficaz.
Para Alba Zaluar, a delegada Marta Rocha foi escolhida por unanimidade pelos seus colegas e não por ser mulher. “Isso é um bom sinal. Primeiro porque sem a aceitação dos colegas é impossível gerir uma corporação com conflitos internos tão graves. Mais importante ainda é o fato de que a sua imagem interna é de uma policial honesta. A confiança na delegada é importante para que se recupere a confiança da população na polícia”, afirma.
Foto Marta Rocha: Alerj/Vanessa Schumacker
Foto Allan Turnowski: Governo do Estado do RJ / Jorge Marinho
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