Policiamento comunitário reduz violência no Quênia

Isiolo-foto-1PT.jpgLocalizada na vasta região rural do nordeste do Quênia, Isiolo já foi considerada “zona proibida”, conhecida como o “supermercado de armas” do país, devido à insegurança. Recentemente, contudo, a cidade tem experimentado uma significativa redução da violência armada.

Isso se deve, em grande parte, a um projeto de policiamento comunitário desenvolvido e implementado pela Saferworld, em colaboração com a ONG queniana PeaceNet. Desde 2003, quando Isiolo foi selecionada para ser um dos dois pilotos do Community-Based Policing (CBP) - o projeto de policiamento comunitário do governo queniano -, a polícia do país tem relatado uma redução significativa nos roubos de gado e outros crimes.

Também foi observado que os negócios e escolas locais começaram a reabrir as portas. “Não se pode ter desenvolvimento sem segurança. Antes do CBP ser introduzido em Isiolo, tiros eram um acontecimento comum. Mas agora as coisas mudaram para melhor”, declarou um funcionário do governo local.

O policiamento no Quênia enfrenta desafios consideráveis, como a baixa confiança da população na polícia, recursos limitados, atrasos no desenvolvimento e ratificação da política nacional e a grande rotatividade de pessoal dentro da polícia. O programa, que faz parte da reforma da polícia no Quênia, tem por objetivo introduzir um conceito diferente de policiamento.

Discutir questões de segurança para restabelecer a confiança

Isiolo-foto-3PT.jpgAtravés da união das comunidades locais, sociedade civil, polícia e administração da província, o CBP busca desenvolver soluções locais para os problemas de segurança das comunidades afetadas. O projeto começou por conscientizar e difundir a filosofia e os princípios do policiamento comunitário por toda Isiolo. Por meio de um fórum de policiamento comunitário, as pessoas envolvidas identificaram três objetivos para o programa: prevenção do crime, melhora da segurança e redução do número de armas pequenas.

Barazas (fóruns de debate) semanais e fóruns mensais sobre segurança comunitária foram organizados para incentivar a discussão dentro da comunidade local, junto com o governo e os agentes de segurança. Esse método colaborativo aumentou a confiança entre a comunidade e a polícia, devido à comunicação estabelecida entre as partes interessadas. O projeto enfatiza a mensagem “segurança começa com você”. Dessa forma, o policiamento comunitário também fomentou um espírito de cooperação, segundo o qual os cidadãos têm obrigações e direitos.

Poços e pontes: efeitos colaterais positivos

Esta ética do voluntariado se traduziu em atividades de treinamento e patrulhamento colaborativos entre membros da comunidade e a polícia, aumentando o número de crimes notificados pelos cidadãos, bem como a entrega voluntária de armas ilegais na Secretaria de Construção de Paz e Gestão de Conflitos local.

Além disso, a crescente parceria entre representantes do governo e a comunidade local também tiveram efeitos colaterais muito positivos. Por exemplo, as pessoas interessadas estão agora engajadas em traçar projetos de desenvolvimento no local, como a construção de poços e pontes.

Isiolo-peace_legPT.jpgApesar dos sucessos, James Ndung’u, funcionário da Saferworld para o Community-Based Policing, alertou que esses projetos não devem ser vistos como uma solução milagrosa. Ele ressaltou a importância do contexto nacional, bem como das necessidades locais. Além disso, o modelo do CBP fez uso intensivo de consultas públicas, que foram organizadas antes da implementação do projeto-piloto.

A Saferworld e a PeaceNet também enfatizaram a importância de melhorar a capacidade da comunidade local de interagir com a polícia. De uma área experimental inicial de seis quilômetros quadrados, o CBP de Isiolo expandiu-se consideravelmente, chegando a comunidades vizinhas, desejosas de iniciar seus próprios projetos de policiamento comunitário. 

* Pesquisadora adjunta do Centro de Estudos de Políticas Internacionais, da Universidade de Ottawa, e membro da Gordon Foundation.

Tradução: Bernardo Tonasse

Comentários

Dispositivo Constitucional - Art 144 CRFB

"O projeto enfatiza a mensagem ?segurança começa com você?. Dessa forma, o policiamento comunitário também fomentou um espírito de cooperação, segundo o qual os cidadãos têm obrigações e direitos".

É aqui que está o diferencial para que o policiamento comunitário tenha efeito, o envolvimento da sociedade no processo é essencial.

Nossa constituição trata do assunto no Art 144 quando diz que Segurança é dever do Estado, mas responsabilidade de todos.

Esperamos que nós brasileiros aprendamos e logo com este exemplo.

Concordo que seria ótimo se

Concordo que seria ótimo se todos fôssemos mais ativos em projetos de policiamento comunitário do tipo, mas o número de experiências negativas que eu já tive, ouvi falar ou li sobre me dá mais medo do que vontade de tentar agir em conjunto com a polícia brasileira. Com certeza há policiais honestos e competentes, mas até a gente saber quem são eles e criar uma rede de confiança entre polícia e sociedade, falta muito. Até porquê (e isso já foi dito à exaustão), mesmo os bem intencionados muitas vezes estão engessados pela instituição, precisamos pressionar por uma reforma policial profunda e estrutural.

Sem dúvida alguma, o

Sem dúvida alguma, o policiamento comunitário é uma importante vertente da Segurança Pública moderna. Parabéns pelo artigo!

Aproximação Polícia e Comunidade

Caríssima Nina Motta, Meu nome é Salustiano, sou sargento da polícia militar de Brasília, tenho 12 anos de profissão e trabalho com policiamento comunitário. Infelizmente você está certa quando diz que "muitas vezes a Instituição engessa o policial", mas nós temos, como sociedade, a obrigação de promover essa aproximação entre a polícia e a sociedade se realmente quisermos que o policiamento comunitário funcione para o que foi proposto - qual seja o objetivo de resolver pequenos conflitos e antecipar-se aos mais graves. Viemos de uma experiência de Ditadura Militar - que diga-se de passagem não foi uma boa experiência - mas, afirmo que nós policiais queremos essas aproximação com a sociedade, até porque dela fazemos parte. O art 144 de nosssa Constituição trata o tema segurança como direito e responsabilidade de todos nós - a pergunta então não é se devemos ou não promover essa aproximação entre sociedade e polícia, e, sim, o que ganhamos com isso? E é certo que temos muito mais a ganhar do que perder. Temos que abandonar urgentemente a antiga visão mocinho x bandido, isto é, aquela visão estigmatizada de que policiais estão em uma guerra social. Temos que passar a tratar o problema criminalidade no Brasil como um problema de cunho social e unir não só sociedade, mas promover a união das instituições nessa luta contra a criminalidade. Dá trabalho com certeza, mas será uma experiência bem sucedida se executada da forma correta, tenho toda certeza. Att. Sgt Salustiano - Polícia Militar de Brasília.

Elogios

Olá, Christina Yeung. Sou o 2º Sgt PM E.Borges, Comandante da Base Comunitária de Segurança do Alto da Ponte, na Região Norte do Município de São José dos Campos, Estado de São Paulo, Brasil. É muito gratificante para mim ver vocês falando em filosofia de polícia comunitária e quebra de paradigma entre a comunidade e a polícia e que os projetos estão reduzindo a violência e criando expectativas de sucesso futuro. Eu aqui no Brasil estou torcendo por vocês e tenho certeza que nossas distâncias em breve serão reduzidas. Parabéns pelo trabalho e sucesso futuros. Borges...

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