Na Libéria, guerreiros viram fazendeiros
Rob Deere e Richard Moyes
A Landmine Action (LMA) iniciou o Programa de Treinamento Agrícola Tumutu (TATP, sigla em inglês) em fevereiro de 2008, no distrito de Salala, na Libéria. O projeto fornece treinamento, reabilitação e reintegração para grupos de ex-combatentes que não participaram do processo oficial de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração (DDR) do país.
O centro de treinamento do projeto fica em uma fazenda de 200 hectares, pertencente à Autoridade Liberiana de Desenvolvimento da Borracha. A fazenda havia caído no abandono, tendo sido ocupada por diversas facções guerreiras, e estava sendo usada até então como um acampamento para refugiados.
O lugar foi, desde então, renovado pela Landmine Action, e hoje 400 ex-combatentes assistem a cursos como estudantes. Os cursos são compostos de uma fase de treinamento de cinco meses em produção de arroz, verduras, pecuária e cultura da borracha, e incluem o ensino de técnicas de estocagem da produção. É um currículo predominantemente prático – auxiliado por sessões em sala de aula.
Nós ensinamos tecnologia para construção de aldeias, alfabetização e matemática – habilidades necessárias no negócio da agricultura -, bem como prevenção da malária, saúde sexual e habilidades sociais. Os conhecimentos agrícolas passados nos cursos visam a trazer retornos financeiros a curto, médio e longo prazos.
Os ex-combatentes recebem um intensivo aconselhamento psicossocial, para que estejam preparados para a reintegração social. Como parte da preparação, os alunos associam-se a comitês de gestão, e ajudam a administrar a fazenda. O primeiro curso terminou em setembro de 2008, e 357 dos 370 alunos formados receberam certificados do Ministério da Agricultura.
Uma das diferenças principais entre essa iniciativa e outros programas de DDR é a atenção dada à integração e reintegração dos alunos depois do treinamento. A reintegração de cada um é cuidadosamente planejada, suas expectativas são levadas em conta e as comunidades são preparadas para a sua chegada.
Antes de completar o curso, cada aluno desenvolve um plano de reintegração adaptado a si individualmente. Esse plano detalha a comunidade onde serão realocados, suas metas agrícolas e o conteúdo do seu “pacote de reintegração”.
Depois de formado, os beneficiários se dirigem às comunidades escolhidas. Eles são então abastecidos com ferramentas e materiais suficientes para permitir que preparem e limpem os terrenos necessários para a agricultura ou pecuária.
O pacote de reintegração pode também incluir sementes, animais, fertilizantes, ferramentas etc., de acordo com as atividades que escolheram empreender. Algumas semanas após a formatura, as equipes de campo da LMA visitam cada beneficiário para avaliar seu progresso e fornecer apoio técnico e moral.
A fazenda/centro de treinamento do projeto irá eventualmente tornar-se auto-sustentável. Hoje, a LMA está fazendo um plano de negócios que irá detalhar o potencial de produção da fazenda e o quanto isso está de acordo com os objetivos de sustentabilidade.
A LMA e o Ministério da Agricultura estão planejando a replicação desse modelo em outras partes do país. Um segundo centro de treinamento está previsto para Sinoe Country, em vista das tensões na area, bem como a falta de capacidade agrícola do sudeste da Libéria.
Ao trazer estes ex-combatentes negligenciados para atividades econômicas produtivas - integrados com comunidades mais amplas, e não apenas antigos grupos guerreiros -, esse projeto trabalha para evitar que as pessoas retornem à violência armada num país que está aos poucos se acostumando com a paz.
Tradução: Bernardo Tonasse
* Rob Deere é Diretor de Operações, e Richard Moyes é Diretor de Políticas e Pesquisa da Landmine Action
Para saber mais:
DDR: como acabar com a máquina de guerra
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