Moçambique: armas em troca de uma nova vida

ENTREVISTA/ Titos Macie

titos_macie_edit.jpgMoçambique foi palco de uma guerra civil que vitimou um milhão de pessoas e armou a população durante 16 anos. Desde que a guerra acabou, já se passaram 18 anos de paz e o país africano que faz fronteira com Zimbábue, a África do Sul, Zâmbia e Tanzânia mostra que na construção da paz, a religião pode encaminhar um processo prático de mudança de costumes.

A campanha de desarmamento voluntária moçambicana retirou um milhão de artefatos de guerra de circulação nos últimos 15 anos - incluindo munição - por meio de uma proposta que chamou a atenção do mundo por oferecer enxadas ao invés de dinheiro em troca de armas.

A campanha "Transformação de armas em enxadas" nasceu de um projeto de conscientização da sociedade civil e ajudou a sedimentar o processo de paz liderado pelo Conselho de Igrejas Protestantes, reunindo 22 denominações religiosas e duas organizações bíblicas.

Titos Macie, do Conselho Cristão de Moçambique, esteve no Brasil para participar de um encontro internacional sobre desarmamento, e descreveu um processo de mão dupla, em que a fé em uma vida nova leva as pessoas a abrirem mão das suas armas e são recompensadas por materiais que ajudem a criar essa nova existência. Durante a campanha, armas de guerra foram entregues em troca de máquinas de costura, tetos de zinco, bicicletas.

“A campanha veio de uma senhora na cidade de Nampula nos anos 90. E continua sustentada acima de tudo por mulheres. São elas que vêm até nós e dizem: 'meu marido tem arma em casa, mas acho que ele pode ajudar na campanha'. São elas que nos mostram onde estão as armas”, conta Macie.

A religião também permite um apelo às pessoas que cometeram violência para que virem suas costas à vida anterior. Muitas vezes, os membros da igreja fazem caminhadas pela mata durante para encontrar paióis enterrados por ex-guerrilheiros. Quem entrega uma arma ganha o direito ao anonimato, a esquecer o passado. As armas entregues, segundo Macie, são eliminadas imediatamente, dinamitadas dentro de seus esconderijos, ou serradas.

Nesta entrevista exclusiva para o Comunidade Segura, Titos Macie fala da sua experiência em um país que encoraja, com os pés firmemente plantados no chão e uma conversão pessoal, a construção da paz.

Como nasceu a campanha pela troca de armas por enxadas?

O Projecto TAE fez 15 anos. Foi implementado exatamente um ano depois das primeiras eleições multipartidárias do país. Ele se apoia na frase bíblica de Isaias: “e eles converterão as suas espadas em enxadas, e as suas lanças em foices”.

A campanha de Moçambique é permanente ou é renovada a cada ano?

Nossa campanha é permanente. É claro que têm altos e baixos em função da disponibilidade de recursos. Há momentos em que, quando temos muitos recursos, recolhemos muitas armas mas, em outros momentos, o nível de recolhas é bem baixo.

O que a diferencia de projetos semelhantes de desarmamento como o de desarmamento, desmobilização e reintegração (DDR) da ONU, por exemplo?

Ao contrário das tentativas de DDR, o TAE tem perfil de longa duração. O DDR tem uma índole política e se restringe aos soldados, além de estar ligado aos acordos de paz. Já o TAE é ecumênico e, por pertencer às igrejas, pertence também às comunidades, é aberto a todos, além de empoderar as comunidades. O que não impede que seja complementar ao DDR.

Como se dissemina a TAE na população?

A questão da sensibilização é um desafio para nós. Infelizmente, temos que pagar os spots nas rádios e televisões. É difícil mobilizar a mídia nesse sentido. Embora eles nos cobrem uma taxa mais baixa do que cobram para outros, eles alegam que é preciso pagar, porque há custos de produção.

Qual é o destino das armas que são recolhidas?

Todas as armas são destruídas. Há casos em que destruímos as armas na hora e no local da entrega, por meio de dinamite – especialmente quando encontramos paióis escondidos que ameacem a segurança e não sabemos o que pode acontecer à sua volta.

Em outros casos, trazemos tudo que recolhemos para um local de arrecadação e lá elas são serradas. Isso é feito por nós, os civis, e não pela polícia. Os restos são usados posteriormente na confecção das obras de arte.

A chave do processo, então, é a deecisão por parte do cidadão?

O recolhimento depende de um processo de sensibilização, conscientização das pessoas. Mostramos que temos aqui alguma coisa para oferecer,se a pessoa estiver disponível a entregar sua arma. Mas oferecemos também a possibilidade de uma pessoa que, por ventura, utilizou uma arma para cometer um crime, possa entregá-la sem ser identificada e sem correr o risco de ser responsabilizada. Oferecemos a possibilidade de se começar uma vida nova.

Muitas pessoas vieram até nós dizendo: 'vivi muitos anos e meu ganha-pão era esta arma. Mas vocês me salvaram, me deram outra oportunidade de vida. Eu entrego esta arma, façam dela o que quiserem, mas eu quero uma nova vida, ajudem-me'. Então trabalhamos com essas pessoas, damos todo o apoio pastoral da Igreja e damos aquilo que estiver disponível.

Uma parte importante do projeto é o de transformar as armas em obras de arte...

Temos artistas filiados a um núcleo de arte que construiu centenas de peças com partes de armas desativadas. Elas estão espalhadas pelo mundo inteiro, inclusive na sede das Nações Unidas. Mas ainda não usamos fundição, o que achei interessante no caso do recolhimento de armas em Bogotá, na Colômbia.

Quais são os grupos da sociedade mais fáceis de serem mobilizados?

Pela minha experiência são as mulheres. São elas que vêm, após as campanhas de sensibilização, até nós e dizem: 'meu marido ou meu irmão tem arma em casa, mas acho que eles podem ajudar na campanha'. Elas nos mostram onde estão as armas e os documentos. Tem homens também que vêm trazer armas. Uns contam a história delas e de como as obtiveram, outros não.

Algum exemplo que marcou a campanha?

Sempre conto o exemplo de um homem, que eu acredito que tenha sido um oficial do Exército, que tinha três armas. Ocupou três postos diferentes nas Forças Armadas e, de acordo com as responsabilidades de cada uma destas funções e também para defesa própria, recebeu uma arma nova. Elas não foram recolhidas após nenhuma das transferências de cargo. Após já ter passado à vida civil, ele continuava com as três armas em casa.

Até que ele viu uma de nossas campanhas na televisão e foi falar com o bispo, dizendo que, de fato, nunca tinha pensado naquilo que nos viu dizendo na televisão e que, naquele momento, não tinha certeza de até que ponto suas armas lhe poderiam ser úteis. Queria que recolhessemos as armas. Quis se livrar daquela carga, daquele peso, que não sabia que carregava. Só percebeu isso depois de nossas mensagens.

O fato de a guerra ainda ser uma lembrança próxima facilita a entrega de armas?

É fato que uma boa quantidade das armas que recolhemos é remanescente da guerra. Elas permaneceram com a população porque, por um lado, havia muita falta de confiança entre as partes, e por outro também havia muita falta de controle.

Não se tinha informação sobre quem recebia as armas. Por exemplo, não havia um mapa de controle de onde as minas terrestres haviam sido plantadas. Houve um momento em que os antigos guerrilheiros chegaram à conclusão que não iriam mais precisar mais daquelas armas e vieram até nós para mostrar onde estavam.

Então é uma relação baseada na confiança?

Sim, numa confiança em um Estado novo, baseado na paz. Eles nos levam, caminhamos dias no meio do mato, só para buscar, identificar e recolher estas armas. Elas geralmente estão enterradas. Quando as tiramos, descobrimos que muitas ainda estão em boas condições.

A campanha nasceu de um processo de reconciliação?

Nosso projeto deu origem a uma pergunta. Uma senhora disse: 'o que vamos fazer com as armas que temos aqui à volta, em nossa comunidade?' Ela era de Nampula, uma cidade no norte de Moçambique. E o bispo se perguntou: 'como vou responder essa pergunta?'

A senhora colocou esta questão em 1993. E o projeto nasceu dois anos depois. Havia uma consciência por parte das mulheres de que as armas eram um perigo estúpido e sempre que fosse possível evitar ter armas a sua volta, melhor assim. E elas foram entregando-as.

Quais são os desafios para a campanha hoje?

A disponibilidade de meios de troca em tempo útil de modo que se responda à demanda, a sustentabilidade da campanha, e o registro dos artefatos recolhidos de forma a facilitar o rastreamento da arma desde a sua recolha até ao momento da destruição.

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