México: 80% das armas do crime vêm dos EUA

ENTREVISTA / Colby Goodman

Colby-GoodmanMenorDENTRO.jpgNão há fotos do encontro, pois foi fechado para a imprensa, mas recentemente o autor e o editor de um novo estudo sobre tráfico de armas na fronteira entre Estados Unidos e México se reuniram com 40 funcionários do Congresso norte-americano, em Washington.

O encontro foi o resultado de uma pesquisa que levou Colby Goodman, especialista em política pública internacional e seu coautor, o jornalista Michel Marizco, aos dois lados da fronteira para descobrir qual é a origem das armas usadas pelo crime organziado no México. O autores visitaram cidades mexicanas onde as taxas de homicídio estão explodindo e a imprensa, intimidada, fica em silêncio.

De acordo com a pesquisa "U.S. Firearms Trafficking to Mexico: New Data and Insights Illuminate Key Trends and Challenges” ("Tráfico de armas dos Estados Unidos para o México: novos dados e análises esclarecem as tendências e desafios-chave"), a maior parte das armas apreendidas pelas autoridades mexicanas nos últimos três anos foi comprada nos Estados Unidos.

E são armas pesadas. “Em maio de 2010, o governo mexicano declarou que, das 75 mil armas confiscadas nesse período, aproximadamente 80%, ou 60 mil armas de fogo, vieram do país vizinho”, afirma o estudo.

Durante o levantamento, os autores entrevistaram autoridades mexicanas e agentes da Agência de Álcool, Tabaco e Armas de Fogo (ATF, do inglês Bureau of Alcohol, Tobacco, Firearms and Explosives). A dupla analisou quantidades de novos dados sobre as armas que vêm alimentando a violência em uma das fronteiras mais perigosas do mundo.

Segundo o estudo, 28 mil pessoas foram mortas pela violência associada ao tráfico de drogas nos últimos quatro anos, sendo a maior parte dos assassinatos após 2008. Mais de dois mil policiais e agentes mexicanos foram mortos no mesmo período.

“As duas armas mais compradas nos Estados Unidos e recuperadas no México no mesmo período foram, em ordem decrescente: fuzis semiautomáticos do tipo AK-47 e clones da metralhadora AR-15. Desses, o fuzil de modelo russo e a AR-15 Bushmaster fabricados na Romênia são as preferidas”, diz a pesquisa.

Parcerias entre os EUA e o México levantaram uma quantidade inédita de informações sobre as armas apreendidas em galpões, carros de passeio e cenas de crime no México e que tinham sido compradas em lojas e feiras de armas nos EUA.

Apenas esse ano, a Procuradoria-Geral da Justiça do México enviou informações sobre dezenas de milhares de armas para a ATF. Os números de série e carimbos de importação no corpo das armas de fogo contam a história de armas de uso militar vendidas para intermediários do tráfico, conhecidos como "homens de palha", compras essas que, por lei, não precisam ser documentadas.

O Comunidade Segura entrevistou o pesquisador Colby Goodman, especialista em política pública internacional. Goodman espera que os novos dados levem a uma postura mais agressiva da parte de desenvolvedores de políticas públicas e cobra das autoridades mais atenção às leis. “Este é um problema enorme que ninguém dá a devida atenção”, afirma.

A violência causada pelo tráfico de drogas no México escalou de forma alarmante nos últimos dois anos, dentro de uma crise que se arrasta há sete. Isso parece coincidir com uma maior facilidade de compra de armas de uso militar nos EUA. Uma coisa levou a outra?

Acredito que exista uma conexão. Em um aspecto, isso está ligado à maior oferta de armas do tipo militar nos EUA. Ou seja, versões civis do M16, da AR-15 e uma versão semiautomática do AK-47, versões semiautomáticas do BMG de calibre .50 e, mais recentemente, a FN 5.7 que perfura armaduras (apelidada de “mata-policiais”).

Essa situação também foi facilitada quando a proibição da venda de armas longas para civis caiu por terra, dois anos atrás. Isso ajudou a aumentar a violência do tráfico. Outro fator ligado a isso é que a oferta de armas aumentou, através do aumento de importações de AK-47 semiautomáticas e kits de partes. As vendas de armas de estilo militar nos EUA vêm aumentando.

Desde quando aumentaram as importações de armas para os EUA?

Há mais armas de estilo militar no país e as importações deste tipo de armas vêm aumentando desde o segundo mandato do presidente George W. Bush, em 2002. Hoje, é proibido por lei importar armas longas que não sejam usadas para esporte. Mas essa proibição criada durante o governo do primeiro presidente Bush não foi observada rigorosamente pelo seu filho. Há quem diga que esse relaxamento no cumprimento da lei contribuiu para aumentar a oferta de armas nos EUA. 

Que outros fatores contribuem para acirrar a violência no México?

Acredito que um outro motivo foi o aumento da demanda por armas de fogo entre o crime organizado. Infelizmente, um dos resultados da tática adotada pelo governo mexicano de eliminar os grandes chefes do tráfico para reprimir o crime organizado, resultou numa fragmentação das gangues e numa corrida armamentista entre elas. Eles querem armas cada vez mais sofisticadas para obter vantagem sobre seus rivais.

Onde são fabricadas essas armas?

A arma de fogo mais comprada nos EUA e mais recuperada pelas autoridades no México (nos últimos três anos) é a AK-47 semiautomática fabricada na Romênia.

A violência na fronteira realmente aumentou muito nos últimos dois anos?

Não há sombra de dúvida. O Mexico Insitute do Woodrow Wilson Center fala sobre o grande aumento da violência na região próxima à fronteira com os EUA. Mas também houve aumento da violência no centro do país. De qualquer forma, a taxa de homicídio no México é comparável às de outros países na América Central, tais como a Guatemala e El Salvador.

O fato da taxa de homicídio se comparar a países vizinhos é um atenuante?

Não, isso não reduz o problema, que é claramente um problema enorme para os mexicanos. A taxa de homicídios cresceu de modo alarmante, os ataques têm sido violentíssimos e isso afeta a sociedade de forma dramática, de modo que a mesma taxa não necessariamente afeta as sociedade dos países vizinhos.

Existe um banco de dados sobre as armas apreendidas no México?

A melhor fonte de informação no México é o Centro Nacional de Planejamento, Análise e Informação para o Combate à Delinquencia (Cenapi), mas eles não tornam esses dados públicos. É difícil, por exemplo, encontrar informação publicada na internet. Procurei conseguir dados através de requisições de informação pública no México, mas não fui bem sucedido. Por outro lado, consegui informações ao fazer contato pessoal com funcionários do governo mexicano.

Como são compradas as armas de tipo militar no EUA?

Segundo a lei, as armas só podem ser compradas por cidadãos ou pessoas com residência nos EUA, mas a compra não é muito regulada. As lojas de armas precisam conferir se potenciais compradores têm antecedentes criminais antes de fazer uma venda. Mas nas feiras de armas a única obrigação do vendedor é se perguntar se o comprador tem uma aparência suspeita ou jeito de estrangeiro. Mas não há obrigação de apresentar uma identidade nem de verificar as informações oferecidas.

Os cidadãos mexicanos têm a mesma liberdade na compra de armas de assalto?

Não, como cidadão mexicano você não pode comprar nada acima de um revólver calibre .22. Os fuzis AK-47 e M16 são ilegais.

O que mudou entre as autoridades mexicanas e americanas que levou à tanta informação nova sobre o tráfico de armas?

Escrevi um estudo para a Flacso em 2007 que descrevia a grande frustração das autoridades mexicanas, na época, com as leis norte-americanas. Eles queriam que os EUA mudassem suas leis, mas não procuravam cooperar de modo efetivo com os EUA.

Isso agora mudou. Talvez devido ao incremento da violência, as autoridades mexicanas estão passando grandes quantidades de informação sobre armas apreendidas nos últimos três anos. Isso melhorou a inteligência da ATF sobre o tráfico de armas pro México.

Como ocorre o fluxo de informação sobre o tráfico de armas?

Quando uma arma é apreendida, por exemplo, no estado de Chihuahua, as autoridades locais passam a informação para a Procuradoria-Geral da República, que a envia por computador para a ATF, de forma periódica, semanalmente por exemplo. Em casos de urgência, o Exército mexicano envia enormes listas cobrindo períodos mais longos. Por exemplo, a ATF já recebeu uma lista com informações sobre 60 mil armas apreendidas em dois anos. 

Quais são as dificuldades do processo?

Uma das dificuldades é que as armas sejam corretamente identificadas para que os formulários possam ser preenchidos com a informação necessária. Isso é tópico de debate dentro do México. Agentes da ATF percorreram o país inteiro treinando policiais na identificação e recolhimento de dados - o que eles chamam de "laboratórios de crime". Infelizmente, os códigos de importação não foram registrados para milhares de armas e o que ocorria era usar um número que correspondia não a uma arma, mas à munição ou a granadas.

Foi fácil conseguir informação do lado dos EUA?

Fui ao Arizona, Califórnia, Texas, Ciudad Juarez e Tijuana. Meu colaborador foi a Sinora, Hermosilho, Tijuana e Juarez. Foi mais fácil conseguir as informações de agentes da ATF em campo do que aqui em Washington. Mas, no geral, não foi muito difícil. Tive algumas dificuldades na hora de divulgar o meu estudo.

Qual foi o problema?

A ATF optou por adotar uma postura não pública sobre assuntos domésticos de armas nos Estados Unidos. Sua estratégia é concentrar esforços contra criminosos no país. Há grupos nos Estados Unidos que dizem que o tráfico de armas para o México não é um assunto tão sério. Em outras palavras, há o cuidado de se evitar tocar no tema para evitar a discussão sobre controles do mercado de armas doméstico por causa do lobby das armas.

Mas porque a ATF se preocuparia com isso?

Na verdade, isso foge um pouco da minha compreensão. Tenho colocado que é importante que a ATF publique essa informação para ajudar o Congresso e o público a entenderem o que está realmente acontecendo. A ATF prefere não chamar atenção a tornar a informação mais acessível ao cidadão norte-americano.

Estranhamente, essa relutância não se limita à ATF. Para um assunto de tamanha importância, há poucos pesquisadores ou responsáveis pelas políticas públicas se dedicando ao assunto. Pode ser um pouco frustrante e até mesmo um pouco deprimente, porque é um assunto importante que não está recebendo a devida atenção.

Mas por que isso acontece?

Creio que um dos motivos por trás desta falta de interesse é que é muito difícil mudar as normas que regem o uso de armas de fogo dentro dos EUA. Durante a administração de George Bush, a Associação Nacional do Rifle [NRA, do inglês National Rifle Association] aumentou seu poder e sua influência. Eles conseguiram praticamente tudo o que quiseram. É compreensível, nesse cenário, que os pesquisadores se voltassem a outros assuntos.

As autoridades mexicanas parecem muito mais atuantes no controle do tráfico de armas do que as norte-americanas. É correta essa impressão?

Sim e não. As autoridades mexicanas estão apreendendo muito mais armas ilegais no México. Não tenho os dados oficiais, mas os Estados Unidos, por outro lado, estão prendendo muito mais traficantes de armas. Basicamente, ambos os governos precisam dar maior prioridade ao assunto e melhorar seus esforços.

Seu relatório faz parte de um projeto maior sobre o crime organizado?

Fizemos esse relatório graças ao apoio do Instituto do Mexico que pertence ao Woodrow Wilson International Center for Scholars e do Trans-border Institute da Universidade de San Diego. Nosso estudo faz parte de um projeto maior do Woodrow Wilson Center centrado na cooperação entre os dois países no campo da segurança, com ênfase no combate ao crime organizado.

Íntegra da pesquisa (em inglês, arquivo em formato PDF)

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