Mapeamento participativo chega ao Borel

ENTREVISTA / Francesco Notarbartolo di Villarosa

Francesco_Villarosa_TOPO_sh.jpgO sociólogo italiano Francesco Notarbartolo di Villarosa veio ao Brasil pela primeira vez em 1989 para trabalhar em um projeto de saúde pública da Cooperação o Desenvolvimento Italiano. Desde então, ele vive no Brasil como consultor das Nações Unidas, Banco Mundial, Banco Inter-Americano do Desenvolvimento, entre outros.    

Atualmente, di Villarosa está orientando um projeto de mapeamento participativo no Borel, Zona Norte do Rio. A iniciativa envolve os moradores na coleta de dados sobre infraestrutura, acesso a serviços sociais, questões de segurança e oportunidades de emprego, entre outras. O objetivo é tornar mais eficaz a assistência social na área. Iniciado em outubro, o mapeamento participativo vem sendo implementado por meio do projeto UPP Social e recebe financiamento do Programa de Fortalecimento de Cidadania em Assentamentos Informais do Banco Mundial.

Di Villarosa é mestre em Sociologia pela London School of Economics e tem doutorado em Estudos do Desenvolvimento pela Universidade de Sussex, Inglaterra. Seu interesse pelo tema do mapeamento participativo de avaliações, uma técnica em que pessoas da comunidade avaliam os fatores que afetam a qualidade de vida em certas áreas e colocam os resultados em um mapa, começou ali. "Foi em Sussex que emergiram muitas das técnicas de participação", afirma.

Como o mapeamento participativo chegou ao Rio?

A UPP social foi criada para integrar e fortalecer diferentes programas de serviços sociais com o objetivo de melhorar as condições de vida em favelas pacificadas. O mapeamento participativo de avaliações emergiu como uma possível ferramenta útil para dar apoio ao planejamento e à administração de programas das UPPs porque junta diferentes informações e diferentes propósitos em um único mapa. Isso ajuda diferentes setores que compartilham informações a colocarem o foco em um mesmo espaço.
 
Tudo isto foi discutido com o Banco Mundial na época, até que em outubro demos início ao projeto no Borel. Houve uma desativação enquanto a UPP Social era transferida do nível estadual para o municipal, porém agora o projeto está reativado, e nós o apresentamos no Borel e estamos conversando com a UPP Social sobre a expansão das atividades e a extensão do projeto para outras partes da cidade. 

Porque escolheram lançar o programa no Borel?

Nós escolhemos o Borel entre as favelas pacificadas quando iniciamos o projeto em outubro porque ela é intermediária em termos de condições de vida, tamanho e problemas. A ideia é estender o mapeamento a todas as comunidades onde há UPPs. Estamos ainda discutindo com o Instituto Pereira Passos (IPP) – órgão municipal que coordena a UPP Social - de que modo vamos por em prática o projeto.

Como é executado o programa?

Nós criamos uma equipe de cinco pessoas da Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos, incluindo um "ponto de foco" no Borel. Organizamos nossas ideias, informações, perguntas para os questionários, montamos uma matriz com informação relevante e incluímos fontes, estatísticas, registros etc. Produzimos questionários para a pesquisa de campo, um modelo para entrevistas com a comunidade, líderes de associações de moradores, e para profissionais, pessoas responsáveis por serviços - como escolas e postos de saúde - nas comunidades.

Em seguida identificamos pessoas da área com bom conhecimento da comunidade. Fazemos entrevistas, tiramos fotografias, percorremos a comunidade e observamos a área, e com isso criamos um mapa em que aparecem as diversas divisões, diferentes condições de vida e também uma base de dados com as informações que havíamos coletado. Simultaneamente, um geógrafo inseriu a informação em um GIS (Geographic Information System) e, em duas semanas, os nossos achados estavam disponíveis.

O que vocês estão mapeando?

Não estamos mapeando apenas acesso a serviços, estamos mapeando a variação na infraestrutura, os problemas da baixa renda, a falta de comunicação e de acesso em geral ao restante da cidade.

O que vocês têm apreendido?

Estamos aprendendo basicamente aquilo que precisamos aprender. Estivemos fazendo mapeamento participativo rápido durante vários anos, e isso está bem estruturado. Estamos aprendendo novos meios para desenvolver essa comunidade e identificar prioridades e planos para novos passos junto com a comunidade. E creio que o governo está aprendendo a levar em conta essa informação antes de tomar decisões.

O que estão descobrindo sobre o Borel?

Descobrimos que há muita diversidade dentro do Borel. O Borel não é uma comunidade homogênea. Lado lado com a pobreza extrema existe a pobreza relativa. É muito importante compreender isso antes de tomar decisões, porque ajuda a definir prioridades.

Ao fazer o mapeamento participativo, não se está apenas fazendo uma pesquisa. Estamos envolvendo a própria comunidade na discussão de seus problemas e oportunidades. Estamos construindo pontes entre os tomadores de decisão e as comunidades.

Que condições afetam o sucesso do mapeamento em uma comunidade?

O sucesso depende da receptividade e da demanda pelos poderes públicos. A visão da comunidade sempre interessa. Se você vai para uma área violenta, é claro que vai ser complicado. O Borel foi muito receptivo.

O que o senhor espera com este processo?

Esperamos contribuir para o aperfeiçoamento e fortalecimento dsd políticas públicas ajudando-as a encontrar as melhores metas e meios de integrá-las.

Como o mapeamento está sendo afetado pelas novas tecnologias?

Novas tecnologias nos estão permitindo fazer coisas novas. Tudo o que estamos fazendo pode ser posto online. Novas ferramentas nos permitem integrar questões sobre espaço, com vídeos, fotografias e áudio. Isto ajuda a melhorar o processamento da informação.

Mas os verdadeiros avanços nesta área estão no software humano, que está realmente mudando. O diálogo entre comunidades e funcionários públicos - estes estão aprendendo a se beneficiar da informação para aperfeiçoar as políticas públicas.

Tradução: Marina Lemle

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