Maconha na varanda
Dez pés de maconha crescem sob o olhar do Cristo Redentor, numa varanda do bairro de Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro. A algumas quadras de distância, entre as agitadas ruas de Copacabana, também na Zona Sul, um minicultivo canábico cresce discretamente num banheiro de serviço não utilizado, com ajuda de lâmpadas de sódio. Do outro lado da Baía de Guanabara, num pequeno pátio de uma casa, escondido em Niterói, seis plantas fêmeas oferecem suas flores a um terceiro usuário.
Estes jardineiros canábicos poderiam comprar a droga nas muitas 'bocas de fumo' da cidade, mas preferem cultivar a cannabis por si próprios. A atividade está amparada em dois argumentos: cultivar a maconha que vão fumar é uma forma de não financiar o crime organizado, e só tendo controle sobre o que é plantado eles podem garantir a qualidade da erva.
Pedro é o dono das plantas em Niterói. É advogado e há 16 de seus 32 anos fuma maconha. "Fiz meus estudos universitários normalmente, fumando quase todos os dias sem nunca me sentir desmotivado pelo fato de usar maconha. Considero a proibição uma afronta à minha individualidade e a planto sem nenhum temor: não vendo nem faço circular a minha produção, sei que o máximo que me pode acontecer é enfrentar um processo criminal como usuário, sem chance de ser condenado à prisão", diz.
Dono do cultivo no banheiro em Copacabana, Bas trabalha como designer gráfico, tem 34 anos e é o criador do Growroom, um site dedicado à defesa dos direitos dos usuários de maconha, que nasceu em 2002 no Brasil para trocar informações sobre o cultivo caseiro de maconha e que após oito anos sendo ‘viveiro’ de ideias, passou para a ação através da campanha pela legalização da maconha e a defesa dos usuários.
Nesse fórum com cerca de 30 mil usuários registrados não se fala apenas sobre como cultivar três ou quatro plantas de maconha no banheiro de uma casa. Se trocam ideias sobre os direitos individuais e as liberdades pessoais e se tiram dúvidas sobre a maconha e a saúde, a maconha e a espiritualidade, a maconha e a sociedade, entre muitas outras questões. Além disso, se acompanham os casos de usuários perseguidos pela polícia.
No Brasil, a Lei de Drogas de 2006 aboliu a pena de prisão para usuários de drogas ilegais e não proibiu expressamente o cultivo para uso pessoal. Porém, não o regulamentou, deixando um vácuo jurídico que frequentemente leva à detenção de usuários e autocultivadores (conhecidos como growers), mesmo que seja por poucas horas ou mesmo dias.
Nesse limbo, entra em ação o Growroom. “Num determinado momento, o site cresceu tanto que começou a assumir o papel de ajudar as pessoas e orientá-las. Começamos o ativismo com diversas ações pequenas e em 2007 um grupo de usuários do Rio de Janeiro pode tornar a ‘Marcha da Maconha’ bastante expressiva, defendendo o uso da maconha. Em seguida acompanhamos casos de usuários que têm alguns pés de maconha em casa e que foram injustamente presas”, exemplifica.
Remédio na horta
Talvez o caso que mais repercutiu nos últimos meses seja o do publicitário Alexandre Thomaz, de 40 anos, que derrotou um câncer por meio de quimioterapia. Ele fazia uso da cannabis cultivada por ele mesmo. Alexandre conta que, depois de ter perdido muito peso e energia, a cannabis o ajudou a superar as sessões de quimioterapia, abriu seu apetite, aliviou suas dores e atenuou seu sofrimento. "Remédio não é só o que é vendido na farmácia ou que é produzido num laboratório químico. Há outras medicinas naturais, como a cannabis, uma planta”, explica.
De um dia para o outro, no entanto, de sua mesa num jornal do estado do Rio Grande do Sul, Alexandre passou a uma cela sob acusação de narcotráfico. A polícia invadiu seu sítio no município de Santa Rita, onde, além de alfavaca, salsinha, cebolinha e louro, Alexandre cultivava dez plantas de cannabis para dar conta da sua demanda por maconha.
“Como parte do meu tratamento, comecei a cultivar a terra nesse pequeno sítio que tenho. Do total da área cultivada, só 5% era de cannabis. Mas fui preso e apresentado na televisão como traficante de drogas. Isso quase acabou com a minha vida social e profissional. Eu tinha dez plantas, uma quantidade suficiente para abastecer apenas uma pessoa...”, conta Alexandre, que hoje se dedica a uma batalha jurídica que pretende levar até as últimas consequências.
Seu advogado, Lucio Scarparo, explica que, com esse caso, todo o movimento em defesa dos direitos dos usuários de maconha espera definir jurisprudência. “Queremos que o caso do Alexandre seja o leading case no assunto. O mais provável é que a Justiça lhe ofereça uma transação penal, de modo que lhe imporiam uma sanção menor, como fazer um curso sobre os efeitos da maconha. Vamos pedir também que lhe seja outorgada uma permissão para cultivo de sua medicina. Consideramos um atropelo de seus direitos fundamentais que Alexandre não possa cultivar maconha de boa qualidade que beneficie a sua saúde”, explica Lúcio.
Diversas pesquisas sustentam a aplicabilidade médica da cannabis e, como atesta o médico paulista Elisaldo Carlini – um dos poucos que se atrevem a falar abertamente sobre o tema no Brasil – os componentes da planta têm efeitos terapêuticos muito apreciáveis no tratamento de várias doenças, entre elas, o câncer.
Lucio acrescenta que em países como Israel, Canadá e Estados Unidos, o Estado não só não pune o uso medicinal da maconha, como também a prescreve e a oferece ao paciente em tratamento. “A Constituição brasileira está baseada no respeito à dignidade humana. Nós perguntamos: é digno que uma pessoa adulta, responsável, que paga seus impostos e que foi diagnosticada com câncer não possa usar uma planta medicinal que ela mesma cultiva em casa?”, questiona Lucio.
Visão de mundo e legislação
As frequentes detenções, tanto de usuários como de pessoas que cultivam alguns pés de maconha em suas casas para se abastecer, falam desse limbo jurídico e do espaço entre o que diz a lei e a forma como ela é aplicada pela polícia. Porém, as frequentes liberações dessas pessoas também evidenciam que, passo a passo, o que está escrito começa a passar do papel à prática.
Apesar do clima de debate não só no Brasil, mas no mundo inteiro, diante da falta de vigência do modelo proibicionista, existem dois desafios principais no Brasil: o primeiro e mais profundo no nível cultural, e o segundo no nível legislativo.
Os brasileiros ainda têm pendente a decisão sobre se fumar maconha deverá continuar sendo um hábito escondido, perseguido pelas autoridades, ou reconhecido em voz alta. Além do mais, deverão determinar se permitem ou não seu uso medicinal, se o sistema de saúde passaria a prescrevê-lo e se regulamenta ou não o cultivo domiciliar de maconha, detalhando a quantidade de plantas que podem ser cultivadas por pessoa.
O antropólogo Sergio Vidal participa ativamente desse processo como representante da União Nacional dos Estudantes perante o Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad), organismo governamental encarregado de discutir o tema e formular soluções. “O autocultivo ainda é algo socialmente muito reprimido no Brasil. Em nenhum país do mundo se regulamentou essa prática, mas há legislações municipais, regionais e nacionais que criam um ambiente de tolerância frente a ela. Aqui, quando há uma pessoa processada por cultivar maconha em sua casa, costuma ser fruto da intolerância cultural”, afirma. Sergio é um dos membros mais ativos do Growroom. Ele acrescenta que o tema do autocultivo tem bastante apoio no Conad, onde está sendo discutida sua possível regulamentação.
Mas a ignorância não é só do cidadão comum. A polícia costuma cometer erros fundamentais, como calcular a quantidade de maconha pesando as plantas inteiras, incluindo seus vasos. “Para ter uma ideia do desconhecimento da polícia, houve um caso de um autocultivador em Brasília que foi preso por posse de dois quilos de maconha porque a polícia recolheu as plantas e as pesou com tudo, até a terra, ignorando que para preparar um cigarro de maconha, se usa apenas a flor das plantas fêmeas”, explica Bas, do Rio.
Algumas declarações públicas de tipo ajudaram a tirar o tema do “obscurantismo”. A mais conhecida é a do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que junto a seus colegas César Gaviria e Ernesto Zedillo, ex-presidentes da Colômbia e do México, assinou uma declaração sobre a necessidade de abolir o modelo proibicionista mundial e adotar medidas mais eficientes para lidar com as drogas, entre elas a descriminalização do usuário.
Num país cujo segundo maior grupo carcerário é formado pelas pessoas que cometeram delitos relacionados com drogas (70 mil pessoas, de acordo com uma pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade de Brasília) e onde o crime organizado é subsidiado pela venda ilegal de drogas, faz muito sentido que o governo atual tenha se mostrado favorável a uma mudança que permita conduzir melhor a questão.
E mesmo sendo difícil aprovar mudanças legislativas de temas políticos como este em ano eleitoral como o que agora inicia, o deputado Paulo Teixeira se prepara pra apresentar um projeto de Lei perante o Congresso Nacional que propõe a regulamentação do autocultivo, o uso da maconha medicinal e outros aspectos que buscam o aval de uma coalizão multipartidária.
Para dar impulso ao projeto, se realizará no dia 26 de fevereiro uma reunião da Comissão Brasileira sobre Drogas e Democracia com a presença do ex-presidente FHC, o governador do estado do Rio de Janeiro, Sergio Cabral, o prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, e outros líderes políticos.
Cara limpa
À medida que a legislação avança, o movimento social de defesa da maconha trabalha em algo mais complexo e profundo: uma mudança de mentalidade. “O conceito que a maioria das pessoas tem é de que a maconha é má, sem se questionar por que. Nos anos 20 e 30, o Estado contratou pesquisadores e se construiu um consenso baseado na fraude de dados científicos reais que falam das verdadeiras características da maconha e que mostram que houve manipulação da informação”, explica Sergio. Em outras palavras, acrescenta o antropólogo: “Os governantes do passado mentiram e a gente acreditou”.
A defesa do autocultivo é simples e convincente: usuário de maconha, maior de idade, cidadão responsável que deseja usar cannabis, planta para si próprio e se compromete a não vender, evitando o contato com traficantes, deixando de subsidiar o crime organizado e garantindo a qualidade do produto que consome.
Entretanto, também surge a questão de o quanto o autocultivo contribui para solucionar a totalidade do problema, pois a maconha continua sendo ilegal e perseguida, de modo que o mercado negro continua como o fluxo de dinheiro. Para Sergio, “descriminalizar uma conduta sem regulamentar a produção é impossível”.
Por enquanto, a coragem dos que usam maconha e se atrevem a mostrar a cara constitui o que Lucio Scarparo denomina um movimento crescente de ‘cara limpa’. “As pessoas têm medo de se expor, aceitar que usam maconha, mas está crescendo essa atitude de ‘cara limpa’, de usuários que publicam fotos com suas plantas. Quando meu pai descobriu que eu fumava maconha, ficou muito decepcionado, achava que o filho dele era um marginal”, conta. "Com o tempo", completa Lucio, "ele passou a respeitar meu ponto de vista. Me dei conta de que a maconha que comprava no mercado negro depois voltava a mim na forma de crime”, revela Lucio.
O advogado afirma ainda que, antes de assumir o caso de Alexandre Thomaz, preferia esconder o tema, por proteção a si meso e à sua carreira. “Mas chegou a um ponto em que vi que os valores estavam invertidos e não tinha por que me esconder: não faço mal a ninguém, cultivo a planta para meu consumo, nunca vendi nem vou vender, não sou nem serei provedor de ninguém”, declara Lucio.
Fotos: Cortesia do fórum Growroom






Comentários
Maconha na varanda
Cara Andrea,
Sou associado à Psicotropicus desde 2004 e achei excelente essa sua matéria: "Maconha na Varanda".
São textos claros e ponderados como esse que causarão a gradual desmontagem da hipocrisia que fundamenta a chamada "guerra às drogas"
Parabéns
Claudio Janowitzer
Rio de Janeiro
Apoio ao cultivo para uso próprio
Já está mais do que na hora de enfrentarmos esse debate de forma racional e responsável. O que diabos estão pensando aqueles que defendem o proibicionismo e a criminalização do uso? Alguém vai parar de usar? Será que não é visível que o cultivo é a forma mais benéfica para nossa sociedade? Apoio a causa e acredito na sociedade do futuro, livre dos DESvalores vigentes no sistema atual.
Que os cegos comecem a enxergar!
Cultivo Caseiro
Cadê o crime em ter um jardim em casa, e usar de seus frutos?? A natureza nos deu essa planta, nao temos o direito de proibi-la de existir..
growroon
ola, sou alexandre moro em brasília tenho 45 anos, sou usuário desde os 12 anos de idade,sempre fui muito perseguido nos mais variádos formatos das mais variádas pessoas,na realidade fico feliz porque o pessoal esta vendo que o bicho não é tão feito quanto sempre se pintou e bordou,para mim esses aparelhos repressores são em quase sua totalidade instituições automatas,comprometidas com modelos obscuros que defendem um modelo economico capitaniados por interesses capitalistas,doutrinarios de uma sociedade que sempre vampirizou praticamente o mundo inteiro defendendo uma bandeira de legalidade ou não para velar estrategias capitalistas,neoliberais ,porque o camhamo certamente seria um tiro no pé dos países produtores de petrolio,a manter na redea curta para sempre se manter,onde o povo fica amarrado no seu desenvolvimento intelectual,financeiro,economico,para manter sociedades de consumo extravagante,decadentes, enquanto uns passando fome e outros esbanjando,tripudiando sociedades mais exploradas,os sherifes do mundo com sua empresa marron manipulando todos em nome de interesses mascarados sob conceitos de moral,legalidade e outros disculpas esfarrapadas que queiram inventar nao passam todos de massa de manobra de paises neoliberais. já era caducou vamos acordar e deixar de ser manipulados por quem quer que seja.
Primeiramente, parabéns
Primeiramente, parabéns pela abordagem sobre o assunto.
Eu não sou usuário mas realmente estou convencido que o uso da Cannabis sativa já deveria ter sido descriminalizado há muito tempo.
Se aprofundando na história, vemos que a proibição dela, principalmente nos EUA, foi um caso típico de racismo e discrimalização. Forjou-se um estigma que a sociedade engole até hoje.
A sociedade condena o uso de uma planta que é praticamente um "calmante natural", e que possui até mesmo propriedades medicinais cientificamente comprovadas, e estimula o consumo do álcool, (quer mais do que propagandas de cerveja, vodca e uísque?) que gera efeitos que levam, tanto direta como indiretamente, à degradação da sociedade.
E os cigarros? Precisa dizer algo sobre a crueldade de se permitir que multinacionais enriqueçam viciando e matando pessoas?
Tem coisa errada!! E não se trata apenas de uma comparação entre os efeitos das drogas e o perigo para a sociedade, mas principalmente sobre seus potenciais lucrativos e os interesses das minorias dominantes.
Inversão de valores
Primeiramente, parabéns pela iniciativa.
O uso da Cannabis sativa realmente já deveria ter sido descriminalizado há muito tempo.
A sociedade condena o uso de uma planta que é praticamente um "calmante natural", e que possui até mesmo propriedades medicinais cientificamente comprovadas, e estimula o consumo do álcool, (quer mais do que propagandas de cerveja, vodca e uísque?) que gera efeitos que levam, tanto direta como indiretamente, à degradação da sociedade.
E os cigarros? Precisa dizer algo sobre a crueldade de se permitir que multinacionais enriqueçam viciando e matando pessoas?
Tem coisa errada!! E não se trata apenas de uma comparação entre algumas drogas!!
Trata-se de criminalizar o uso de uma, que possui menor potencial de lesar o bem jurídico “saúde pública” permitindo-se o uso de outras que M-A-T-A-M !!!
O argumento jurídico para não descriminalizar a maconha é ridículo: o “perigo abstrato” que seu uso causa. Será que ninguém é capaz de raciocinar? E o perigo CONCRETO que o álcool, o cigarro, e diversas outras drogas legalizadas causam?
O perigo causado à saúde pública quando consumimos produtos transgênicos não preocupa ninguém? Nem a utilização de hormônios (desde a aplicação nas galinhas de granjas pra botarem mais ovos, até os utilizados como anticonceptivos?), nem de se manipular genes, ou de mexer com átomos?
Citei estes exemplos porque sempre me perguntei: qual regra que vale? A de que se não está provado que faz mal pode usar, ou a de que se não estiver provado que não faz mal não pode usar?
Eu me sinto completamente desolado quando chego à conclusão que a saúde fica abaixo do interesse econômico e da moral religiosa (cite-se a condenação da camisinha pela igreja católica. Transmitir doenças pelo sexo não causa perigo a saúde pública?).
E o perigo de se criminalizar um produto de tal natureza, tornando-o escasso e fazendo dele um meio de enriquecimento do crime organizado? O aumento da violência também não causa perigo?
Toda a polêmica é causada por falta de informação. O “perigo” da maconha é apenas umas das mentiras que qualquer ser humano que nunca fumou acredita e propaga, sem se questionar. A hipocrisia e o falso moralismo imperam em nossa sociedade. A proibição da maconha é apenas mais uma prova disso. O pior cego é o que não quer ver!!!
Não há perigo nenhum em se deixar de punir o uso da maconha. Pelo contrário, o resultado imediato seria o enfraquecimento do tráfico de drogas e a diminuição da violência.
Felipe M. Pereira
Perigoso precedente
Não pretendo entrar na discussão sobre descriminalização ou legalização das drogas. Tenho posição firmada a este respeito (veja meu artigo Legalização das Drogas – Um Salto no Escuro), e ainda não consegui enxergar argumentos capazes de persuadir-me a outro entendimento.
Antes de tudo, preocupa-me profundamente a campanha insidiosa, obtusa e impatriótica de apologia ao aberto descumprimento da lei de entorpecentes, patrocinada por alguns sítios da internet.
É corrente que a nova lei antidrogas não despenalizou e nem descriminalizou o uso e porte de pequenas quantidades de entorpecente. Apenas abrandou o tratamento jurídico dado ao marginal, flagrado nesta circunstância. De igual sorte, manteve as mesmas prescrições punitivas para o plantio ilegal para consumo. Ou seja: portar para uso e cultivar maconha, fora das prescrições em vigor, permanecem gravados como comportamentos antijurídicos e penalmente reprimidos. Quem assim age, coloca-se à margem da lei, torna-se marginal (para alguns esta palavra é mais ofensiva que o ato ilícito praticado) à vista da sociedade.
No mesmo passo, a ninguém é dado escudar-se na ignorância da lei para esquivar-se do seu cumprimento. Ainda assim, diversos grupos e elementos isolados insistem na marginalidade, propagando métodos e modelos contrários a lei.
É o caso do sítio Comunidade Segura que recentemente publicou matéria incitando claramente o descumprimento da legislação pertinente a entorpecentes. Tendo como pano de fundo o raciocínio patético e infundado da superioridade da autonomia absoluta da individualidade, face o interesse social e o ordenamento jurídico, o artigo intitulado Maconha na Varanda abre perigoso precedente para desobediência generalizada de todo arcabouço normativo nacional.
Em primeiro plano, está patente a incoerência editorial do sítio – que se quer arauto da segurança da sociedade – na abordagem do tema. Ao dar curso a modelos de comportamento francamente agressivos à lei, sem o menor pudor, corrompe o princípio que deveria nortear.
Em caminho diverso, enquanto o mundo todo busca respostas razoáveis para o problema das drogas, esta mídia, estupidamente, propõe formatos “modernos” de expansão do seu consumo, demonstrando rematada irresponsabilidade histórica sobre a evolução da questão.
Importa lembrar que o desrespeito, por menor que seja, a qualquer das cláusulas impeditivas de atitudes ilícitas, causa ruptura no tecido social e abre as portas para outros desregramentos mais graves. Aliás, sem observância ao conjunto normativo vigorante não há sociedade que se desenvolva plenamente, ou sequer sobreviva. Portanto, com a conseqüente explosão de ilegalidades, provocada de início por sandices como essa, não restará comunidade para ser segura.
Se, para uma pequena minoria obnubilada, a lei não presta, isso não lhe dá o direito de simplesmente descumpri-la. Ou será que a publicação quer provar que existem maconheiros acima da lei? Que estes, por terem melhores condições materiais, deixarão de ser marginais em detrimento dos demais drogados menos agraciados pela sorte?
Neste ponto é preciso lembrar-lhes que a droga é ilegal por ser prejudicial e não prejudicial por ser ilegal.
Por outro lado, a defesa insensata da teoria da individualidade absoluta, neste caso, revela extremo despreparo cultural e sociológico de seus adeptos e pregoeiros. Repito: o que mantém a sociedade funcionando é o acatamento coletivo às leis, à moral e aos bons costumes, criados por ela própria e sedimentados ao longo do tempo por seu povo. A deliberada destruição destes valores desnatura e incapacita o pacto social de convivência pacífica e provoca convulsões, cuja extensão e potencialidade nefasta são de difícil mensuração e previsibilidade.
Finalizando, os depoimentos estampados no texto da matéria em pauta e comentários posteriores - todos a guisa de suposta defesa inconteste do não malefício da maconha -, apenas reiteram irrevogavelmente a assertiva de que as exceções confirmam a regra.
O nosso direito termina quando invade o direito do próximo
Muita gente costuma pensar somente em si, mas não pensam nas demais pessoas, isso é um grande mal que assola a humanidade. Muitos querem fazer seus direitos valerem, mas não pensão se vão invadir o direito do outro. É muito fácil aplaudir um assunto no qual me satisfaz e me apoia em algo, mas nem sempre o que me satisfaz e me apoia vai ser algo benefico ao meu vizinho, ao meu familiar, as pessoas que constantemente estão comigo, a minha volta. Imagino como é incomodo muitas das vezes está dentro de uma condução e uma pessoa "desavisada", acende um cigarro e começa a fumar aquilo. Nesse momento a pessoa so pensa no seu bel prazer, mas não pensa na outra pessoa que está junto com ela naquela condução. Existem pessoas sensíveis a certa substâncias, no caso de cigarros, pessoas que ficam com dor de cabeça e nausea, eu mesmo tenho esses sintomas ao ficar perto de uma pessoa que está fumando, isso quero dizer a um cigarro comum. A fumaça do cigarro me faz muito mal, a ponto de me provocar amdalite aguda. Então eu penso, se a maconha for aprovada como alguns querem que seja, imagino se o mesmo vai sair por aí fumando cigarro de maconha "a torto e a direita". Eu sinceramente não sei onde vão parar as coisas. Temos que ter bom censo e não pensar somente em nós. Se a maconha é aprovada ou não, não é essa questão que me assusta ou me incomoda, mas sim o fato da gente ter que conviver com um cheiro horrivel e também sermos fumante passivos de maconha. Não me levem a mal, podem achar o que quiser de mim, mas não aprovo completamente nada do que foi dito nessa matéria que provavelmente foi elaborada por alguém que aprova a liberação da maconha e esse tipo de artigo não me interessa. Eu sinceramente estou me desligando desse site, não apoio esse tipo de coisa. Favor não enviar mais nada para o meu e-mail.
maconha na varanda
Fantastico, ate que enfim uma leitura mais saudavel e concreta sobre uso de maconha.
Tenho 50 anos, 'sou usuario desde os 14 anos, já fui preso duas vezes: aos 25 anos (1986)
quando era aluno de especialização em Psicologia Clinica e devido ter alguns pés de
cannabis plantada em xaxim, minha casa foi roubada e na averiguação um policial viu e me
detonou. Depois, em 1991, quando já era professor em uma universidade pública, fazia meu mestrado em Psicologia Clinica, fui denunciado anonimamente, fiquei preso por 42 dias, felismente nào perdi meu emprego por mobilização de amigos de trabalho e alunos, mas
a experiencia causou um rombo emocional, interrompi meu mestrado, fui fazer terapia, vindo a fazer outro mestrado e conclui-lo em 2000, porém, claro, sempre usando diariamente, o que me causava e causa bem estar bio-psico-social. Fiz meu doutorado em Saude Coletiva em um programa de referencia internacional, hoje estou fora do pais fazendo meu pos doutorado, retorno
daqui um mes, e abstemico devido falta de acesso onde estou já por tres meses, ansioso por meu retorno e poder voltar a usar maconha, pois, sua falta me alterou o sono e somente consigo dormir usando medicação. A maconha apesar de me lentificar um pouco, pois me acalma, não prejudicou minha trajetoria pessoal e profissional, cumpro rigorosamente meus compromissos, pago meus impostos e contribuo com o desenvolvimento desse pais, logo, sou cidadão com direitos a ter direitos, tenho dignidade e mereço respeito e ser tratado como ser humano, assim como respeito as opiniões alheias e as diferenças. Longa vida digna a todos nós usuarios da deliciosa e prazeirosa maconha/cannabis.
Uso
Inicialmente, parabéns pelo texto, bastante explicativo sobre a nova forma, para mim, de uso que se faz da maconha. Acredito, porém, que o maior aspecto para normatizar o plantio da maconha em casa é a utilização, infelizmente, de drogas mais pesadas por outros usuários, como o crack. Na década de noventa, a maconha era a droga mais apreendida, agora é o crack que, tudo indica, seja substituído pelas drogas sintéticas.
Esquecendo-se a maconha das bocas de fumo, vejo a abertura de um caminho para sua legalização. Só um comentário adicional. Não sou usuário, sou bem careta até, mas defendo o direito das pessoas de expressão. Somente desta maneira chegamos mais próximos da verdade.
Ilegal ou não?
A questão fundamental aqui é: é ilegal ou não cultivar maconha para consumo próprio?
O texto parece enaltecer a prática e não me deixou muito claro se o "vacuo" na legislação proibindo o cultivo para consumo próprio está realmente tão vago como se quer fazer acreditar.
Foram consultados os cultivadores, consumidores e defensores. Talvez tenha faltado consultar algum juiz, advogado ou especialista no assunto.
pelo amor de deus, nem o
pelo amor de deus, nenhum jurista acredita no mito flagrante da seguinte declaração: "Importa lembrar que o desrespeito, por menor que seja, a qualquer das cláusulas impeditivas de atitudes ilícitas, causa ruptura no tecido social e abre as portas para outros desregramentos mais graves." E se houver um jurista que tente sustentar isso, putz...
O direito precisa do descumprimento para acompanhar as mudanças sociais (inevitáveis, naturalmente). Se não houvesse, desde sempre, descumprimento, teríamos a mesma legislação de milênios atrás. Raciocínio bobo, mas correto.
E quanto às rupturas no tecido social, meu caro, elas são inerentes a toda forma possível de sociabilidade. Por isso a evolução do direito precisa de certos descumprimentos para pacificar a ordem em torno do respeito às complexidades advindas das relações entre sujeitos constitutivamente diferentes.
O triste disso tudo é que esse tipo de declaração patética é a regra...
jargão vazio
Para mim a maneira mais simples e medíocre de se esvaziar um debate democrático como o aqui estabelecido é a utilização esnobe de jargões (acadêmicos, jurídicos...) que busca o estabelecimento de uma distância segura para que propaga tolices.
Lucas acertou em cheio no argumento, se a manutenção da vida em sociedade depende-se apenas do pleno segmento do arcabouço jurídico viveriamos ainda a apedrejar mulheres adulteras ou a defender a honra em duelos. Também não compreendi o posicionamento de Nelson Nascimento uma vez que debater abertamente questões relacionadas a hábitos, normas e transgressões é a origem e a evolução da democracia. Afinal para que serviria o poder legislativo senão para manter as leis coerentes com as demandas da sociedade?
Outra falácia do "doutrinador Nelson Nascimento" está expressa em "Em caminho diverso, enquanto o mundo todo busca respostas razoáveis para o problema das drogas, esta mídia, estupidamente, propõe formatos “modernos” de expansão do seu consumo, demonstrando rematada irresponsabilidade histórica sobre a evolução da questão".
Quais as respostas razoáveis aos problemas das drogas vem sendo desenvolvidas no mundo? Percebo claramente que enquanto avaçam as tecnologias repressoras avaçam os cartéis e organizações criminosas no desenvolvimento de novas e mais degradantes drogas. Parabéns pelo texto, sem dúvida lança luz sobre o debate a respeito da legalização do uso da cannabis.
Maconha só não causa
Maconha só não causa muitos problemas como outras drogas no Brasil porque no Brasil só se fuma palha com quantidades desprezíveis de THC (princípio ativo) e muito CBD (THC oxidado: traz pouca euforia e dá dor de cabeça, deixa pesado) já que a maconha chega velha, mofada, estragada em cidades como Rio de Janeiro. As drogas em geral nunca deveríam ter sido proibidas e a maconha (refiro-me a maconha de verdade, de qualidade) é uma delas. Querem saber o que é maconha de verdade? Procurem no google na pesquisa de imagem: cannabis buds.
Concordo com o cultivo
Sou usuário de maconha (maconheiro) assíduo há pelo menos 5 anos (desde o início da faculdade). Também sou ex-fumante de tabaco - parei faz 1 mês -, que comecei fumando por causa do medo que tinha de alguém sentir meu hálito logo após fumar um baseado. Então eu pegava um souza cruz e fumava pra disfarçar o cheiro. E assim foi indo até que comecei a não pedir mais: já tinha minha própria carteira carlton.
Enfim, acho que não podemos pensar nas coisas isoladamente. É uma ironia mesmo, vc vai numa tabacaria e encontra diversos tipos de seda (papel para enrolar o baseado), encontra máquininhas que enrolam, outras que esfarelam o fumo, cachimbos de muitos tamanhos, narguiles, etc. Menos o fumo. Como é isso? Tem uma polícia que te prende, mas tem uma indústria que te incita? A verdade é que a corda sempre arrebenta do lado mais fraco, o usuário final. Eu, que sou uma pessoa correta, faço tudo certinho - trabalho, estudo - e honro meus compromissos. Quando quero fumar unzinho tenho que subir um morro cheio de malandros -sim, porque a boca que vende maconha é a mesma que vende crack. Aí vc tem que mendigar uma palha que vem sempre malhada e suprimida. Ah, numa vez que fui comprar, por azar a polícia bateu na hora. E o paredão foi feito. Discretamente olhei para o policial que revistava os guris que tavam vendendo, e um deles retirou do bolso de um guri um pedaço de fumo, quebrou um tanto e colocou no bolso da farda. Isso ninguém me contou, eu vi. Depois de ter comprado, perguntei pro guri que vendeu se aquilo era normal. Ele me respondeu que sim, que volta e meia eles fazem isso. Ou é pra eles fumarem ou pra incrimar alguém, com a famosa técnica da "buchinha" no bolso do cidadão inocente. Polícia pra quem precisa, ou seja, pra eles mesmos.
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