Kibera: uma paz real e possível
ENTREVISTA/ Nelly Njoki
Área de exclusão social, afundada na pobreza e na miséria, com casas de teto de zinco, esgoto a céu aberto e índices de subdesenvolvimento humano. Uma população sem acesso a serviços e parca representação politica. Com 170 mil habitantes e 13 etnias diferentes, que se dividem em tribos e falam mais de 10 idiomas, além do swahili e do inglês, Kibera, é conhecida como a maior favela da África.
Nos últimos 20 anos, a população da favela, localizada em Nairóbi, capital do Quênia, aumentou devido ao êxodo rural e aos refugiados de um conflito que começou depois das eleições de 2007 e que causou a morte de centenas de pessoas e deixou milhares de desabrigados.
Kibera tem sido cenário de conflitos há muitos anos, mas o problema se acentuou no período logo após eleições, entre dezembro de 2007 e fevereiro de 2008, e a localidade se tornou conhecida como o epicentro da violência.
A comunidade, que serviu de cenário para o filme O Jardineiro Fiel, de Fernando Meirelles, tem um componente explosivo a mais: a terra onde os moradores construíram suas casas não pertence a eles. Eles pagam aluguéis a estrangeiros Nubianos. O resultado é um cenário de grande tensão social.
Além da UN-Habitat, que está na localidade procurando melhorar as condições lociais em parceria com o governo, a organização Amani Communities Africa (ACA) foi para Kibera depois da violência desencadeada durante o período pós eleitoral. Fundada por um grupo de advogadas para defender os direitos da mulher, a organização se interessou em levar um projeto de prevenção de violência para Kibera e hoje se orgulha dos seus resultados.
O Comunidade Segura conversou com Nelly Njoki, coodenadora de programas da ACA. Em entrevista exclusiva, a advogada falou sobre o processo de transformação social pelo diálogo. “Amani significa paz em swahili, mas paz para nós não se resume a uma ausência de violência, mas à garantia de direitos fundamentais como a moradia e ao saber conviver com a diferença”, pondera.
Quando vocês promoveram o projeto de diálogo para a paz?
O projeto de transformação de conflito em Kibera se desenvolveu entre maio e novembro de 2009, e involveu os proprietários das terras, moradores e partes interessadas (stakeholders). Um dos principais resultados do trabalho da ACA foi o nascimento da Kibera Peace and Reconciliation for Development (Paz e Reconciliação de Kibera para o Desenvolvimento/Kipred). A organização surgiu espontaneamente depois dos trabalhos de diálogo promovidos pela ACA e reflete o objetivo de promover a resolução pacífica de conflitos e a promoção da convivência entre grupos profundamente diferentes e em alguns casos, com interesses antagônicos.
O que mudou nesse período?
Agora as coisas estão calmas em Kibera. Não há tanta tensão nas ruas, tantos protestos e despejos. Quando as tensões começam a se exacerbar, há meios para atendê-las antes de deflagarem atos violentos. Nosso trabalho em Kibera foi importante para diminuir hostilidades e dar meios aos moradores para expressarem seus descontentamentos através de mecanismos formais. Não só os moradores, como os proprietários criaram organizações para formalizar as relações.
Que tipo de conflitos desencadeiam a violência em Kibera?
Kibera, que significa floresta no idioma Nubio, é uma área enorme dividida em aldeias que se organizaram ao redor de diferentes etnias. Quando a violência começa, ela quase sempre toma aspectos étnicos, com uma comunidade entrando em conflito com outra, e, mesmo quando a policia é chamada, ela pouco pode fazer. Uma das formas mais comuns de desencadear a violência é quando moradores são despejados de suas casas. Isso se exacerba em períodos eleitorais porque não é incomum que políticos venham incitar a população a deixar de pagar os aluguéis pelas terras onde moram.
Como é a atuação da polícia?
A polícia não pertence à comunidade e raramente entra. Mesmo quando entram em Kibera, os policiais são facilmente intimidados e sucumbem ao grande número de jovens da comunidade. Na verdade, quando a violência acaba, em geral é porque ela se esgota por si mesma.
O que significa mudar o paradigma da paz?
Em Kibera, devido à grande diversidade de sua população, há muitos estereótipos étnicos, muitos preconceitos que tornam problemáticas as relações entre as aldeias. Nós estabelecemos um processo baseado no diálogo que levou os participantes a verem a si e aos seus pares não só como membros de uma determinada etnia, mas principalmente, como quenianos, algo maior e comum a todos. A outra parte do processo foi passar para a população conhecimentos sobre a transformação de conflitos, ou seja, técnicas de diálogo, mediação de conflito e análise de conflitos.
Qual é o maior legado da paz em Kibera?
Fundamental para nós é que muitos moradores, que na verdade são os locatários das terras em Kibera, e que foram despejados, puderam voltar para as suas casas. Os proprietários hoje providenciam serviços para os moradores e houve uma melhoria econômica geral de forma que as pessoas podem se dedicar a seus afazeres no dia-a-dia em paz sem o medo do despejo. A violência cedeu quando foi possivel garantir um direito fundamental aos moradores: o direito a um lar.
Como foi o processo de estabelecimento do diálogo?
Primeiro, houve um trabalho de ganhar a confiança da população. Através de consultas preliminares, procuramos as pessoas que podiam nos abrir as portas de Kibera, aquelas que são respeitadas dentro da comunidade, entre elas proprietários, locatários, artistas, empresários, anciãos, mulheres e jovens.
As mulheres foram consultadas separadamente para que se tornassem mais confiantes e se animassem a participar do processo. Essas consultas foram feitas de várias formas, desde questionários, grande reuniões até encontros individuais e bate papos informais.
E a outra fase?
A segunda fase se deu em dois estágios. Primeiro montamos oficinas de resolução de problemas de dois dias de duração para grupos de 40 pessoas nas quais nos concentramos em proprietários e locatários. O objetivo foi desenvolver a capacidade para o diálogo. E tocamos justamente nos temas que levaram a conflitos violentos em outras ocasiões. Assim, pudemos criar as bases para a etapa seguinte, que foi usar diálogos de resolução de problemas para criar uma convivência pacífica.
Que cuidados foram tomados em relação aos jovens?
Nós chamamos jovens artistas locais para refletir seriamente sobre a relação entre os proprietários e locatários e criamos temas que misturassem entretenimento e educação. A inclusão dos jovens nesse processo foi muito importante porque sem eles não conseguiríamos atingir os nossos objetivos. Além do mais, através do trabalho deles, conseguimos direcionar a energia de forma positiva e criar um ambiente propício para os diálogos de resolução de problemas.
Os jovens contribuíram através de encenações e músicas sobre as questões enfrentadas na vida real, o que ajudou a quebrar o gelo e criar um clima mais ameno. Eles mostraram a difícil relação entre os proprietários e locatários, relações marcadas pela desconfiança e pela hostilidade, chegando ao ódio. Nessas relações complicadas eles ainda mostravam o papel das identidades tribais e filiações políticas, e incluíram até mesmo o papel dos governantes locais e da pobreza e da miséria no conflito.
Durante esses diálogos, foram estabelecidos limites sobre os temas abordados?
Ter passado pela fase anterior fez com que os participantes ficassem muito mais abertos, tranquilos e receptivos a pontos de vista divergentes e até mesmo antagônicos. Nesses fóruns, os participantes puderam debater extensivamente pontos que apareceram quando se encontraram pela primeira vez e puderam dar detalhes e falar com liberdade, dar suas opiniões sem ser excessivamente críticos dos outros. A tecnica era de ouvir com empatia, reflexão e com compreensão.
E qual foi o resultado concreto desse trabalho? A comunidade deu seguimento ao processo?
No final dos nossos encontros, os participantes elegeram 20 líderes locais para pensar como dar proseguimento aos resultados depois de terminado o nosso processo. Eles resolveram que a melhor forma de dar continuidade aos trabalhos foi fundar a Kipred, que se registrou como organização comunitária.
Quais foram as principais dificuldades enfrentadas durante o processo?
A complexidade da situação era tal e os problemas socioeconomicos eram tamanhos que, em muitos momentos, pareciam aparementemente impossíveis de resolver. Foi um grande desafio imbuir os participantes de esperança e aspirações de forma a motivar ações de mudança social.
Outra dificuldade foi envolver os líderes políticos e representantes do governo local. A falta da participação ou boa vontade da parte deles é um grande entrave.
Por último, a construção da paz é um processo árduo e longo que não se resume a um evento. Nós não percebemos de início como seria importante continuar monitorando e dar seguimento aos processos desencadeados. O risco é deixar os participantes se sentindo abandonados.
Em outros sites:
Projeto de mapeamento de Kibera usa jovens da comunidade que aprendem a usar GPS e montam um mapa online da comunidade.








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