Kay Nou: a paz é a saída
Colaborou Daniela Bercovitch
O terremoto de 12 de janeiro de 2010 representou uma mudança no curso de muitas vidas haitianas. Uma nova realidade regida, sobretudo, pela emergência e pela solidariedade, se instaurou no país após a catástrofe. Em Kay Nou – que quer dizer nossa casa em crioulo, sede do projeto “Honra e Respeito por Bel-Air”, da ONG Viva Rio, na capital Porto Príncipe, não foi diferente.
Imediatamente após o terremoto, Kay Nou foi transformada num imenso acampamento que abrigou mais de 400 famílias. Passados quase três meses do terremoto, a saída voluntária das famílias foi negociada pacificamente e permitiu que os desabrigados e o Viva Rio retomassem a rotina de antes do terremoto que deixou milhões de desabrigados e provocou a morte de mais de 200 mil pessoas, segundo dados do próprio governo do Haiti.
Kay Nou se tornou um dos acampamentos mais bem estruturados e organizados de Porto Príncipe após o tremor: um verdadeiro complexo de atendimento às vítimas e sobreviventes. Segundo o antropólogo Pedro Silveira, do Museu Nacional da UFRJ, Kay Nou era o melhor acampamento da capital. "Desde o momento em que se tornou oficialmente um acampamento, Kay Nou foi, de longe, o melhor. Lá oferecíamos água, comida, cuidados médicos e trabalho", conta.
O socorro inicial foi desempenhado essencialmente pela Brigada de Proteção Comunitária, um grupo formado por homens e mulheres treinados para situações de emergência, proteção a grupos vulneráveis e mediação de conflitos. O que se revelou essencial na negociação. No início, as tendas foram montadas no improviso, com lençóis. Cinco dias depois, Kay Nou ganhou infraestrutura de acampamento oficial com água potável, alimentos, sistema de higiene adequado, equipamentos de emergência, atendimento médico e psicossocial, além das tendas doadas pela Norwegian Church Aid (NCA).
"A Brigada trabalhou intensamente para nos ajudar, seja prestando primeiros socorros, ajudando os bombeiros brasileiros a retirar feridos ou mortos debaixo dos escombros - mesmo não dispondo de muitos meios adequados para fazer isso”, elogiam Freda Louis e Georges Joseph, um casal de Portail St., na Grande Bel-Air, que se abrigou em Kay Nou após perder a casa durante o terremoto.
Pedro Silveira estava no Haiti no dia do terremoto e ficou por lá durante os meses seguintes auxiliando no atendimento aos desabrigados. "Todos passaram a agir de acordo com as demandas que iam surgindo e começamos a fazer um pouco de tudo, não havia funções definidas". Por falar crioulo, Silveira se aliou à Brigada de Proteção Comunitária ficando na responsável por montar o acampamento. "Fizemos o desenho do campo, com corredores e fileiras de tendas. Montamos as barracas junto com os desabrigados", relembra.
Entre os diferenciais de Kay Nou, estava a manutenção das aulas de capoeira do projeto Gingando pela Paz, como conta Ubiratan Ângelo, coronel da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Ângelo é consultor do Viva Rio no Haiti na área de Segurança Comunitária desde 2008 e responsável pela estruturação da Brigada de Proteção Comunitária.
"Lá, as crianças e jovens puderam continuar a frequentar as aulas de capoeira que foram adaptadas à situação de emergência. Kay Nou foi um dos poucos lugares que proporcionou isso, além da expectativa de trabalho temporário e oportunidade de geração de empregos, com a comercialização de produtos no interior da casa", conta Ubiratan.
Além de todos os cuidados prestados às famílias abrigadas, foram realizados dois censos dentro de Kay Nou. O primeiro, na quarta semana após o terremoto, e o segundo dois meses após a consolidação do acampamento. Segundo Myrtho Lédesir, chefe da Brigada de Proteção Comunitária, o acampamento abrigou entre 350 e 400 famílias. “Constatamos uma população fixa em Kay Nou de mais ou menos 1.800 pessoas. Preferimos fazer os censos de madrugada porque era o horário em que todos estavam dentro de Kay Nou – muitos só iam lá para dormir", explica.
Kay Nou era um espaço diferente e o fato de ser um dos melhores acampamentos de Porto Príncipe servia como atrativo para pessoas de outras partes da cidade. O local acabou se tornando uma referência para os haitianos e, justamente por isso, surgiu a preocupação de retomar o foco do projeto Honra e Respeito por Bel-Air e de recuperar o espaço físico de Kay Nou. "A presença daquelas famílias ali dentro impedia ou atrapalhava a execução de outros projetos. Mas não era possível simplesmente expulsar aquelas pessoas dali, não seria justo com elas", opina Pedro Silveira.
O acordo
Após a decisão da retomada das atividades de Kay Nou, o planejamento das ações para viabilizar o acordo foi feito minuciosamente. “A estratégia consistiu em expor, com clareza e simplicidade, os problemas e os consequentes prejuízos que a manutenção do acampamento em Kay Nou geraria nos projetos que o Viva Rio desenvolvia e para as comunidades que deles se beneficiavam”, explicou Ubiratan Ângelo. Após a convocação dos chefes de todas as famílias cadastradadas no campo, os termos do acordo foram estipulados.
Cada família receberia a tenda na qual estava morando e mantimentos por três meses. "Foi fechado um acordo cash-for-work com o Escritório para Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (Office for the Coordination of Humanitarian Affairs – OCHA), que se comprometeu a auxiliar na retirada dos escombros e entulhos das residências das famílias que regressassem para suas casas", explica Rubem César Fernandes, diretor-executivo do Viva Rio.
Ainda foi acordado que uma criança de cada família teria direito a uma bolsa de estudos do projeto Tambou Lapè durante um ano em um colégio da escolha da família. A garantia de assistência especial à saúde de crianças de até dois anos e suas respectivas mães também foi um dos pontos estabelecidos no acordo.
A negociação estipulava a saída de todos de Kay Nou até o dia 10 de abril. "Imaginávamos que teríamos muitas dificuldades durante o processo", contou o coronel. Para o espanto de todos, porém, no dia 4 de abril, o acampamento amanheceu vazio. "Em um dia, cerca de 1.700 pessoas deixaram o campo, aproximadamente 80% da população de desabrigados", contou Pedro Silveira. "Nossa ideia era fazer um trabalho de sensibilização da população desabrigada, mas não houve tempo suficiente para completá-lo", revelou Myrtho Lédesir.
A saída repentina e voluntária dos desabrigados fez com que a direção de Kay Nou não tivesse tempo suficiente para cadastrá-las e isso poderia dificultar o cumprimento dos termos do acordo. "Somente algumas poucas famílias haviam deixado um contato telefônico, por isso, começamos a ir atrás delas", contou Silveira.
Durante o mês de abril, a equipe de Kay Nou tentou estabelecer contato com alguns dos ex-moradores do acampamento. Algumas famílias voltaram para reivindicar as promessas que o Viva Rio havia feito. “No começo, eram 50, depois de meia hora, eram 300. Inicialmente fiquei com medo, pois houve um ensaio de manifestação. Levei-as até o ginásio e organizamos uma assembléia onde ficou decidido que voltaríamos ao estágio anterior da negociação", conta Pedro Silveira.
Moradores do campo têm uma versão diferente: "No início, achamos que não havia nenhum benefício prometido. Tínhamos simplesmente que respeitar o fato de que a propriedade era particular, e que o projeto deveria retomar seu curso. Mas logo compreendemos que o Viva Rio precisava do espaço e temos confiança de que o Viva Rio vai continuar nos ajudando", afirma Freda Louis.
“A ajuda do Viva Rio ficou comprometida pela saída rápida das famílias, e esse era o motivo da reclamação. Isso virou um foco de tensão. Havia uma pressão muito grande e compreensível, por parte das famílias, por melhores condições de vida e por trabalho", pondera Pedro Silveira.
Foi estabelecido, então, um cronograma de atendimento às famílias e em duas semanas todos já haviam sido atendidos. "No dia seguinte começamos a distribuição organizada dos tickets para retirada de comida, além da distribuição das tendas e da assinatura dos contratos", conta o antropólogo. Segundo levantamento do Viva Rio, cerca de metade das famílias voltou para casa, outras 35% foram para casa de familiares, e um pequeno percentual foi para outros acampamentos ou está morando na rua.
Depois que deixaram Kay Nou, Freda e sua família foram para o campo de Piste Aviation. "A maioria dos desabrigados que estava morando em Kay Nou foi para lá também, mas enfrentamos problemas com as pessoas que já moravam nesse acampamento por questões de divisão de espaço e dos benefícios", conta Freda.
O coronel Ubiratan Ângelo garante que o desfecho da negociação em Kay Nou servirá de exemplo para outros acampamentos. "A notícia de que o acordo foi implantado de forma rápida, bem-sucedida e sem resistência percorreu o Haiti através das diversas agências e organizações internacionais que prestam auxílio humanitário no país", afirma. "Estamos muito contentes com a rapidez da mudança e confiantes de que podemos ajudar outros campos com a mesma estratégia. É importante priorizar projetos de longo prazo, em vez de contribuir para criação de mais campos. O caso de Kay Nou pode servir de exemplo para novas ações", comemora Fernandes.

Com a retomada do espaço físico de Kay Nou, já começaram as obras de recuperação e reparação dos edifícios. "Estamos demolindo as paredes e edifícios dentro da sede que correm o risco de desabar", explica Daniela Berkovitch, coordenadora-adjunta do projeto. A idéia, segundo ela, é retomar todas as atividades que eram desenvolvidas em Kay Nou antes do terremoto. “Para isso, o Viva Rio recebeu uma ajuda emergencial do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)”.
As reuniões do projeto Tambou Lapè com líderes comunitários, o Batalhão Brasileiro (Brabat) e a Polícia Nacional já voltaram a acontecer na sede. A captação de água da chuva e a prática de esportes, principalmente a capoeira, também já estão funcionando, assim como o projeto Tetos Verdes, em que são plantadas árvores nos telhados das casas para arborizar e tornar mais verde a cidade de Porto Príncipe.
Daniela conta que o biodigestor, equipamento que produz energia a partir de dejetos humanos, está sendo reconstruído, assim como a clínica média. Enquanto isso, a administração ficará funcionando na casa do Viva Rio em Pacot, outro bairro de Porto Príncipe, fora da Grande Bel Air, até que os projetos retomem por completo o ritmo normal.
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