Força não é violência
Nada justifica a morte ou o ferimento de um inocente. Com essa consciência, os soldados da Minustah – a Missão de Paz da ONU no Haiti - deram seis mil tiros de advertência em uma semana e não atingiram ninguém. A afirmação é do general Santos Cruz, que durante mais de dois anos comandou as tropas internacionais de paz no Haiti.
"Foram seis mil decisões corretas. É por isso que sou fã dos soldados", disse o general brasileiro no seminário "Uso progressivo da força: dilemas e desafios", realizado no dia 3 de julho, no Rio de Janeiro. Organizado pelo Viva Rio com apoio do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), do Ministério da Justiça e do Programa das Nações Unidas pelo Desenvolvimento (Pnud), o seminário reuniu militares, policiais, gestores e pesquisadores da segurança pública com o objetivo de promover um debate qualificado acerca do tema.
Santos Cruz contou que apenas soldados voluntários treinados intensamente com todo o material possível durante quatro a cinco meses foram recrutados para a Missão de Paz no Haiti. Segundo ele, a Minustah reúne os melhores militares que cada país pode oferecer, e que em todos os setores só há pessoal especializado.
"Levávamos de três mil a 3.500 tiros na rua por dia. Tem que ter muita confiança no próprio procedimento para não fazer besteira. Não se pode fazer uma operação sem um objetivo definido bem claro e a tropa treinada para a ação. Tem que ter tranquilidade e desenvolver a percepção. Não é todo sujeito de mau aspecto que é bandido", afirmou.
Cruz destacou a importância do soldado que está na rua, porque ele conhece os detalhes da vida prática local e sabe a resposta que a comunidade quer e precisa. "Ele transforma em prática o que a gente idealiza. Os soldados são corajosos quando é necessário e também ajudam em serviços, usando calção", contou.
Já aqui no Brasil, o uso da força não está devidamente protocolado. Segundo o antropólogo Rubem César Fernandes, diretor-executivo do Viva Rio, o uso descontrolado da força se impõe quando um agente responde a situações imprevistas de forma improvisada, como se fosse refém da iniciativa adversária.
"Quem atirou primeiro? Não dá para saber e a uma certa altura não importa. É preciso agir com menos margem de risco de fatalidades e perdas, como mostram as experiências no Haiti", defendeu.
De acordo com a antropóloga Luciane Patrício, do Ministério da Justiça, o uso da força no Brasil ainda carece de indicadores, o que deixa certas decisões na obscuridade. "Por exemplo, em que situações se justifica o uso do blindado (popularmente conhecido como "caveirão") pela polícia?
Segundo Luciane, o uso da força deve ser previsível, o que confere confiança. "É preciso romper com a lógica de que uso da violência é uso da força. Se ele é legal, é legítimo. Deve-se saber que procedimento a polícia irá adotar a partir de determinados níveis de risco. Esse é um ponto nevrálgico das polícias no mundo inteiro", disse ela. Para Luciane, a afirmação de que "policiamento se aprende nas ruas" mostra a fragilidade do ensino.
Daniel Lerner, assessor da Secretaria Especial de Direitos Humanos, lembrou que a própria presença policial é o primeiro degrau na doutrina do uso progressivo da força, como coibidor inicial. Ele acrescentou que para a cultura policial se transforme com base nos direitos humanos, o lado dos profissionais de segurança também devem ser levados em conta.
Representando o Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (Bope), o major André Batista disse que para reduzir a letalidade de policiais e da população civil é preciso qualificar a ação policial, o que se faz com centros de instrução, equipamentos e tecnologia e com o fortalecimento da legitimidade institucional da polícia, de forma que se resgate a sua autoridade.
O major destacou a importância dos projetos sociais que trazem a comunidade para dentro do batalhão e da redefinição das relações entre polícia e sociedade. Para Batista, mesmo depois de se aplicar a força em nível máximo, ainda se pode voltar ao nível um, que é o diálogo. Ele contou que o Bope tem diversos tipos de armas não letais e que a tropa é treinada diariamente e está capacitada para o uso do taser, que nunca foi usado.
Para Paulo Storani, secretário municipal de Segurança Pública de São Gonçalo, RJ, e instrutor da Academia de Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, o uso correto da força depende muito de como o profissional é selecionado e treinado.
"Não podemos esquecer da pessoa ao construir uma política pública que a sociedade considere correta. Não é só o que se pode fazer em termos de normas e procedimentos, mas também o que se pode fazer para que as pessoas trabalhem dentro da norma. É preciso considerar ao que o policial é submetido e o que é cobrado dele. O protocolo de engajamento não pode ser mais uma norma escrita que não tem condições de ser realizada", enfatizou.
Storani acrescentou que o saber acadêmico "tem valor no discurso mas não na rua". "Em situação de estresse, o tempo passa muito rápido e a decisão muitas vezes é irreversível", disse. Para ele, construir um protocolo de engajamento é um grande desafio que passa por três dimensões: a norma, a pessoa e o treinamento. "O bem maior são as vidas salvas, tanto dos operadores da segurança quanto dos infratores", concluiu.
A professora Jacqueline Muniz, do Grupo de Estudos Estratégicos da Universidade Cândido Mendes, no Rio, lembrou que apesar de o Brasil ter assinado todos os protocolos da ONU, isso não se traduziu em políticas e procedimentos de polícia. Para ela, os protocolos, para funcionarem, precisam de uma perspectiva de pactuação entre a polícia e os cidadãos.
Segundo Jacqueline, sem pacto, maximiza-se o poder de polícia, numa relação que por partida é assimétrica.
"O fundamento é o pacto, de acordo com cada sociedade. Pactuações locais, cotidianas, com consentimento entre a polícia e os cidadãos, permitirão construir os protocolos", disse.
Para Antonio Rangel Bandeira, coordenador do Projeto de Controle de Armas do Viva Rio, o seminário superou as expectativas. Segundo o pesquisador, mesmo sendo as armas menos letais um tema muito novo no Brasil, o evento reuniu policiais e especialistas em segurança pública de vários pontos do país que já demonstram estar se atualizando sobre o assunto, muito debatido nos países desenvolvidos.
"Se nestes países em que a polícia tende a ser mais bem treinada e respeitadora dos direitos dos cidadãos o tema é considerado relevante, imagine a importância para o Brasil, em que a truculência e arbitrariedade ainda impregnam amplos setores de nossas corporações", disse.
Foto da capa: arma não letal, de Fábio Rodrigues/ABr.
Saiba mais:
Uso progressivo da força: dilemas e desafios








Comentários
O Governo e a Prefeitura do Rio nunca compraram TASER!
Salta aos olhos o comentário do Major André Batista de que o BOPE-RJ possui armas TASER, está capacitado a opera-las, mas AS ARMAS TASER NUNCA FORAM UTILIZADAS...
Os parentes e amigos dos cidadãos cariocas assassinados por policiais despreparados e não-equipados com armas não-letais devem estar perguntando: Por que apenas o BOPE dispõe de armas TASER? Por que estas armas não foram distribuídas para todos os policiais cariocas que atuam nas ruas? Por que o "guarda da esquina" não tem um TASER na cintura?
O Governador do Estado e o Prefeito do Rio de Janeiro jamais compraram uma arma TASER! Todas as armas TASER que estão no Governo e na Prefeitura do Rio de Janeiro foram adquiridas pelo Ministério da Justiça e doadas para o Rio de Janeiro, como quem diz: "já que vocês do Rio não fazem nada, nós vamos bancar a babá e dar comidinha na boquinha do bebê!"
Esta é a realidade! Nos Estados Unidos TODOS os policiais tem duas pistolas na cintura: a arma de fogo e arma TASER! Aqui no Rio de Janeiro, só tem arma TASER nos Grupos de Operações Especiais e, claro, nunca foi usada e, pelo visto, dificilmente será, porque QUEM PRECISA DE TASER É O POLICIAL QUE ESTÁ NAS RUAS TODOS OS DIAS!
Acho que está na hora de enviamos um manifesto para o Ministro da Justiça solicitando doação de armas TASER diretamente para as pessoas dos policiais e, de preferência, sem passar pelos gabinetes!!!
400 ARMAS TASER MOFAM NAS PRATELEIRAS DA PMERJ
Cerca de vinte Guardas Municipais do Rio de Janeiro já portam armas Taser nas ruas do Rio, mas os policiais militares cariocas estão sem Taser, visto que as mais de 400 armas Taser doadas pelo Ministério da Justiça para o Governo do Estado do Rio de Janeiro estão mofando nas prateleiras da PMERJ.
Por que será?
Alguns dizem que é o lobby dos fabricantes de armas letais que estão desesperados com a possibilidade de perderem vendas de armas de fogo…
Enquanto isso, os policiais militares do RJ, sem Taser na cintura, seguem matando pessoas por causa de canivetes, como ocorreu recentemente na Praia do Arpoador.
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