Estação Esperança: adeus ao trem do crime
Na cidade de Estación Central, na periferia de Santiago, no Chile, o projeto Estação Esperança (foto) surgiu para por fim à iniciação sistemática de jovens menores de 14 anos no crime.
Setor da capital chilena exporto a altos índices de criminalidade juvenil, Estación Central tem 130 mil habitantes e, antes do projeto, não oferecia qualquer outra possibilidade aos adolescentes em conflito com a lei além do isolamento da escola e das punições habituais.
O que os criadores do projeto Estação Esperança descobriram foi que essa forma de lidar com a situação só marginalizava ainda mais estes jovens – muitos dos quais acabavam por ingressar de vez na vida do crime.
Assim surgiu o projeto, que se fundamenta no aproveitamento dos talentos de cada jovem e de suas familias e sejam detectadas falhas associadas ao contexto familiar. Para Felipe Andrés Fernández Soto, chefe do departamento de Segurança Pública do município de Estación Central, a individualização de cada processo é o que faz do projeto único em seu campo e com alto nível de aceitação na comunidade.
"Nosso objetivo é trabalhar próximo aos jovens que tenham infringido a lei ou que tenham tido seus direitos violados e que, por causa disso, estejam sendo alvo de investigação policial. As principais ações são destinadas a pesquisar e conceber planos de intervenção específicos e diferenciados para cada usuário do projeto, de acordo com suas características particulares", explica o psicólogo.
Fernández, que participou da concepção do projeto e atualmente faz a supervisão técnico-financeira e administrativa da equipe, afirma que o Estação Esperança conseguiu reduzir a taxa de reincidência criminal de seus beneficiados que hoje está em torno de 17%.
Contato direto
"Uma das principais lições aprendidas é a necessidade de se desenhar estratégias diferenciadas e realistas para evitar o desgaste", explica Fernández. Ele acrescenta que um dos principais desafios do projeto é a baixa taxa de aderência daqueles que ingressam no programa.
"Geralmente, estes meninos e meninas já passaram por diversas intervenções no sistema educativo e de saúde mental, mas sem muito êxito. Para enfrentar esse problema e gerar um vínculo de confiança com a equipe, em uma primeira etapa realiza-se um trabalho de visitas domiciliares, nas quais conversamos com o jovem ou a jovem e estabelecemos compromissos de trabalho", explica o coordenador.
Em uma pesquisa realizada para acompanhar a aceitação do projeto entre seus usuários, 60% dos adolescentes entrevistados disseram se sentir bem quando os "tios" – como chamam os psicólogos e assistentes sociais – visitavam sua casa. “Gosto de me reunir com os 'tios' do projeto porque assim posso conversar coisas pessoais com eles”, disse um dos usuários.
Durante a pesquisa, a maioria dos adultos responsáveis pelas crianças também disseram concordar com essa iniciativa. "Existe, acima de tudo, um bom vínculo por parte dos profissionais do projeto, tanto com os adultos quanto com os jovens, que valorizam a companhia destes profissionais nas visitas de campo. A percepção que têm das oficinas do projeto é a de que estão em um lugar seguro", acrescenta Fernández.
A população infanto-juvenil da cidade de Estación Central está exposta a uma série de fenômenos associados à violência, como o consumo de drogas, a violência de gênero e infantil, a exploração sexual e o tráfico de armas.
Devido à complexidade destes problemas, os criadores e os executores do projeto entendem que as soluções requerem uma abordagem multicausal. "Por isso, o projeto realiza uma série de parcerias com atores locais encarregados da prevenção e da repressão ao crime (a polícia) e com as instâncias jurídicas encarregadas de sua reparação ou punição", explica Fernández.
Os jovens que frequentam o Estação Esperança têm entre quatro e 17 anos. Suas histórias estão marcadas por abandono precoce da escola, ao ponto de alguns deles permanecerem fora do sistema escolar por até três anos, no momento em que entram em contato com o projeto.
Muitos foram expostos a experiências distintas de violência ou violação grave, como o assassinato de algum familiar próximo, o abandono do lar pelo adulto responsável ou expulsão do jovem de casa, a violência intrafamiliar, que vai desde a violência de gênero até a contra a infância, o consumo de álcool ou o tráfico de drogas no lar, e a proximidade de um parente em conflito com a lei.
"Geralmente, no momento em que entram em contato com os jovens, os técnicos se deparam com conflitos familiares, sustentados por dinâmicas de violência e violação que perpassam gerações – questão que torna necessária uma intervenção integral com o/a jovem e sua família", agrega Fernández. Estes conflitos muitas vezes levam à equipe a acompanhar o/a jovem na busca de um lugar seguro para seu desenvolvimento, de forma que possa se reincorporar às tarefas próprias da idade em que ele se encontra.
Metodologia da intervenção
A metodologia da intervenção tem caráter ambulatório e se baseia em visitas domiciliares. Há quatro níveis de intervenção: acompanhamento individual, integração em grupo, fortalecimento das competências familiares e intervenção em rede. Para os profissionais envolvidos, o mais importante é conseguir que o/a jovem volte à escola e não seja desligado dela, mas ainda assim permanecendo em contato com a equipe.
Na primeira fase, quando os adolescentos se ligam ao projeto, faz-se um diagnóstico que estabelece o índice de vulnerabilidade do menor, assim como suas potencialidades. A elaboração deste índice se fundamenta em um estudo realizado por Jorge Araya e David Sierra, em 2002, intitulado "Influência de fatores de risco social na origem de condutas criminosas". O trabalho contempla aspectos como a história de vida, pobreza, escolaridade, condições familiares e o entorno. Posteriormente, este índice é confrontado com a experiência empírica obtida ao longo do projeto.
O segundo passo é a intervenção, cujas características são determinadas a partir de cada caso, individualmente: uso (ou não) de drogas, nível de escolaridade, tempo fora da escola, condições familiares. Caso não haja resposta à esta intervenção, o jovem é encaminhado a um programa de assistência mais complexo, com avaliações periódicas da intervenção ou até com apoio jurídico ao menor que demonstre necessidade, em virtude do crime que tenha cometido.
"Por fim, faz-se o acompanhamento e o fechamento do processo. A princípio, é feita uma avaliação do cumprimento das metas fixadas no plano de intervenção individual elaborado para o/a jovem. Em uma reunião técnica toda esta informação é apresentada e então é determinado um período de acompanhamento de, no máximo, três meses, após a apresentação do fechamento. Por último, elabora-se um informe do fechamento do caso", finaliza Fernández.
Outras áreas de prevenção
O Estação Esperança é apenas um dos projetos de prevenção à violência do município de Estación Central. Outras áreas de atuação também envolvem trabalho com mulheres, com a Polícia e com a comunidade como um todo.
A cidade conta, por exemplo, com um centro de atenção a mulheres vítimas de violência pelo parceiro; com o programa de prevenção ao tráfico e consumo de drogas e, ainda, com a oficina de proteção aos direitos das crianças e adolescentes. Respectivamente, atuando em suas áreas de proteção, estes projetos promovem acompanhamento psicossocial e jurídico a todos aqueles – seus usuários – que estão sendo vítimas de maus tratos e/ou de negligência.
No que se refere à linha de prevenção situacional, o município instalou câmeras de televigilância e um processo participativo de instalação de alarmes comunitários está sendo posto em prática. Pretende-se, com isso, fortalecer o capital social de um território delimitado e ainda melhorar as condições de organização e segurança neste território.
Outro aspecto que se encontra em desenvolvimento crescente em Estación Central é a otimização e articulação do trabalho com as polícias e o Ministério Público. Finalmente, na área de segurança comunitária, uma grande transformação está em curso destinada, sobretudo, à melhor distribuição dos recursos humanos existentes no território e ao conhecimento, por parte da população dos bairros, sobre quem são os responsáveis por seu setor específico.
Tradução: Mariana Mello








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