Esse papo é de responsa

papo_de_responsa1.jpgOs uniformes escolares já estão todos rabiscados de hidrocor. É início de dezembro, final do ano letivo, as férias já estão aí. No meio desse clima de descontração, logo após o recreio, surgem dois policiais civis fardados e armados no pátio da escola Centro Moderno de Ensino, em Niterói. A reação é imediata: “É um policial, cara? Show, né?”. “Olha a pistola!”.

Junto aos inspetores Claudia Otilia e Marco Pedra, vinha também mais um adulto estranho àquele ambiente escolar. Era Chinaider Pinheiro, ex-traficante e hoje integrante do Afroreggae. Os três fazem parte do projeto Papo de Responsa, uma parceria da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro com o Grupo Cultural Afroreggae que vem marcando presença em escolas e faculdades – públicas e particulares, além de igrejas, abrigos para jovens e empresas do Rio.

O que se passa nos encontros é, acima de tudo, um papo – dessa vez, os interlocutores eram jovens de 12 a 15 anos. Não existe um script ou modelo de palestra. As dúvidas e assuntos vão surgindo. “Não viemos com nada pronto. Geralmente só mostramos um vídeo sobre preconceito, com imagens fortes. Mas é a escola que direciona o que quer que a gente fale, ou mesmo o rumo da conversa acaba ditando o papo”, explica Claudia.

A discussão é quase sempre em torno da segurança pública e cidadania. O papo aborda desde o bullying, a falta de respeito no ambiente escolar/familiar, o uso (e abuso) da internet pelos jovens, até a corrupção policial, os problemas no sistema carcerário e o consumo e descriminalização das drogas. Como trata-se de temas complexos e polêmicos, que renderiam papos muitos mais longos, as dúvidas não são totalmente esclarecidas. Mas é a partir do interesse mostrado pelos jovens, que o Papo de Responsa tenta manter o vínculo com as instituições que visita.

“A ideia do Papo de Responsa é criar vínculos com os jovens, acompanhá-los, promover mais debates e encontros nas mesmas escolas, voltar, dialogar, conscientizar”, explicou o inspetor da Polícia Civil Marco Pedra. No próximo mês, o projeto dá mais um passo para sua consolidação. Uma reunião de planejamento estratégico vai definir os rumos para o futuro e a inspetora Claudia já anunciou que foi fechado convênio com a Secretaria Estadual de Educação do Rio para levar o programa a várias escolas públicas.

Críticas à atuação da polícia naturalmente surgiram ao longo do Papo. “A gente vem aqui botar a cara a tapa mesmo. Se eu perguntar o que vocês acham da polícia, com certeza não vou ouvir coisas boas. O policial faz parte da sociedade – se ele é corrupto, é porque a sociedade também é corrupta. É o que chamo de corrupção ativa e passiva. Temos dupla responsabilidade, como policiais e cidadãos. E a polícia não é menos corrupta porque estamos aqui hoje”. Diante da indagação de um dos alunos, sobre como se defender de um policial corrupto, Pedra foi direto, mas sem isentar sua corporação de culpa: “basta estar em dia com suas obrigações. Aí um policial corrupto não terá como te ameaçar ou extorquir”.

Embora se dediquem ao Papo, tanto Chinaider quanto os inspetores não trabalham exclusivamente com isso. O agente de projeto do Afroreggae é também responsável pelo projeto Empregabilidade, promovido pelo grupo. Ele tenta ajudar pessoas de comunidades de baixa renda, egressos do sistema penitenciário ou mesmo criminosos que tomam a decisão de sair do crime.

Além de participar do Papo de Responsa, os inspetores continuam realizando suas atividades dentro da polícia. O Papo é, portanto, um projeto paralelo. Presente em vários outros encontros, Beto Chaves, da Polícia Civil, e Norton Guimarães, do Afroreggae, são outros responsáveis pela concretização do Papo de Responsa.

A importância do diálogo e das escolhas

papo_de_responsa.jpgO objetivo principal do projeto é promover a integração entre polícia e comunidade. O lema que o projeto defende já diz tudo: “o papo é a saída que cala a guerra, derruba muros, abre caminhos e quebra preconceitos”. Em geral, é tratado nas conversas tudo o que diz respeito a valores humanos – os quais, para a coordenadora da escola, Lucia Fortes, não estão sujeitos a modismos. Segundo ela, a aproximação das férias escolares gera grande preocupação nos educadores, pois os alunos passam a ter muito tempo disponível. Foi por isso que ela teve a iniciativa de trazer o Papo para a escola.

“Muitas vezes o problema da nossa sociedade não é de crime, e sim de papo. Quantas vezes nesse ano vocês já abraçaram seus pais e disseram que os amam? Nosso dia-a-dia tem estado muito corrido, sem espaço para o papo. Temos o hábito de jogar sempre a responsabilidade para o outro”, analisou o policial Marco Pedra.

“Não viemos falar aquele “blá, blá, blá” de sempre, que a droga faz mal e outros formalismos. O Papo de Responsa serve para alertar. Para que cada um se pergunte: o que eu quero para minha vida? As escolhas que fazemos na vida são muito importantes. Cabe a cada um de vocês se posicionar. Como, por exemplo, tomar um ecstasy ou fumar maconha numa festinha. Se, no futuro, vocês decidem prestar um concurso público, uma das etapas para a aprovação é a investigação social, quando se levanta a ficha do candidato. E aí, se você tiver algum incidente, por menor que ele seja, você está fora, eliminado”, exemplificou Pedra.

Diário de um ex-detento

A atenção despertada nos jovens pelo testemunho dos policiais, porém, nem de longe se assemelhou ao fascínio pelas palavras de Chinaider.  Ele saiu da prisão praticamente direto para o Afroreggae, no início deste ano – foi José Junior, coordenador-executivo do grupo, que lhe deu a oportunidade. Ex-traficante, ele ficou sob custódia durante dez anos e quatro meses – entre idas, vindas, fugas e recapturas – por chefiar o tráfico em seis grandes favelas do Rio, entre elas Vigário Geral.

Chinaider endossa o discurso de Pedra sobre a importância das escolhas. Todo seu passado no mundo do crime, reconhece, foi fruto de suas decisões. Ele lembrou o constrangimento passado por sua esposa e filhos nas visitas ao cárcere, as cartas da filha que lia dentro da prisão, o assassinato de seu irmão em um confronto com a polícia e até a obrigação de comer a comida do presídio, “que vem fedendo e podre”, segundo ele. Para concluir que “a vida do crime é muito ilusória, ela atrai meninas que só querem se envolver com traficantes, porque veem glamour nisso – o que é um grande erro, pois elas nunca terão uma relação estável”, pondera.

“Cheguei a ganhar quase R$10 mil por semana, mas minha família não tinha orgulho de mim. Pelo contrário, eu era uma vergonha para eles”, reconhece. Hoje, aos 35 anos e após concluir o 2º grau, ganhando um salário, como ele mesmo diz, “com o suor do seu rosto e fazendo um trabalho digno”, Chinaider tem orgulho de si mesmo.

Um dos jovens que participava do Papo não se conteve e quis saber de Chinaider quantas pessoas ele já havia matado. Mas o agente do Afroreggae, perspicaz, disse “estar maravilhado com seu trabalho atual” e ter perdido outra conta: a de quantas vezes ele já tirou alguém do mundo do crime desde que vem atuando no projeto Empregabilidade. Ele conta que seus colegas recém-saídos da prisão ligam para ele às vezes no dia seguinte à liberação, procurando ajuda. A pergunta que ele faz sempre é: “vocês querem mudar de vida?”

Na empreitada de ressocialização dos ex-criminosos, além de conseguir emprego, Chinaider é responsável por supervisionar sua atuação. É com ele que os empregadores fazem reclamações ou elogios. Ele considera esse trabalho muito gratificante: só três casos, segundo ele, não deram certo.

Polícia e bandido do mesmo lado?

 

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Dez integrantes de cada lado – Polícia Civil e Afroreggae – tocam o Papo de Responsa. Uma união antes impensável para eles próprios. “Há alguns anos eu diria que seria impossível estar aqui, ao lado do Chinaider. Hoje tenho uma visão diferente”, revelou Claudia.

“Para nós, da Polícia Civil, a construção do Papo foi complicada. Foi preciso deixar de lado vários preconceitos, nos despir de verdades absolutas que muitas vezes querem nos impor, para tentar construir uma realidade diferente. Nós policiais, os ex-criminosos e os jovens fazemos parte de universos completamente antagônicos. Mas é impressionante como a gente aprende com a diferença. Por isso estamos aqui, para estimular canais de diálogo”, explicou a policial.

O cronograma do Papo não é muito definido, os encontros simplesmente vão sendo agendados. A idéia dos inspetores é incorporar o Papo de Responsa à sua própria corporação. Para isso, eles sabem que terão que enfrentar uma série de preconceitos. Claudia confessou que “alguns colegas da Polícia Civil nem sabem do que se trata o Papo, ou que acham que no Afroreggae só tem pilantra e bandido”. A inspetora acredita no poder de transformação social dos jovens e quer cumprir sua meta, estabelecida quando ela entrou na polícia: deixar como legado para a sociedade uma corporação melhor do que a que ela recebeu.

Comentários

pedido de trabalho

Boa tarde. Primeiro quero parabenizar a todos que fazem parte desse projeto, principlamente aos idealizadores do mesmo. Só quem passou pelo sistema sabe o sofrimento , a questão carcerária é sempre imcompreendida pela maioria da sociedade.
Tenho 52 anos, ensino médio completo, alguns cursos feitos na FAETEC e Obra social da Prefeitura. Mas, tanto pelo fator idade, por haver estado presa, e porque tive sérios problemas de saúde quando deixei a prisão, fiquei esse tempo todo sem trabalhar.
Sempre correndo atrás, mantendo contato com a assistente social no último lugar onde estive encarcerada, mas tem sido difícil.
Já fui excluída na inscrição para alguns trabalhos no ano passado, por causa da documentação, pois eles consultaram meu RG e deram aquela velha desculpa,'qualquer coisa nós ligamos para você".
Não moro em comunidade, nem sou oriunda de nenhuma, mas garanto estar, assim como outras pessoas que moram no "asfalto", em dificuldade financeiras bem mais sérias, com dívidas e etc.

Preciso trabalhar, não quero voltar aquela vida de antes, mas, infelizmente, parece às vezes que são as únicas "empresas" que aceitam uma egressa do sistema.
Gostaria de agradecer a atenção dispensada a essa mensagem e um retorno a mesma.

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