Segurança no Turismo: 'Entender o problema para desenhar a política'

ENTREVISTA / Peter Tarlow

peter_tarlow_edit.jpgEm sua rápida passagem pelo Brasil, Peter Tarlow quase não pôde passear como um turista. Com larga experiência, dono de oratória eloquente e capaz de falar em português ou espanhol – o que for mais conveniente para seu interlocutor -, ele veio ao Rio de Janeiro - que receberá grandes eventos internacionais, entre eles a Copa do Mundo de Futebol, em 2014, e os Jogos Olímpicos de 2016 - discutir os princípios básicos da segurança voltada para o turismo.

“Todo turismo é local e parte de um bom plano de segurança é descobrir qual é o problema em âmbito local, para então conceber uma política de segurança”, disse Tarlow, que é especialista em segurança pública e professor da Universidade do Texas. Segundo ele, é necessário conjugar questões de criminalidade ao problema do terrorismo.

Especialistas da indústria do turismo apostam em uma rentabilidade global de US$ 9 trilhões por ano do setor, mas Tarlow alerta para o fato de que o turismo atrai o terrorismo. “A segurança voltada para o turismo faz parte de um quebra-cabeças. É preciso garantir a segurança, o desenvolvimento econômico e a reputação da cidade. Ter sucesso significa não limitar o foco em somente um desses elementos”, completa.

Peter Tarlow também trabalha com a polícia em um campo conhecido como TOPS (sigla em inglês para Tourism Oriented Policy Skills / Habilidades de Policiamento Orientadas ao Turismo). Ele já supervisionou a segurança de monumentos famosos dos Estados Unidos, como a Estátua da Liberdade e o Empire State Building, ambos em Nova York.

Em entrevista ao Comunidade Segura, Tarlow explica como o terrorismo e o crime disputam interesses em grandes eventos, sobre a necessidade de uma cobertura midiática transparente e sóbria e sobre o risco sempre iminente da instabilidade econômica. Seu recado principal ao Rio é: a informação produz ondas; quanto mais longe se estiver da fonte, maior é o impacto e mais duradouros são seus efeitos. O Rio está geograficamente distante da Europa e dos EUA e o sucesso dos grandes evetnos trará resultados mais duradouros para a reputação da cidade.

Seu trabalho tem sido descrito como pioneiro. Quando ele começou?

A segurança voltada para o turismo é um campo novo, começou nos anos de 1980 e a maioria de meus colegas da universidade achava que eu estava maluco, que eu não teria artigo algum para publicar. Já publiquei centenas deles.

O que é segurança voltada para o turismo? Significa oferecer segurança aos turistas?
 
Na verdade, ela tem seis etapas. É necessário oferecer um ambiente seguro para as pessoas que vêm de fora da comunidade; a segunda etapa é proporcionar segurança para as pessoas que trabalham no setor turístico. Por exemplo: na sua opinião, quem tem uma profissão mais perigosa? Alguém que trabalha em um hotel ou um policial?

Um policial…

Aí é que você se engana. Poucas pessoas planejariam agir de forma violenta contra um policial, mas todos os tipos de crimes acontecem em hotéis. Em terceiro lugar, vem a proteção dos locais.

O senhor já trabalhou na proteção de locais turísticos?

Sim. O fato é que não é preciso atacar um alvo militar para afetar seriamente um governo – especialmente se o local atacado é famoso. Atualmente, trabalho na Hoover Dam [considerada um dos maiores projetos de engenharia dos EUA, a barragem Hoover sustenta a represa de mesmo nome, localizada no Rio Colorado, entre os estados de Nevada e Arizona], um exemplo de área famosa. Mas imagine se houvesse um ataque ao Cristo Redentor ou se alguém explodisse a Estátua da Liberdade. Não seria uma perda militar, mas o impacto emocional seria tão forte que os políticos se desesperariam e alardeariam: “nosso governo vai cair” ou algo do gênero. No mundo do terrorismo, não é necessário um ato terrorista; basta que as pessoas acreditem no potencial de um ato terrorista.

Mas, voltando às etapas da segurança voltada ao turismo, o senhor mencionou que a assertividade é mais importante do que a segurança. O que isso quer dizer?

Quando se trata de segurança voltada para o turismo, não usamos a palavra segurança, usamos assertividade (surety): ela inclui segurança, desenvolvimento econômico e a reputação da cidade (podemos imaginar todos esses elementos convergindo num ponto X, que é a assertividade).

A razão para isso é que uma comunidade pode ser segura, mas se ela tem uma má reputação ou se alguém ataca sua economia, isso pode se tornar um grande problema. Se ela não é segura – e isso inclui, por exemplo, um problema de saúde, ou uma pandemia, ou se há tiroteios nas ruas -, isso também seria um problema. Todos os quatro aspectos precisam se unir para se atingir o objetivo desejado: a assertividade.

E com relação ao desenvolvimento econômico?

A economia não pode ruir. Se algo acontecer antes das Olimpíadas e ninguém aparecer, o Rio teria uma grande prejuízo. Então, é importante que se garanta que a economia seja estável antes, durante e depois do evento.

O senhor também mencionou a reputação...

Sim, e ela tem uma longa repercussão. Em 1992, cinco turistas estrangeiros foram assassinados em Miami, na Flórida. Três eram alemães e dois eram ingleses. Os norte-americanos já se esqueceram disso. Mas até hoje, quando vou a Europa, as pessoas ainda me perguntam se Miami é um lugar seguro.

As mortes causaram estardalhaço na mídia e isso levou a uma reformulação no treinamento da polícia turística de Miami, que custou ao estado da Flórida mais de US$ 1 bilhão. Quanto mais longe se está de um episódio, mais perigoso ele parece ser e por mais tempo ele perdurará na mente das pessoas.

O Rio está relativamente isolado do resto do mundo mas a imagem que quero sugerir é a seguinte: pense em quando você joga uma pedra no mar – as ondas ficam maiores conforme você vai saindo dele. 

A última questão é a ecologia. Isso significa proteger a natureza?

Quando alguém vai ao Havaí, por exemplo, vai não só pela natureza local, mas pela sua cultura. Se o lugar perdesse sua cultura única, cheia de peculiaridades, seria um desastre. O México é outro lugar que vem perdendo bastante seus traços culturais: o sombrero mexicano e a dança mariachi são elementos que devem ser vistos, são um fenômeno cultural que o país não pode perder. Nas Ilhas Galápagos, quantos turistas era possível receber antes dos animais se acostumarem com as pessoas? Tem que se apostar na economia do lugar, versus sua cultura.

O perigo está na exploração, então?

Se um lugar é muito devastado não terá nenhum tipo de turismo. Mas lugares diferentes são vulneráveis de maneiras diferentes. Milhões de pessoas podem ir ao British Museum sem estragar a cidade de Londres – quanto mais, melhor. Mas não se pode pensar da mesma forma para as Ilhas Galápagos.

Parte de um bom plano de segurança é descobrir qual é o problema em âmbito local. Todo o turismo é local. Não se pode despejar lixo na praia de Ipanema, tem que se preservar um ambiente seguro para os frequentadores da praia, por exemplo. É preciso entender qual é o problema para conceber uma política para ele.

Como as questões de criminalidade e terrorismo se cruzam?

É preciso conjugá-las. De vez em quando seus caminhos se cruzam, mas na maioria das vezes não. Quero enfatizar que falo do ponto de vista do turismo, não estou fazendo uma observação política.

Como crime e terrorismo afetam a indústria do turismo?

Um criminoso quer que a indústria do turismo tenha sucesso. Os criminosos precisam que as pessoas circulem. Por exemplo, tenho certeza de que há pessoas já pensando em como vão tirar dinheiro dos turistas durante a Copa do Mundo e as Olimpíadas.

Os terroristas, ao contrário, querem destruir a indústria do turismo. A indústria do turismo é responsável por movimentar US$ 9 trilhões anualmente em todo o mundo. Isso é mais do que o PIB de muitos países. Como chego a este número? Conto companhias aéreas, construções de rodovias, uma ponte para Itaparica [cidade na Bahia] como parte do dinheiro da indústria do turismo ou de setor de construção? Deixo que os moradores decidam como contar isso.

Em relação ao Brasil, quais são as prioridades?

Atualmente, o que me preocupa no Brasil não é uma grande ameaça terrorista. Me preocupo mais com os confrontos da polícia. De 2011 em diante, haverá grandes eventos todos os anos. O terrorismo adora publicidade e vocês receberão a atenção de todo o mundo. Turismo atrai terrorismo e a maioria dos atentados terroristas que acontecem no mundo são contra a indústria do turismo – hotéis, companhias aéreas etc.

Então a maioria das ameaças terroristas viria de fora do país?

É impossível, no mundo de hoje, saber o que significa "de fora". Se olharmos para locais como a França ou a Suécia, há 50 anos, a maioria das pessoas seria de uma nacionalidade ou de outra. Ao se observar o mundo hoje percebe-se as fronteiras geográficas, mas também as fronteiras culturais. Agora ouve-se árabe em Paris e as coisas se tornaram bem mais complicadas.

Isso se aplica também para a América Latina?

Sim, essas questões afetam o Paraguai, por exemplo. Há quatro ou cinco grupos culturais diferentes no país. Não estou dizendo que eles se enfrentarão, mas é possível. Acredito que é preciso ter cuidado pois as fronteiras culturais não coincidem com as fronteiras geográficas.

A mídia desempenha papel importante na segurança voltada para o turismo?

No mundo do jornalismo, o profissionalismo é muito importante. Percebemos isso na cobertura midiática das favelas do Rio. Quando surge uma notícia, basta um instante para que ela percorra o mundo através da Associated Press e atinja grandes veículos, como o The New York Times, ou mesmo os menores, como o jornal da minha cidade. Ouço comentários do tipo: “ah, você estará no Brasil semana que vem... tem certeza de que quer mesmo ir? É realmente seguro?”. Isso se torna um problema real, porque ao mesmo tempo que é preciso retratar os fatos nas notícias, a cobertura se tornou uma forma irresponsável de usar a informação.

O senhor acha que o papel dos jornalistas é proteger a indústria do turismo?

Claro que não, seu trabalho é falar a verdade, sem exageros e com exatidão. Uma manchete informando que a polícia prendeu cinco pessoas, em comparação a outra que relata prisões massivas em um local, às vezes descreve o mesmo fato, mas de uma forma mais direta.

Ao preparar os moradores para um grande evento, seria necessário treinar jornalistas?

Eu nunca pediria a um policial honesto para não fazer seu trabalho. Se é preciso que ele aplique uma multa de trânsito, que aplique. Mas há duas formas de se fazer isso: assediando o motorista ou sendo educado. Logo, não é uma questão do que fazer, mas de como fazer. Todas as ações têm consequências, intencionais e não intencionais. Se uma série de reportagens diz que o Rio é o ponto mais perigoso do mundo, ela poderá minar a economia da cidade. O que digo aos jornalistas é que pensem bem no que fazem.

Como preservar a economia na iminência do risco?

A melhor forma é ter pessoas preparadas no setor, que entendam o que estão fazendo, com muito bom treinamento e reflexão. E não olhar com exclusividade para uma das partes do quebra-cabeças, mas enxergá-las como um todo. Não devemos olhar para uma seção, mas pensar em como todas essas pessoas irão se encaixar e cooperar.

Há muitos exemplos de Olimpíadas que foram fiascos econômicos. Qual é o maior risco?

Montreal foi um fiasco econômico e Atlanta teve problemas – provavelmente gastou-se demais. Mais recentemente, Atenas também foi um grande fiasco econômico. Não houve uma política geral de preços na cidade. Os hotéis cobravam mais de 1.300 euros por um quarto na capital grega. Turistas em potencial logo perceberam que a viagem não valeria a pena. Eles pensaram: “vou ver pela TV”. E, naquela época, o dólar não estava tão fraco quanto está agora, mas os restaurantes cometeram o mesmo erro.

Subir os preços no ano das Olimpíadas acima do que as pessoas são capazes de aceitar, não vale a pena. Assim que os preços são elevados, surgem diversos artigos e notícias sobre como as coisas estão custando caro e isso cria muita publicidade negativa.

Mas em Atenas outros fatores acabaram por contribuir para aquele resultado.

No fim das contas, nos Jogos Olímpicos de Atenas, as pessoas começaram a cancelar suas reservas. Ao mesmo tempo, faltava um esquema de segurança adequado na cidade. As pessoas ficaram com medo. Em um dado momento, os atletas eram colocados em barcos e alguém levantou a questão de que os barcos poderiam ser atacados, o que levou a polícia a pedir a Israel o envio de mergulhadores para proteger as embarcações. Além de tudo, houve uma série de protestos pouco antes dos Jogos.

Este é um cenário de pesadelo…

Sim, mas as pessoas aprendem. Aprendemos o que fazer e o que não fazer. Espero que o Rio seja um sucesso econômico, político e de segurança, que seja usado como um modelo nos próximos anos.

Tradução: Mariana Mello

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