Dakhar: proteger as crianças para reduzir a violência

ChangeMaker_Kamramgirchar.jpgO primeiro passo para melhorar a segurança é cuidar das crianças e jovens de uma comunidade. A opinião é de Syed Tamjidur Rahman, diretor da organização civil Change Maker, que aplica esta filosofia em diversos locais onde está presente no mundo.

Rahman levou um projeto de proteção e segurança para Kamrangirchar, uma comunidade densamente povoada e de baixa renda em Dakhar, onde vivem cerca de um milhão de famílias de trabalhadores, a maior parte deles emigrantes das áreas rurais de Bangladesh.

Kamrangirchar, formada principalmente por moradias de favela, não tem acesso a serviços básicos, como água e esgoto, serviço médico, policiamento ou escolas, e é marcada por  completa falta de segurança.

Segundo Rahman, os moradores são atraídos para a capital por motivo financeiro, mas são trabalhadores sem qualificação alguma que encontram dificuldades para conseguir emprego. Ele conta que custo de vida na cidade é três ou quatro vezes mais alto do que no interior, o que os torna presa fácil para criminosos e o sequestro de crianças é um grave problema na localidade. O projeto ChangeMakers levou em conta essas circunstâncias ao planejar a maneira de abordar os moradores.

ChangeMaker_Tamjid.jpg"A criminalidade criou um ambiente extremamente sensível pressionado pela presença do crime organizado, e nós procuramos um ponto de contato mais neutro. Nós queríamos começar demonstrando os méritos do projeto para os moradores e ganhar a confiança deles. Como o tráfico de crianças, sequestros e abuso sexual são muito comuns, a comunidade sugeriu que começássemos a atuar a partir de cuidados para com as crianças. Depois de um ano, começamos a trabalhar no monitoramento do crime e questões de segurança", contou Rahman (foto).

O ChangeMaker tem três projetos em curso em Kamrangirchar. O primeiro é o Centro de Segurança para Crianças, uma creche diurna que permite aos pais trabalharem o dia todo, deixando lá as crianças com idades entre três e oito anos. As crianças ficam na creche das oito da manhã às seis da tarde e recebem alimentação básica e ocupações.

ChangeMaker_child-center.jpg“Esse centro foi planejado para acolher somente 15 crianças, devido à infraestrutura limitada, mas depois alugamos um lugar maior e agora estendemos os cuidados a 50 crianças, beneficiando o mesmo número de famílias, sendo que já há 75 crianças na lista de espera", comemora.

Tamjid conta que um comitê de membros da comunidade os ajudou a resolver problemas de administração, tal como pagamentos, critérios para admitir crianças, alimentação, saúde, material educacional e para recreação. "Foi assim que determinamos um preço de 10 takas por dia por criança, que as famílias aceitaram com satisfação. O projeto oferece espaço, alimentação, educação, cuidados com saúde e divertimento”, explica Rahman.

As crianças ganham café da manhã, almoço, lanche e um abrigo seguro. Têm atividades educacionais e uma visita semanal de um médico, tempo para brincar, desenhar e cantar. O projeto também permite às crianças assistirem ao cartoon Meena, produzido pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que discute a desigualdade entre os gêneros e outras questões que afetam as crianças em Bangladesh.

Segundo o Unicef, Meena (abaixo) representa as meninas pequenas de Bangladesh, Índia, Paquistão e Nepal, ao abordar questões presentes naquela região, tais como educação, casamento precoce, alimentação precária e excesso de trabalho, mas ao mesmo tempo contando histórias divertidas. Segundo o ChangeMaker, graças ao fato de as crianças estarem sendo cuidadas, as familias podem trabalhar mais e, com isso, duplicaram os seus ganhos.

ChangeMaker_meena.jpgOs custos são mantidos  baixos  porque as famílias as crianças  dispõem de poucos meios. As mulheres trabalham como empregadas domésticas, operárias de oficinas de roupas, puxando carretas ou diaristas. Segundo Rahman, além do desafio de manter esse tipo de centro em bases comerciais, faltam funcionários capacitados. "Mas as famílias estão querendo aprender a administrar um local onde as crianças possam ser cuidadas, de modo que o nosso objetivo atual é mobilizar recursos locais, em dinheiro, mercadorias e tempo, e fazer contatos com empresas privadas", disse.

Tecnologia a serviço da inclusão

Uma segunda iniciativa do ChangeMaker na comunidade é destinada a fazer um centro de treinamento em tecnologia da informação para jovens, onde eles são qualificados para o mercado de trabalho, aprendem a fazer uso de computadores e a montar seus currículos, permitindo à comunidade acesso ao computador.

"O ICT é administrado por jovens que foram treinados para operar e administrar o centro. Os jovens ensinam e ajudam os outros quase sem assistência de nossa parte", disse Rahman. Segundo o diretor, 25 jovens trabalham no centro em plantões distribuídos pela manhã, tarde e noite, de forma que, ao mesmo tempo que recebem treinamento, prestam serviços à comunidade dentro da filosofia do ChangeMaker.

"Nós encontramos emprego para 50 jovens fazendo contatos com o setor privado. Muitos jovens se beneficiam do centro de maneira indireta, vindo ver os nossos quadros de empregos ou recebendo ajuda na elaboração dos currículos. Pelas nossas contas, cerca de cem jovens encontraram trabalho a partir de alguma visita ao centro", disse Rahman.

Um terceiro projeto envolve a segurança da comunidade. Jovens foram treinados em desenvolvimento da comunidade e habilidades de sobrevivência, e denunciam crimes e ligações com a polícia. Rapazes e moças ajudam a monitorar a criminalidade e organizam bases de dados para compartilhar informações com as forças da lei.

"O objetivo principal do projeto é fazer com que os jovens se sintam responsáveis pela comunidade. Dar informação sobre crimes faz com que eles não somente registrem incidentes, mas também os ajuda a compreender a extensão dos danos causados por vários tipos de crimes na comunidade e como eles afetam os jovens, e também a encontrar a melhor maneira de se manter afastados do crime e da violência, diz Rahman.

ChangeMakercommunitySafety.jpgOs jovens fazem levantamentos perguntando aos moradores sobre tipos de crimes. Com isso, foram identificados 18 tipos de infrações. "Os moradoras de Kamrangirshar geralmente evitam ir à delegacia relatar crimes. Eles não se consideram devidamente atendidos pela polícia, e muitas vezes se queixam de que a policia, em vez de ajudá-los a resolver problemas, cria mais problemas ainda, tal como extorsão", afirma Rahman.

Os jovens apresentam os relatos de crimes da quinzena para partes interessadas da localidade de forma que a polícia e outras autoridades locais podem agir de maneira apropriada e colocar o foco nas questões que são mais importantes para a comunidade.

"O centro oferece oportunidades de emprego e uma variedade de serviços como ensinar como denunciar um crime, de que modo ter acesso à Justiça e a organizações que prestam serviços nessa área, como contactar um advogado, os custos das taxas legais, e como ter acesso aos diversos serviços públicos, como educação, saúde, comida subsidiada, bolsas, etc. Nós os ajudamos a compreender como fazer os requerimentos, conhecer os critérios de elegibilidade para os serviços e lhes damos outras formas de orientação para a cidadania", explica Rahman.

Fotos: Divulgação

Tradução: Marina Lemle

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