Da reportagem de polícia à cobertura da segurança pública

Na década de 80, o repórter de polícia era "assim com os hômi". O policial dava com o pé na porta das casas e ele entrava junto. Participava de interrogatórios, inclusive com violência. Havia até repórter que andava com arma escondida no tornozelo. Os direitos humanos e civis passavam longe da reportagem de polícia.

De lá para cá, a cobertura melhorou, mas ainda pode melhorar muito. Isso foi consenso entre jornalistas, gestores e pesquisadores no Seminário Temático Mídia e Segurança Pública, realizado em Brasília em 27 de maio. Promovido pelo Ministério da Justiça, o Instituto São Paulo contra a Violência, o Viva Rio e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), o evento é preparatório para a 1ª Conferência Nacional de Segurança Pública (Conseg), em agosto.

Ministro Tarso GenroO ministro da Justiça, Tarso Genro (foto), observou que os jornais têm caderno policial, mas não um espaço de reflexão sobre segurança e violência. “Exemplos de barbárie devem integrar um novo juízo sobre a questão da violência”, disse o ministro, que defendeu um “pacto civilizatório para novos tipos de intercâmbio informativo e de produção da mensagem.”

A Coordenadora Nacional da 1ª Conseg, Regina Miki, destacou o papel da mídia no estado democrático de direito. “A população deve encarar a segurança como um direito fundamental e a mídia apóia nisso. Não estamos partindo do zero, mas de boas práticas”, afirmou. Regina disse que o sensacionalismo pode trazer insegurança e defendeu a criação de cursos de capacitação para jornalistas “atuarem na segurança para o bem”.

Denúncia e anúncio

O secretário nacional de Segurança Pública, Ricardo Balestreri, lembrou que no mundo contemporâneo a mídia é fundamental nos processos educativos que transformam as realidades sociais. Ele refletiu sobre as dimensões de denúncia e de anúncio da comunicação.

“A denúncia às vezes incomoda aos gestores públicos, mas eles precisam prezar a denúncia para construir um futuro melhor. A denúncia é fundamental para democracia. Mas na condição pedagógica do jornalista há também o anúncio. Ele convive com a denúncia e equilibra o processo, porque oferece alternativas. É preciso fazer caber no jornal o anúncio, além da denúncia, e propiciar espaços de discussão”, argumentou.

Mesa do seminário Mídia e Segurança em Brasília

Balestreri acrescentou que a denúncia tem a boa intenção de fazer a sociedade reagir, mas acaba resultando em afastamento, porque as pessoas sentem que não há o que fazer. “Uma resposta simples, mesmo que bem intencionada, a um fenômeno complexo, cai na demagogia. Precisamos de uma visão crítica, mas também sistêmica. A mídia precisa avançar para além dos clichês do senso comum, com análises mais didáticas do fenômeno da violência”, completou.

Jornais à esquerda dos leitores

Fernando MolicaPara o jornalista Fernando Molica (foto), diretor da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), a mídia tem influência sobre o público, mas não tem um poder absoluto. “A indignação da população torna o diálogo tenso e mostra que não dominamos a opinião pública. Os jornais estão à esquerda dos seus leitores”, afirmou.

Molica acha que houve uma boa melhora nessa área do jornalismo nas últimas décadas, mas crê que ainda se possa melhorar muito. “A espetacularização contamina o jornalista, a polícia e o gestor. Devemos sair da reportagem de polícia para a cobertura de segurança pública”.

Angelina Nunes (foto abaixo), editora-assistente da editoria Rio do jornal O Globo, lembrou que quando Tim Lopes foi morto, os jornalistas pararam para refletir como estavam trabalhando na rua. Ela disse que a Abraji, entidade que preside, foi criada com o intuito de incentivar melhores técnicas de reportagem.

Angelina Nunes“Houve investimento no capital humano e na qualificação do repórter. A formação nos anos 80 era de polícia e hoje é em segurança pública”, afirmou.

A jornalista defendeu a reflexão sobre a postura ética no trabalho:

“Repórteres às vezes atropelam a ética. Não é ético andar no caveirão ou se vestir de policial. Na apresentação de um preso, se o repórter deixa o policial puxar o cabelo do preso para mostrar seu rosto, está compactuando. Se prendem garotos, devem ser descritos como ‘suspeitos de tráfico, segundo a polícia’, e não como ‘traficantes’”.

Segundo Angelina, para chegar a pautas diferenciadas e fazer um jornalismo de profundidade é preciso diversificar as fontes, não ter medo de números e estatíticas e cruzar dados.

Excesso de intimidade

Ricardo StefanelliEntre os problemas da cobertura de polícia citados por Ricardo Stefanelli (foto), diretor de redação do jornal Zero Hora, estão as amizades entre jornalistas e autoridades policiais, a intimidade excessiva e a truculência.

“O deboche não engrandecia o jornalismo popular. Jornal popular não precisa mais sangrar. O jornalista não compactua mais com a polícia e com o mau policial. A presença do repórter dá esperança de apuração”, disse Stefanelli, representante da Associação Nacional de Jornais (ANJ) no evento.

De acordo com o jornalista, os processos judiciais levaram à qualificação do trabalho de repórteres e editores, mas o amadurecimento deve ser constante. “Ainda há mais entrevista do que investigação no jornalismo”, observou. Outro passo, segundo Stefanelli, é aprender a lidar com o público, que agora se manifesta pela internet.

Fenômeno social

Silvia RamosNa opinião da pesquisadora Sílvia Ramos (foto), do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes, no Rio, a cobertura jornalística deveria discutir mais a violência como fenômeno que atinge muito mais os pobres, jovens e negros. Ela mostrou gráficos e estatísticas que apontam o Brasil como o sexto país do mundo em número de homicídios e o quinto em homicídios de jovens e mostrou no mapa do estado do Rio de Janeiro que as mortes se concentram em bairros pobres da periferia.

“O homicídio de jovens entre 15 e 24 anos é sempre de cerca de o dobro da média. Aos 24 anos, a taxa de homicídios é de 400 para 100 mil habitantes. As mortes começam a subir a partir dos 12 anos. A taxa de homicídios de jovens negros é três vezes maior. Na mesma cidade, há taxas muito diferentes. A zona sul tem taxas de primeiro mundo. Esse é o fenômeno que a gente tem que responder, e como Brasil, estamos respondendo pouco. Tem que se falar sobre isso obsessivamente”, enfatizou.

Para Sílvia, só os meios de comunicação podem transformar o caso da menina Kelly, baleada na Vila Aliança, no caso do João Roberto, de classe média, na Tijuca.

A jornalista Tereza Cruvinel, presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), concorda que há um viés de classe nas notícias. “Os meios devem refletir sobre os pesos que dão aos fatos dependendo de onde e com quem acontecem”, recomendou.

De acordo a jornalista, os meios de comunicação não apenas apresentam os fatos mas constroem representações, algumas muito nocivas, como a generalização de que todo policial é corrupto. Para ela, é preciso combater a banalização e a espetacularização, investir em editorias de segurança e na formação de jornalistas.

A jornalista Suzana Varjão apresentou a sua pesquisa sobre a violência na mídia baiana, que resultou no livro Micropoderes, macroviolências - Mídia impressa, aparato policial. O estudo compara o tratamento dado por três jornais aos fatos violentos na Bahia. Ela mostrou que às vítimas pobres são dedicadas atenções mínimas.

O impacto da morte violenta de uma colega de trabalho levou Suzana a decidir fazer algo mais contra a violência. Fundadora do Movimento Estado da Paz, que articula comunicadores em torno de debates sobre mídia e violência, ela integra também o grupo gestor do Fórum Comunitário de Combate à Violência e é membro da rede da Fundação Avina.

Professor da Escola de Comunicação da UFRJ, Maurício Lissovsky observou que "as autoridades reclamam da imprensa e vice versa e a academia reclama do dois". Ele disse que a mídia é que faz o modelo da segurança, pois os governos determinam suas ações em função da repercussão na mídia.

Qualificação

Aziz FilhoAziz Filho (foto), gerente executivo de jornalismo da TV Brasil, sugeriu a criação de Comissões de Segurança nas redações para se discutir como abordar a questão e também a segurança dos próprios repórteres. Ele sugeriu à Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) a criação de um programa conjunto para abrir espaços de reflexão sobre a cobertura da segurança pública e treinar jornalistas sobre como agir em caso de perigo de vida.

Angelina Nunes defendeu uma melhor divulgação dos dados sobre criminalidade. “Precisamos de uma lei de informação pública para jornalistas terem acesso a dados. Divulgá-los não é um favor, é um dever”, enfatizou.

O representante do Viva Rio, Tião Santos, encerrou o seminário listando os consensos sobre a importância da formação dos jornalistas, da produção e difusão de dados para que as reportagens tenham base mais científica e da promoção de novos debates e fóruns, visando o que chamou de “comunicação restaurativa”, isto é, que considere os vários atores envolvidos na segurança pública.

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