Para reinserção de crianças-soldado, cultura

Por Mélanie Montinard

crianca-soldado_menino.jpgDesde 2003, muitas crianças e jovens do Haiti têm se envolvido voluntariamente e, em muitas vezes, de forma direta em confrontos armados. As crianças soldado – como são identificados pela comunidade e também entre eles próprios – desempenham papeis diversos, que variam de acordo com sua idade, gênero ou até mesmo com sua capacidade de atuação. Elas podem servir de “antena”, para transmissão de informações, ou para transportar armas e drogas. Mas podem também – e sobretudo – criar um conflito.

A ideia de um projeto de reinserção destas crianças vítimas de violência nasceu da concretização do projeto Tanbou Lapè, que, em maio de 2007, promoveu a assinatura do primeiro acordo de paz entre líderes comunitários das bases (gangues) rivais de Bel Air, bairro da capital Porto Príncipe, e zona de intervenção do Viva Rio.

Em março de 2008, a ONG brasileira, que já atuava no Haiti desde 2006 nas áreas de segurança e desenvolvimento, implantou o projeto de reinserção realizando, inicialmente, fichas de identificação das crianças. Esta primeira parte do trabalho já mostrou que muitos desses jovens haviam estado ou ainda estavam no centro dos conflitos.

Um dos adolescentes, por exemplo, disse que desejava se tornar policial porque já sabia manusear uma arma. As próprias comunidades nas quais estas crianças vivem acreditam que, apesar do projeto, elas não mudarão: serão sempre atores de conflitos, no que diz respeito à posição destes jovens em relação às bases.

Alguns deles estão ou já estiveram na prisão. Trata-se de crianças abandonadas que chegam à zona de violência devido a eventos políticos, catástrofes naturais, situação econômica familiar ou, ainda, pela ausência de uma família ou morte dos pais. Essas crianças acabam sendo “adotadas” pela base.

crianca_soldado_lixo.jpgDe acordo com Robert Montinard, coordenador de programas de segurança comunitária do Viva Rio no Haiti, e que participou do programa de Desarmamento, Desmobilização e Reinserção (DDR 2) em Cité Soleil, Bel Air e Martissant, não há gangues no Haiti. “A abordagem que o Viva Rio desenvolve em Bel Air é, antes de tudo, cultural”, explica.

“Vários projetos como o Depote, Capoeira e Dança permitem aos jovens se exprressar, encontrar sua verdadeira identidade, mas, acima de tudo, reencontrar sua autoestima, (re)aprendendo as regras da vida em sociedade”.

Para ele, os jovens gângsteres do Haiti do passado se tornaram cidadãos reinseridos, que têm um emprego, dignos, verdadeiros “soldados do desenvolvimento”. “Este trabalho de reintegração social e profissional é feito caso por caso, para que seja garantido seu sucesso, pois isso tem um preço e custa caro. Isso exige do soldado reencontrar um ambiente estável e de confiança em sua comunidade, sua família, com as outras bases do bairro, mas também com a polícia (se possível, com a justiça) e as autoridades morais, como a Igreja. Isso exige, sobretudo, que ele rencontre sua identidade pessoal e rompa com a violência”, ele acrescenta.

No dia 1º de março de 2008, 36 crianças foram identificadas pelo projeto como crianças soldado. Elas puderam aproveitar um processo de reinserção real: atividades de sensibilização e de identificação (atividades psicossociais), escola e/ou formação profissional, apoio alimentar e médico, período de pré-reinserção, lazer. Em 2010, 20 delas provaram que uma reinserção duradoura e real é possível.

Junior, de 17 anos, fez dois meses de estágio com um engenheiro civil em 2008. Ele foi morar no campo, em Baradères, por iniciativa própria, para continuar a escola. Hoje, ele trabalha como office boy em uma empresa.

crianca-soldado_jovem.jpgBoniface é, certamente, o maior orgulho do projeto de reinserção. Se antes, ele estava envolvido em quase todos os atos de violência em Bel Air, hoje ele reencontrou sua mãe e vive com ela em Ester, departamento de Artibonite. Boniface não é mais Boniface – ele retomou sua verdadeira identidade. Ele se chama Jean Israël e é uma criança que vai à escola, adora brincar com seus amigos e com sua bicicleta nas montanhas de seu país de origem.

Outro exemplo do qual o projeto se orgulha é Daniela, de sete anos, que foi envolvida em uma rede de transporte de armas, informações e de drogas, e que hoje, não podendo voltar para sua família biológica, mora no campo com uma família que a acolheu e voltou para a escola onde é premiada todos os anos.

Mas há também algumas decepções e falhas. Algumas crianças soldado assim permanecem: continuam sendo definitivamente “soldados”, envolvidas em casos de violência como brigas ou sequestros.

Em outubro, o projeto foi renovado com 32 novas crianças. Os beneficiários desta nova edição do projeto são mais jovens e estão envolvidos em casos de roubo e prostituição. A força de um projeto como este está na reinserção das crianças em suas respectivas famílias e tem um enorme desafio pela frente: retirar definitivamente a criança do ambiente do gueto, mantê-la longe de influências políticas. Retirar dela a arma que está dentro de sua mente.

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