Capoeira estimula diálogo entre jovens do Haiti

flavio_saudade.JPGQuando chegou ao Haiti, há cinco meses, para implantar o projeto Gingando pela Paz no país, o contramestre de capoeira Saudade - cujo nome de nascimento é Flávio Soares - tinha dificuldade de dialogar com as crianças que seriam suas alunas. Elas não o olhavam nos olhos e brigavam por qualquer coisa. Hoje, capoeiristas, não se comportam assim.

"A percepção que tenho é de uma mudança muito grande de comportamento. Vemos menos discussões, sentimos que as crianças estão sendo mais amigas umas das outras, mais companheiras. Elas cuidam mais do seu espaço e fortaleceram a noção de grupo e de família", diz Saudade.

O professor conta que as crianças no Haiti são muito violentadas e têm uma carência muito grande. Além disso, por terem sido muito podadas desde pequenas, não sabem dialogar.

"Na escola, pelo que ouvimos falar, ainda se usam mecanismos de educação muito rígidos, como chicotes. Então a criança não consegue externar as suas emoções e, logo, não consegue trabalhá-las. Utilizamos a capoeira para que as crianças possam entrar em contato com as suas emoções e dominá-las. A agressividade é uma constante no ser humano. É preciso canalizá-la de uma forma positiva. É o que a gente faz no projeto", explica.

De acordo com Saudade, a abordagem pedagógica é o diferencial do trabalho. Os educadores utilizam a capoeira como ferramenta para estimular o desenvolvimento social e humano das crianças e jovens, para que possam descobrir seus potenciais e vencer suas limitações. Com a absorção de novos valores e do seu próprio reconhecimento como pessoa, eles se preparam para ser protagonistas de sua própria história.

"Na roda de capoeira a pessoa joga com outra, mas na verdade está lidando é consigo mesma – seus impulsos, limitações, medos, inseguranças. O aluno passa a se perceber como indivíduo e enxergar que há várias caminhos para se realizar como ser humano", ensina.

capoeira_haiti1.JPGSaudade acrescenta que a capoeira ensina que não se deve olhar só para a frente e nem desistir ao primeiro obstáculo que apareça. "Basta dar uma gingada para mudar o ponto de vista e visualizar outras frentes, com um universo de alternativas. Um garoto cujo único sonho é ser um jogador de futebol famoso tem grandes chances de acabar frustrado", observa.

O projeto começou com 15 alunos, a maioria crianças em situação de rua, órfãos e que faziam parte de grupos de rua atendidas pelo projeto social conduzido pelo Viva Rio no Haiti, que oferece escola e atendimento médico aos menores. Hoje, graças ao boca-a-boca das próprias crianças, o Gingando pela Paz já atende a 70 crianças e jovens de ambos os sexos, e mais 30 já estão inscritos para a nova turma.

No início, para lidar com as crianças, Saudade teve o apoio de um tradutor que aprendeu português com o Exército brasileiro. Agora já se vira em créole e em francês, e as crianças também já falam um pouquinho de português. "A capoeira é a maior embaixatriz da língua portuguesa no mundo, até mais do que a música, porque a relação com a capoeira é necessariamente de vivência", filosofa.

No Haiti, Saudade já teve a ajuda de outros capoeiristas, inclusive mulheres. No momento, ele conta com a ajuda de um instrutor e um monitor. Mas o objetivo é ampliar os quadros para que o projeto possa ter turmas também no norte e no sul do país.

Para o contramestre, a presença da figura do educador é fundamental porque no Haiti muitas crianças ficam o dia todo na rua e acabam se pendurando nas gangues juvenis, em busca de uma forma de afirmação. Nesse contexto, os educadores de capoeira passam a ser um referencial de homem e de pai - que muitas vezes não está presente.

"A capoeira oferece a família, a figura masculina essencial e a afirmação, porque a criança passa a ser um capoeirista, e isso tem um significado muito importante, porque ela passa a ser alguma coisa, a se identificar e se sentir parte daquilo", diz.

Ele destaca ainda o papel da mulher capoeirista no projeto. "A figura feminina é importantíssima porque dentro de uma cultura machista uma mulher com voz ativa e participação inspira uma ruptura de valores e faz com que tenham uma outra visão da mulher", sugere. 

Qualificação de educadores

capoeira_haiti.JPGA qualificação de educadores brasileiros é outro objetivo importante do projeto. Eles ganham experiência e estatus profissional após um período no exterior. Saudade dá como exemplo o pernambucano Ligeirinho, que depois de trabalhar no projeto no Haiti vai voltar ao Recife para replicar a metodologia em projetos sociais.

"Queremos levar um contingente de capoeiristas para intercâmbios. Quem vai a trabalho para o exterior e volta tem a sua imagem fortalecida em sua comunidade e passa a ser uma referência", afirma Saudade.

Ele próprio é um caso de sucesso da aliança entre a capoeira e projetos sociais. Nativo do município de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, aos 21 anos estava em situação de risco, sem o ensino fundamental e portanto sem conseguir emprego. Foi quando participou como capoeirista do concurso Jovens no Zimbábue, representando o Viva Rio e o Conselho Mundial de Igrejas. Saudade passou a trabalhar como voluntário do Viva Rio, fez um intercâmbio na Alemanha pelo programa Luta Pela Paz e participou de encontros internacionais na África, na Espanha e na Irlanda do Norte.

Em 2003, criou o projeto Gingando pela Paz, que teve participação importante na campanha pelo desarmamento. "Conseguimos o apoio de 53 mestres e reunimos mais de 700 pessoas na Caminhada Gingando pela Paz" conta. "A capoeira também é uma grande ferramenta para a mobilização e a conscientização popular."

Fotos: arquivo pessoal

Em outros sites:

Gingando pela Paz no Haiti – Blog do contramestre Saudade com vídeos, fotos e textos.

Comentários

Salve a capoeira!

Que bom ver a capoeira dando a volta ao mundo e mostrando que toda transformação fica ainda mais bonita se tem ginga e companheirismo.

Salve o contramestre Saudade!

ASSOCIAÇÃO DE CAPOEIRA BRASIL-ÁFRICA- (BRASIL-RJ)

esse trabalho do saudade é maravilhoso, eu tive o prazer de conhecer de perto quando estive no haiti. Só falta o saudade falar de sua associação de capoeira, que é a brasil-áfrica na qual ele ainda participa até hoje, e levando os ensinamentos do seu mestre (MARCOS WAGNER) até à outros países inclusive no HAITI. SAUDADE! vamos divulgar a sua associação!!!

NÃO ESQUEÇA!!! ASSOCIAÇÃO DE CAPOEIRA BRASIL-ÁFRICA

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