Alternativas para a violência no Burundi

Colaborou Danielle Renwick

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Sociedades que sofreram o impacto da violência armada geralmente têm dificuldade pra encontrar o caminho do desenvolvimento. De acordo com as Nações Unidas, dos 34 países que estão mais longe de alcançar os Objetivos do Milênio, 22 deles estão saindo de conflitos armados. Isso mostra que a violência armada é tanto causa como consequência do subdesenvolvimento.

Isso é especialmente verdade no Burundi, um dos países mais pobres do mundo. Sua população de oito milhões e meio de pessoas atravessou 12 anos de guerra civil, que dizimou 300 mil vidas, e ostenta uma atual expectativa de vida de 51 anos para homens e 54 para as mulheres.

Várias organizações estão presentes atualmente no Burundi, com o intuito de realizar trabalhos de construção de paz e prevenção à violência, abordando diversos campos a partir de vários ângulos: reconciliação, criação de oportunidades de emprego, melhoria das condições de vida das mulheres, controle de armas e desmobilização de líderes de guerra.

Essas organizações trabalham para reduzir os fatores de risco que geram a violência armada, tais como instituições públicas enfraquecidas, desigualdade sistêmica, a permanente exclusão de minorias, relações de gênero desiguais, falta de um sistema de educação, alta taxa de desemprego e mercados ilícitos de armas.

Cura pela reconciliação

Burundi, Ruanda e a República Democrática do Congo. Nestes três países, o forte legado de violência está sendo tratado pela organização Serviços de Reconciliação, Trauma e Cura (THARS, da sigla em inglês). Ao longo dos últimos dez anos, a THARS ajudou a população das regiões onde atua na tarefa de tornar a paz possível – fortalecendo as tradições da vida em comunidade e tentando curar o trauma psicossocial. De acordo com Jean Marie Nibizi, diretor-executivo da THARS, organizar grupos de apoio às vítimas é uma ferramenta importante na redução da violência armada. “Ajudamos mulheres e crianças vítimas de violência armada e doméstica. Também tentamos chegar aos ex-rebeldes, aos combatentes desmobilizados e aos criminosos”, diz Nibizi.

A THARS realiza oficinas e campanhas para promover paz, reconciliação, recuperação de traumas, assim como tenta aumentar a conscientização para o problema das armas de fogo. “A THARS criou salas de escuta para vítimas e para os criminosos e grupos de apoio mútuo”, explica Nibizi.

No programa de apoio mútuo às vítimas de violência, elas são capacitadas em gestão de grupos, desenvolvimento e dinâmicas de grupo. "Os grupos também têm acesso a programas de empréstimos e de poupanças para pequenas associações, através dos quais poupam semanalmente para poderem pegar novos empréstimos em grupo. É uma forma de eles começarem a gerar sua própria renda”, afirma Nibizi.

A THARS já atendeu mais de 200 mil pessoas por meio de campanhas locais e já treinou mais de cem líderes comunitários para replicar o programa. Já foram promovidos 20 oficinas e formados dez grupos de apoio mútuo.

A permanência das armas, porém, preocupa Nibizi, que alerta para os desafios criados pelas armas adquiridas ilegalmente e para o fato de que combatentes desmobilizados ainda estão armados e propensos a cometer crimes. “É um país pobre e as pessoas têm medo daquilo que entendem como crescente insegurança e criminalidade”, afirma. “É por isso que nosso trabalho se concentra na sensibilização, educação, desarmamento voluntário e geração de apoio mútuo entre vítimas e criminosos”, explica Nibizi.

Meu inimigo, agora meu melhor amigo

Às vezes, eventos que acontecem localmente mostram os efeitos duradouros da reconciliação. Para Jean Marie Nibizi, um caso específico ilustrou bem a necessidade urgente de atuação em uma comunidade. Ele aconteceu após a THARS promover um seminário de três dias em Tubirengere, na região dos Grandes Lagos, sobre trauma, resolução de conflitos, direitos humanos e os danos que as armas leves trazem às famílias e à comunidade.

“Dois irmãos compareceram aos nossos workshops. Ambos tinham sido membros de grupos armados diferentes. Na época, tinham tentado se matar. Após as oficinas, cada um deles se aproximou dos mediadores da THARS em segredo, perguntando como poderiam perdoar e pedir o perdão um do outro. Após terem sido orientados em ambos os aspectos de reconciliação, eles pediram perdão um ao outro e anunciaram que haviam decidido entregar suas armas para a polícia. A comunidade inteira comemorou”, conta.

Criando uma cultura de paz

BURUNDI_MIPAREC_DEntro.jpgO Ministério da Paz e da Reconciliação (MI-PAREC), organização sem fins lucrativos fundada em 1996, está trabalhando também na recuperação do Burundi. O programa de Desmobilização, Desarmamento e Reintegração (DDR) desenvolvido pela organização busca ajudar a reconstruir o país por meio de uma série de programas que se concentram na coleta de armas, treinamento vocacional e aconselhamento pós-trauma.

Um dos focos do DDR é na melhoria da infraestrutura da comunidade - que foi bastante destruída durante a guerra civil - e das formas de sustento da população. Essa atuação envolve a construção de escolas, centros de saúde, infraestrutura de transportes, alfabetização financeira e orientação vocacional.

A organização trabalha também na prevenção de conflitos futuros. A MI-PAREC treina comunidades em gestão de conflitos e reúne grupos de jovens com históricos de vida distintos para garantir que a próxima geração viverá em paz. Aproximadamente seis mil jovens com idades entre 15 e 18 anos já participaram das oficinas de discussão dos direitos da criança e do adolescente e outras questões políticas.

“Criamos uma plataforma permanente para que crianças e jovens encontrem outras pessoas de sua idade e também adultos e através da qual possam discutir questões que afetam suas vidas diárias”, diz Dieudonne Kibinananwai, representante da MI-PAREC no Burundi. “Agora, as crianças sentem que podem mudar suas condições de vida trabalhando em conjunto, através da atuação em equipe”.

Incentivando participação popular no processo político

O legado da guerra civil no Burundi é representado não só pela violência mas pela grande quantidade de armas ilegais em circulação. O Centro de Alerta e de Prevenção de Conflitos (Cenap), criado em 2001, vem trabalhando pela consolidação da paz e pela redução da violência armada no país, através de campanhas de desarmamento com foco nas comunidades. A instituição faz a ponte entre o governo nacional e os movimentos populares, recomendando políticas que atendam aos anseios, necessidades e preocupações dos cidadãos.

Uma das formas de atuação da Cenap é pela melhoria das relações entre cidadãos e policiais. A organização forma grupos comunitários que servem como comitês de “vigilância do bairro” e que travam um diálogo permanente e mantêm contato com os policiais que trabalham naquela região. “A população é incentivada a trabalhar de mãos dadas com a polícia e o governo na prevenção da criminalidade e dos bandidos”, diz Serge Ntakirutimana, um pesquisador da organização.

O Cenap trabalhou com o governo na campanha nacional de desarmamento, que, entre 2006 e 2009, recolheu mais de 80 mil armas pequenas e leves. A organização também estabeleceu parceria com outros organismos internacionais, como a Interpeace, baseada na Suíça; o Instituto de Pesquisa e Diálogo para a Paz, em Ruanda; e Centro de Desenvolvimento de Pesquisa Puntland, na Somália; para produzir pesquisas que destacam as boas práticas em desarmamento.

Além do trabalho com organizações internacionais, grande parte da pesquisa do Cenap é feita junto aos movimentos populares. Recentemente, pesquisadores do Cenap filmaram entrevistas com membros de comunidades, policiais e ex-combatentes sobre suas experiências. Eles produziram um vídeo e um relatório sobre as descobertas, que será apresentado em caráter nacional. Um participante de um grupo de pesquisa do Cenap explicou a importância de envolver as comunidades no processo nacional de construção de paz: “Não se pode começar lavrando o topo da montanha”, ele afirmou.

Vamos ajudar uns aos outros

Eric-Niragira-biggerDentroV_0.jpgQuando um combatente decide entregar suas armas, ele abre um precedente que pode influenciar milhares de pessoas. Foi o que Eric Niragira (esq.) fez no Burundi. Quando ele abriu o Centro de Treinamento para o Desenvolvimento de Ex-Combatentes (Cedac) [foto do topo], em 2005, ele ajudou 25 mil outros ex-combatentes a deixarem o conflito armado e a optarem para a paz. Na opinião de Niragira, eles vão aproveitar a energia que já foi usada para destruir o país para agora reconstrui-lo.

Desde então, “o Cedac cresceu até se tornar a maior organização guarda-chuva de ex-combatentes em todo o Burundi, com grupos de apoio mútuo para ex-combatentes e vítimas da guerra, micro-projetos (alguns financiados por doadores, outros por projetos autosuficientes ou de apoio mútuo), incluindo um centro de treinamento para jovens em Bujumbura”, conta Laura Gordon, pesquisadora britânica do projeto de advocacy no Burundi.

Entre suas muitas atividades. o Cedac promove campanhas para a entrega voluntária de armas e munições, fornece treinamento em prevenção e gestão de conflitos e monitora as atividades de ex-combatentes. Seu trabalho com ex-combatentes do sexo feminino focaliza um grupo que é comumente ignorado por iniciativas similares. As mulheres participam dos conflitos desempenhando vários papéis, desde o envolvimento direto com armas militares até serem forçadas a serem cozinheiras ou escravas de sexo.

Geralmente elas são excluídas dos programas de DDR porque não detêm uma arma militar para ser entregue, ou porque estão envolvidas com grupos rebeldes. Ter filhos, ser analfabeta ou ser rejeitada pela própria comunidade por envolvimento sexual anterior com membros de grupos rebeldes – tudo conspira contra elas. “Se elas escolhem lutar ou são forçadas a fazer isso, ou se não lutam diretamente, as mulheres envolvidas em conflitos sempre têm mais dificuldades de se adaptar à paz”, de acordo com Niragira. O projeto Dushigikirane (que significa “vamos apoiar uns aos outros”), do Cedac, equipou centenas de mulheres ex-combatentes com sementes de arroz, microcréditos e pequenas bolsas e já atingiu centenas de mulheres até hoje.

Fotos cedidas por Cedac e Mi Parec

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