A controversa desmilitarização das polícias
Tema mais discutido no fórum virtual do portal da 1ª Conferência Nacional de Segurança Pública (1ª Conseg) nos meses que antecederam o evento em agosto, a desmilitarização das polícias prometia – e rendeu - debates acirrados. O resultado foi a aprovação de duas diretrizes que propõem a desmilitarização:
12. 2.19 A - Realizar a transição da segurança pública para atividade eminentemente civil; desmilitarizar as polícias; desvincular a polícia e corpos de bombeiros das forças armadas; rever regulamentos e procedimentos disciplinares; garantir livre associação sindical, direito de greve e filiação político-partidária; criar código de ética único, respeitando a hierarquia, a disciplina e os direitos humanos; submeter irregularidades dos profissionais militares à justiça comum. (508 votos)
18. 3.2. A - Criar e implantar carreira única para os profissionais de segurança pública, desmilitarizada com formação acadêmica superior e especialização com plano de cargos e salários em nível nacional, efetivando a progressão vertical e horizontal na carreira funcional. (331 VOTOS)
Apesar de a palavra "desmilitarizar" aparecer claramente no texto, o conceito por trás dela tem diferentes interpretações. A indefinição do termo e do que deveria ocorrer com as polícias militares do ponto de vista estrutural com a desmilitarização deixam a questão em aberto.
Avanço democrático
Para o professor José Luiz Ratton, coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Criminalidade, Violência e Políticas Públicas de Segurança da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a desmilitarização das polícias pode constituir importante avanço no plano da construção democrática de políticas públicas de segurança no país.
Ele explica que desmilitarização não implica, necessariamente, em unificação das polícias estaduais ou mesmo em extinção das polícias militares. "Isto está fora de cogitação, entre outros motivos, por ser absolutamente implausível nos cenários políticos de curto e médio prazo", observa.
De acordo com Ratton, as vantagens da desmilitarização progressiva são várias: descentralizar o trabalho das PMs, facilitando a integração com as polícias civis; impulsionar a inovação organizacional, especialmente de modalidades de policiamento adaptadas aos contextos locais, o que muitas vezes é impedido pelos excessivos níveis de comando e centralização da hierarquia militarizada; diminuir as probabilidades de militarização da questão social, dificultando estratégias criminalizadoras da pobreza e dos movimentos sociais na imposição da ordem pública; reduzir as tensões entre oficialato e tropa, favorecendo a construção de perfis e estratégias agregadoras nas organizações policiais, o que aumentaria a eficácia coletiva das polícias e das políticas públicas de segurança.
Para o delegado Vinicius George, da Polícia Civil do Rio de Janeiro, a desmilitarização das polícias é um passo imprescindível para a consolidação de um verdadeiro Estado Democrático de Direito no país. A seu ver, a militarização histórica do aparelho de segurança pública representa um equívoco filosófico, ideológico, metodológico e de finalidade, já que introjeta uma lógica de guerra no aparelho policial.
"Quartéis, destruição de inimigo, invasão e ocupação de territórios, justiça militar são incompatíveis com a atividade policial, que deve ser marcada pela lógica da cidadania. Polícia deve ser cidadão controlando cidadão, trabalhador controlando trabalhador, de forma legal e legítima, dentro do pacto social, antes de tudo prevenindo os crimes pelo policiamento ostensivo. E quando isto não for possível, deve-se investigar, prender e apresentar os autores da violência à Justiça. A repressão, quando necessária, deve ser feita de forma qualificada, dentro da técnica policial, e não militar", afirma.
Falta definição
Paulo Storani, Secretário de Segurança Pública de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, reclama da falta de definição do seria a desmilitarização.
"Seria acabar com a hierarquia militar? Com a farda? Com as demonstrações típicas de militares, como continências, ordem unida e toque de corneta? Usam o termo, mas ninguém define o que é", questiona Storani, que é professor da Universidade Candido Mendes.
Para ele, a proposta de desmilitarização aprovada na Conseg resulta da articulação de uma corrente das polícias civis dos estados. "Foi plantado um conceito em que todos os males da PM viriam do fato de ela ser militar. Mesmo desmilitarizada, a PM não deixaria de fazer o que já faz. Isso parece mais um pano de fundo para a institucionalização de uma Polícia Civil uniformizada", provoca.
O professor acrescenta que os princípios e diretrizes aprovados na Conseg são vagos e contraditórios entre si, não deixando claro se a Constituição seria modificada para poder contemplar uma nova definição das polícias militares.
Um dos princípios aprovados na Conferência – o segundo mais votado, com 455 votos - recomenda "a manutenção da previsão constitucional vigente dos órgãos da área, conforme artigo 144 da Constituição Federal". Para Storani, se desmilitarizar a PM significar a desvinculação das Forças Armadas e a vinculação ao Ministério da Justiça, "ótimo".
Estética militar para atingir objetivos
De acordo com o coronel Laercio Giovani Macambira Marques, ex-comandante geral da Polícia Militar do Ceará, um erro cometido por muitos que defendem a desmilitarização é não diferenciar a estética militar da missão institucional.
Segundo ele, a estética militar é uma ferramenta que objetiva facilitar a manutenção de uma hierarquia e de uma disciplina rígidas, segundo ele, "fundamentos essenciais para o exercício do comando de corporações ostensivas, armadas e com poder/dever de constranger outrem até o limite legal e legítimo da matar em defesa do cidadão ou para garantir o pleno funcionamento dos poderes constituídos." O coronel lembra que em todo o mundo, na formação básica de policiais - sejam civis ou militares -, há uma boa fatia de preceitos militares.
"A missão é inerente à razão de ser de uma organização, ou seja, a sua destinação. Tanto as polícias militares quanto as Forças Armadas adotam a mesma estética militar como um estilo de gestão. Não há qualquer incompatibilidade em ambas utilizarem um estilo de gestão comum para atingirem os objetivos de sua missão, estes sim, bastante diferenciados", afirma.
De acordo com o coronel Macambira, as polícias militares do Brasil têm sua vida funcional derivada da cultura organizacional do Exército brasileiro. Ele destaca que esse vínculo foi bastante fortalecido a partir de 1964, quando as polícias estaduais atuaram lado a lado com as Forças Armadas na preservação da segurança nacional. Nesse período, segundo ele, houve uma forte massificação nessas corporações da doutrina do Exército, ministrada nas escolas de formação policial-militar, com ênfase em disciplinas como "guerra revolucionária", "organização de defesa interna e de defesa territorial" e "operações contra guerrilha".
O coronel conta que, com o retorno do país à normalidade democrática, o Exército e as polícias militares se distanciaram. Então, os comandos das polícias militares, sensíveis a essas mudanças, a partir de 1983 reformularam os currículos das escolas de formação e de aperfeiçoamento, buscando adequá-los à nova realidade. Segurança nacional deixou de ser prioridade para essas corporações.
"A preservação da ordem pública e a defesa do cidadão e do patrimônio, em parceria com a sociedade, é a principal missão institucional das polícias militares na nova ordem constitucional, em detrimento da doutrina de guerra", afirma. "O que tem que ficar bastante claro é que na expressão 'polícia militar' o termo militar é secundário e auxiliar do termo principal - polícia - e não o contrário", resume.
Para o coronel, as polícias estaduais precisam de um remodelamento psicológico e das relações interpessoais dos seus integrantes, de forma a fomentar uma mudança comportamental de toda a corporação, com foco no cidadão. "Só assim chegaremos, de fato, a uma polícia cidadã, interativa, comunitária e de proximidade", diz.
"Hoje, as polícias militares devem ser fortes, mas não pelo medo que possam impor, e sim pelo respeito que devam conquistar do cidadão comum e da sociedade como um todo, pela sua eficiência, técnica, agilidade e identificação simbiótica com a sociedade. Isso se traduz em uma polícia inteligente", conclui.
Maioria questiona hierarquia militar
Na pesquisa "O que pensam os profissionais de segurança pública no Brasil", feita pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) para subsidiar as discussões da 1ª Conseg, ficou evidente o descontentamento dos profissionais de segurança com a estrutura militarizada.
Dos 64.130 servidores ouvidos - policiais militares, civis, federais e rodoviários, peritos, bombeiros, agentes penitenciários e guardas municipais – 60% consideram a vinculação da PM ao Exército inadequada.
Quando perguntados se a hierarquia de sua instituição provoca desrespeito e injustiças profissionais, 65,6% dos consultados responderam que sim. Entre os policiais militares nos postos mais baixos, o índice é maior: 73,3%. Destes profissionais, 81% acreditam haver muito rigor em questões internas e pouco em questões que afetam a segurança pública, e 65,2% acham que há um número excessivo de níveis hierárquicos em sua instituição.
O relatório da consulta destaca que "as PMs não estão organizadas como polícias, mas como pequenos exércitos desviados de função", e que os resultados disso são precariedade no enfrentamento da criminalidade, dificuldade para exercer controle interno, implicando em elevadas taxas de corrupção, e frequente insensibilidade no relacionamento com os cidadãos.
Em outros sites:
Consulta "O que pensam os profissionais de segurança pública no Brasil", Senasp/PNUD, 2009.
Forum sobre desmilitarização das polícias no site da Conseg





Comentários
desmilitarização das polícias
É um equívoco relacionar as Polícias Militares às Forças Armadas. A hieraquização das Polícias aos moldes das isntituições militares não é exclusividade do Brasil. países como França, Itália, Espanha, Canadá, entre outros, possuem estruturas semelhantes. A necessídade de se manter uma Força Policial sob uma rigorosa disciplina é necessária, pois se não houver um controle forte e rogoroso, teremos um bando armado. Imaginem uma manifestação de policiais sem conrole, armados, reivindicando melhorias salariais. seria uma tragédia. Foi o que quase aconteceu em São Paulo, quando um bando de Policiais Civis, armados, tentaram chegar a sede do Governo para fazer reivindicações. Isto pode ocasionar verdadeiras tragédias. Quem usa armas, não pode ser tratado sem controle forte.
Desmilitarização das policiais
Muito infeliz o comentário do colega Carlos Eduardo Smicelato, quando se refere aos policiais civis de São Paulo como um "Bando ", que armado quiseram invadir o palacete do Governador, o que está em questão é o tratamento humano que deve ser dado a nós policiais de todo o Brasil, hoje como exemplo claro de manifestação por melhoria de salários e condições de trabalho que foram oferecidas e deram certo diz respeito a Policia Federal, qual a instituição policial hoje mais respeitada em todo o território nacional, incluo nesta fala inclusive os Bombeiros, que se brincar perderam o primeiro lugar para a PF, tudo por conta de um simples fator: Valorização profissional, pague bem pra poder ter retribuição, não tem como um trabalhador da Seguranca Publica viver de "bicos", é preciso urgentemente que os governantes levem a sério nossos policiais, nos respeitem para serem respeitados e Sr. Carlos, somos um "bando" sim, armados ou não, porém lutamos pelos nossos Direitos, agora se o senhor está sentado atrás de uma mesa, batendo carimbo e dando ordens, cuide-se que este "bando" está chegando, e chegando com força.
Desmilitarização das Polícias
Existem rumores de extinção das Policiais Militares. A desmilitarização, ou seja desvinculação do exército, é o início dessa ação. Após a desmilitarização o que que vai conduzir a Polícia, que regulamentos? Igual ao da Polícia Civíl? O qual como cidadão comum digo que não é satisfatório, pois Policiais Civis agem como se não tivessem regras ou condutas a seguirem. E o comando da Policia, os cargos, cairiam nas mãos dos Políticos. É o começo do fim. As Policias Militares são hoje a única esperança da população e agora querem transformá-la numa policia civil uniformizada. Como será o compromisso do Policial com a população, com certeza não será igual ao de agora. Vamos ver na realidade quem quer essa desmilitarização, por que não está contente, o que pretende, e chegaremos a um resultado: Problemas pessoais e não em prol da comunidade.
Desmilitarização das Policias
As declarações do sr. Carlos Eduardo Smicelato reflete o pensamento da classe dominante das PPMM, que alojados em seus confortáveis gabinetes, envaidecidos com todas as honrarias que o sistema militar lhes concede, esquecem que a grande maioria dos policiais militares tem seus direitos tolhidos diariamente, sofrem humilhações, na grande maioria dos casos não existe perspectiva alguma de crescimento profissional (é norma encontrar policiais militares com 20 anos de serviço ainda no posto de Soldado ou Cabo, muitas vezes se aposentando como soldados! Alguém conhece alguém que entrou na instituição como Tenente e se aposentou como Tenente? Eu não conheço nenhum caso desses!), apesar de muitos possuírem cursos superiores são tratados como peões, meros executores sem direito de pensar ou expor suas opiniões, normalmente trabalhando mais de 240h mensais, etc... tudo isso em nome de um militarismo falido, corrupto, e sem disciplina, onde a grande maioria dos Oficiais não tem o respeito de seus subordinados!
As pesquisas mostram que só existe uma classe (os oficiais) que defende com unhas e dentes a manutenção do militarismo, porque será?!
A PRF é um grande exemplo de que não precisa de militarismo algum para se manter uma instituição bem disciplinada, basta valorizar o profissional e tratá-lo como tal!
Comentário acerca da desmilitarização
Não concordo muito com a idéia de que só podemos "controlar" um "bando de gente armado" na medida desmedida da força hierarquizada e truculenta, como é o relacionamento intra quartéis brasileiros.
Na criação de um novo Estado, o democrático de direito, subjetivamente elimina-se a questão de um sistema policial militarista ou militarizado, que teve a sua criação na Idade Média, com a vinda Família Real Portuguesa para o Brasil, fugida da Europa com medo de Napoleão.
Temos que mudar e radicalmente, pois os bandidos se encontram bem a nossa frente, unificados, equipados, bem remunerados e civilmente organizados.
Um alto custo
A discussão está muito boa. Porém quero fazer algumas ressalvas: quanto custa para o Estado manter um sistema militar na polícia. Quantitativos: um comandante de unidade operacional tem: uma viatura, um telefone celular, duas policiais femininos como secretárias, dois policiais masculinos como motoristas, um policial como office boy. Bem, se colocarmos que em cada estado tenha no mínimo 60 comandos, isso é o mínimo de cada estado em um cálculo bem simples, o sistema militar atual permite que se retire 300 policiais do combate para colocá-los na manutenção de privilégios.
O que acontece nas delegacias: um delegado pode ter uma viatura a sua disposição, porém ele é quem a dirige. Não uma policial específica para atender somente o delegado. Também pode ter um telefone móvel funcional. O sistema de arquivos tem despachos descentralizados que permite uma maior flexibilização e uma menor burocratização. Com relação a isso quanto será que as polícia militares gastam com papel.
Ou seja, a sociedade está cumprindo o seu papel ao clamar por segurança e solicitar um novo modelo de instituição. Uma instituição moderna que atenda não somente os seus pares, mas principalmente a quem mantem o sistema financeiramente. Quando você, policial, vai a um hospital não quer saber se o médico é residente, se é especialista em determinada área, se é funcionário de carreira ou contrato emergencial. Quer ter um bom atendimento, ou no mínimo razoável. Extendido a sua família. Assim acontece com a questão da segurança pública. Não importa se sejamos atendidos pela polícia militar ou polícia civil, queremos a satisfação mínima. Isso não está acontecendo há um bom tempo. Temos policiais militares bem treinados sim, porém estes não estão nas ruas. Porque os oficiais fazem tantos cursos no Brasil e no exterior se não estão no combate. Deve então fazer cursos de relações humanas, de administração entre outros. AS MUDANÇAS VÃO CHEGAR!!!!!!
Desmilitarização
Não concordo com o colega Carlos Eduardo, acredito que não é um equívoco comparar PMs com as Forças Armadas, porque, embora tenham missões constitucionais diferentes, elas se convergem na questão da disciplina e hierarquia, muito brandas diga-se de passagem, que que o público-alvo dos policiais militares são pessoas comuns, civis.
Não precisa necessariamente estar atrelado ao exército e nem às suas disciplinas regimentais brandas, a desmilitarização que estamos defendendo seria igual a da Polícia Rodoviária Federal, desmilitarizada e fardada. Acredito que o companheiro foi muito infeliz em ter citado aquele fato policia civil, não quero me ater a estes fatos, mas os policiais militares deveriam estar do lado dos policiais civis, por serem co-irmãos e estare sofrendo do mesmo descaso político por parte do governo de José Serra. Por causa deste militarismo, foi obrigado a usar da força contra outros companheiros de luta. Por isso, sou a favor da desmilitarização para que possamos lutar por reconhecimento profissional salarial, que não podemos lutar e nem falar nada por causa destas ''algemas e mordaças'' feitas pelo militarismo. Sou a favor de uma Polícia Militar fardada e desmilitarizada, nos moldes da Polícia Rodoviária Federal.
Por quê será que só os
Por quê será que só os oficiais são contra a desmilitarização?
Se houver algum praça contra ela, ele só pode ser um desses serviçais puxa-sacos que estão em uma escala de serviço diferenciada dos demais e não quer perder sua mordomia! (essa é a mais pura verdade!). Tem alguns idiotas que alegam que tirando o militarismo acaba a disciplina, isso não é verdade, pois se fosse então todas as instituições do País que não são regidas por esse regulamento IMBECÍL seriam redutos de ladrões, corruptos, estelionatários, etc,etc,...!
Desse jeito então seria mais fácil o governo decretar o militarismo para toda a sociedade, daí todos os problemas estariam acabados e vivería-mos em um País de Contos de Fada!
Será que o MUNDO inteiro esta errado e só o Brasil esta certo!
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