Construir o bem a partir do mal

ENTREVISTA / Suzana Varjão

suzana_varjao1.jpgAssim como os meios de comunicação de massa ajudam a construir mentalidades bélicas, que legitimam o uso da violência física como forma de resolução de conflitos, eles também podem construir narrativas que ajudem a prevenir violências físicas e simbólicas.

Com o objetivo de estimular reflexões sobre as notícias sobre violência e divulgar experiências positivas construídas em cima de cenários negativos, a jornalista Suzana Varjão estreou no início de julho a coluna Segurança & Cidadania com Suzana Varjão, na CBN Salvador (100.7 FM).

Autora do livro Micropoderes, macroviolências, Membro da Rede Desarma Brasil e coordenadora do Movimento Estado de Paz, Suzana garante que de toda e qualquer ocorrência violenta é possível extrair boas lições, e, portanto, boas notícias. Em entrevista ao Comunidade Segura, ela fala sobre a sua coluna na rádio e defende a qualificação dos jornalistas em segurança pública para que desconstruam o “ciclo vicioso da notícia pura e simples, da informação que educa para o crime e da espetacularização” e passem a estimular debates estruturantes.

Como surgiu a ideia do programa?
 
Na verdade, é uma coluna, dentro de uma programação diversificada. É reflexo de um longo processo de discussão sobre a necessidade de se buscar a melhoria da comunicação midiática sobre o fenômeno das violências, como forma de melhor enfrentá-lo. A coluna está vinculada a esse debate dos comunicadores baianos, que tem gerado muitos frutos, mas emplacou pela visão gerencial e jornalística de um grupo de comunicação: o da CBN, que aceitou o desafio, proposto por Jefferson Beltrão (editor e âncora da programação da rádio em Salvador), de testar um padrão diferenciado de comentário sobre violências. E está dando certo. O retorno da população foi imediato. A gente espera que, com o tempo, ele seja ampliado e gere “subprodutos”: livro, peças de teatro... Esse é o projeto.
 
Qual é o formato?
 
É bem dinâmico e descontraído, como uma conversa informal. Nós dois acompanhamos o noticiário, durante a semana, trocamos ideias, estudamos o assunto e, na sexta-feira, conversamos ao vivo sobre um dos aspectos que levantamos, procurando aliar informação e reflexão, sempre. Buscamos a conexão com os fatos do dia-a-dia, mas sem nos deixar tragar por eles. Tem sido uma experiência muito interessante, porque conversamos francamente, como membros da sociedade, externando suas, ou seja, nossas preocupações e expectativas.

Que temas são abordados? 

São variados, mas vinculados a dois blocos conceituais: o de violências físicas e o de violências simbólicas. No âmbito físico, abordamos violência de gênero, violência armada, violência policial, violência no trânsito etc. No âmbito simbólico, abordamos violências institucionais, violências étnico-culturais, corrupção, enfim, assaltos à cidadania em geral.

Procuramos dar visibilidade aos fios que interligam as violências simbólicas às violências físicas. Mas isso, de modo estrutural e estruturante, permeando os dados com teorias, como a das janelas quebradas; programas oficiais de enfrentamento de violências, como o Pronasci; iniciativas da sociedade civil organizada, como a Rede Desarma Brasil e suas organizações-membro.

A quem se destina e com que objetivos?

O público da CBN situa-se entre as classes A e B, mas a coluna está, inevitavelmente, chamando a atenção de outros segmentos, em função da temática, que preocupa a sociedade como um todo, e da linguagem simples que estamos usando para falar desse complexo fenômeno.

Assim, destina-se tanto à dona-de-casa que vivencia, diariamente, o drama da violência letal na periferia de Salvador, quanto àquela que é atingida, ocasionalmente, por ela - e em função dela ou da falta de providência das autoridades em relação à violência que atinge os mais desprovidos de poder econômico e simbólico.

O processo de democratização traz um novo paradigma que relaciona segurança com cidadania. Qual o papel da comunicação e da informação na construção coletiva da paz?

Um dos objetivos centrais do projeto é exatamente universalizar o debate sobre segurança pública, retirando-o do ciclo vicioso da notícia pura e simples sobre o crime; da informação que 'educa' para o crime; da espetacularização, que glamouriza o crime.

Como o jornalista deve proceder para conciliar informação sobre a violência e educação para a paz?

É preciso, antes de tudo, que se tenha essa consciência de que os meios de comunicação de massa não apenas refletem, mas constroem realidades. Então, do mesmo modo que ajudam a construir mentalidades que legitimam o uso da violência física como forma de resolução de conflitos, pode, deve, tem obrigação de construir narrativas que ajudem a baixar os limiares de aceitação às agressões contra a pessoa.

Mas há muitas e muitas maneiras de se colocar isso em prática. Não significa negar, sonegar, omitir, mentir sobre a ocorrência de crimes em uma determinada sociedade, como muito políticos entendem, e sim informar com inteligência simbólica, desconstruindo a espiral da criminalidade, em vez de fortalecê-la. Numa perspectiva mais pragmática, um procedimento estruturante é a qualificação. Não é possível compreender e colocar em prática a metodologia de comunicação que emana de sua pergunta sem o devido preparo. 

Na sua visão, para o estabelecimento de uma sociedade com uma consciência de segurança cidadã, o que é mais eficaz: divulgar experiências positivas ou alardear a violência de forma sensacionalista?

Com certeza, divulgando experiências positivas, mas, como disse, sem negar a existência dos problemas. É uma questão de ética e metodologia. Exige a desconstrução do olhar dos comunicadores sobre o modo de noticiar. De toda e qualquer experiência negativa, de toda e qualquer ocorrência violenta, é possível extrair boas lições, e, portanto, boas notícias – o que não significa dizer que sejam notícias cor-de-rosa. É o que estamos tentando provar em Segurança & Cidadania com Suzana Varjão, na CBN Salvador.

Qual abordagem vende mais jornal? Até que ponto os fins comerciais dos veículos de comunicação direcionam as abordagens das coberturas?

Não existem pesquisas suficientes, nessa área, que permitam afirmar com responsabilidade que tipo de abordagem mais vende jornal. O que vejo, em sua maioria, são estudos que apontam o noticiário sobre violências físicas como um dos que mais chamam a atenção dos leitores, ouvintes e expectadores – o que não significa dizer que esses leitores aprovem a abordagem sensacionalista.

É compreensível que o noticiário sobre violências físicas chame mais a atenção da coletividade porque ele trata do bem maior do mundo ocidental, que é a vida terrena. Mas a abordagem em geral não faz bem à sociedade. Ao contrário. Envenena-a. Adoece-a. Mas, infelizmente, há os que se entrincheiram nesse tipo de levantamento para, arrogante e irresponsavelmente, fazerem jornalismo-veneno, pensando apenas no retorno de imagem e comercial.

Quais são os principais problemas de segurança pública da Bahia?

Um dos mais sérios problemas de segurança pública da Bahia é a violência armada – e a falta consciência da extensão desse problema, porque dificulta seu enfrentamento.

Pode-se afirmar que a Bahia reflete a realidade brasileira? Em que medida as políticas podem ser de âmbito nacional?

Pode-se afirmar, sim. E a violência armada é um indício. Agora, os graus são diferentes e as condições em que as violências se desenvolvem, nos diferentes locais, têm suas especificidades. Permanecendo na esfera da violência armada, que é emblemática, pode-se afirmar que a política geral de desarmamento favorece ao país, mas a desconstrução da mentalidade bélica na Bahia e no Rio Grande do Sul, por exemplo, pode depender de projetos específicos.

Comentários

Querida Marina, São

Querida Marina,

São poucos os entrevistadores que têm a sensibilidade de não sobrepor o que pensam às idéias do entrevistado. Você foi absolutamente fiel e generosa. É deste tipo de postura, de ética, que a sociedade precisa. Muitíssimo grata. Grande abraço, Suzana Varjão.

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