Contra desvios de conduta, arte
Punição, prisão, expulsão da corporação. Essas são, segundo a própria Polícia Militar, as medidas tomadas pelo comando das Polícias Militares frente a episódios de corrupção e outros desvios de conduta envolvendo oficiais e praças da corporação.
A sociedade se exaspera, se manifesta, cobra punição – como, por exemplo, no recente caso da morte de Rafael Mascarenhas, filho da atriz Cissa Guimarães, quando dois policiais teriam recebido propina para liberarem o motorista que atropelou o jovem.
De prevenção aos desvios de conduta por parte dos PMs, pouco ou nada se falava na Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Segundo a PMERJ, desde 2007 foram expulsos 757 servidores – só em 2010, entre os meses de janeiro e maio, foram 47 expulsões. Ainda de acordo com a corporação, o principal desvio de conduta cometido pelos policiais militares é a concussão - uso do cargo para tirar vantagem.
Para tentar mudar esse quadro, a PMERJ lançou o Programa de Prevenção ao Desvio de Conduta Policial Militar cujo objetivo é promover junto aos policiais uma reflexão sobre os prejuízos causados à sociedade, aos integrantes da corporação e aos seus próprios familiares pelos seus desvios de conduta. Além disso, o programa visa a resgatar os valores morais e a conduta ética necessária à profissão de policial militar.
O pacote conta com workshops, atividades lúdicas e interativas, exibição de curtas-metragens educativos (exibidos durante os horários de almoço ou trocas de serviço) e um programa integrado de valorização do policial militar.
A principal atividade do programa é a peça “O preço de uma escolha”, “de caráter completamente inovador na PM e muito diferente das habituais construções doutrinárias voltadas para os policiais”, como definiu o comandante-geral da PMERJ, coronel Mário Sérgio Duarte (foto acima), na apresentação de estreia da peça – que marcou também o lançamento oficial do Programa de Prevenção.
Uma peça de e para PMs
A peça conta a história de uma família em que três irmãos são policiais e têm no pai, também policial, a maior referência. Um dos irmãos se envolve em um crime de sequestro e é preso. A peça mostra a crise na estrutura familiar que este episódio gera e as reflexões de cada personagem. Escrita e dirigida por um policial militar, o sargento Sidney Guedes, o roteiro é encenada por PMs do grupo cênico “Disse que”.

“Trabalhei profissionalmente com teatro fora da corporação, conciliando atuação e direção com a escala de trabalho na PM. Por isso, poder fazer teatro dentro da corporação, para mim, é uma alegria – porque vejo que predomina um pensamento de avanço”, comemora Guedes, que também é professor de teatro do projeto Echoa. O sargento já trabalha com dramaturgia desde 1984, antes mesmo de se tornar policial militar, e atuou e dirigiu em casas como o CCBB e o Teatro Bibi Ferreira.
Guedes diz ter encontrado um grupo de atores comprometidos com a proposta da peça. Para ele, isso explica o ótimo resultado conseguido em tão pouco tempo. Mesmo sem nunca ter atuado profissionalmente, o elenco levou apenas dois meses para ensaiar e colocar a peça em produção.
O soldado Fábio Sarmeiro, que representa o irmão mais novo, acredita que a peça vai dar resultado justamente por não ter um viés moral, mas de estímulo à reflexão. “A peça ilustra uma situação muito real. Isso é o que vemos no dia-a-dia na ruas, não tem jeito, a gente vê amigos serem presos. Se temos como dar um recado usando uma ferramenta inusitada e poderosa como o teatro, isso é ótimo”, afirma Sarmeiro. O elenco da peça conta ainda conta com mais cinco policiais militares: os sargentos Kátia Cavassa, Paulo Roque e Denise Branquinho, e os cabos Marcos Passos e George Fonseca.
O Programa de Prevenção ao Desvio de Conduta Policial Militar tem o objetivo de criar fatores de proteção comportamental, dando ênfase à valorização dos recursos humanos da corporação. A capitão Silvana Couto Chaves, que faz parte da equipe do programa, contou que o primeiro workshop sobre gestão de pessoas, voltado para os comandantes e chefes das seções de pessoal dos batalhões, aconteceu também em julho.
“O intuito destes encontros, que continuarão acontecendo daqui para frente, é que os comandantes e chefes de pessoal aprendam a identificar a personalidade de cada policial dentro de sua unidade e quais fatores podem levar esse policial a sair de seu equilíbrio. Assim, os PMs podem ser designados para trabalhar em áreas nas quais estejam menos expostos”, conta.
Ela explica que fatores como estresse, baixas auto-estima e qualidade de vida no trabalho levam os policiais a praticarem desvios de conduta. Os baixos salários também, mas estes, segundo a capitão Silvana, não estão na alçada da atuação do Programa de Prevenção ao Desvio de Conduta Policial Militar. “Ofereceremos unidades com alojamento e alimentação, melhoramos a escala de serviço, oferecemos uma semana de saúde na unidade. Enfim, tentamos trazer melhorias à qualidade de vida do policial militar, que é uma maneira de inibir os fatores que os levam a cometer desvios de conduta”, comenta.
A peça fará parte do dia-a-dia das corporações daqui para frente. De acordo com Silvana, a partir de agosto, já se inicia um calendário de apresentações em todas as unidades da corporação, começando pelas unidades de ensino. “Como o público-alvo da peça é o policial, nosso objetivo é que todos eles possam assistir à peça, para que possam fazer uma reflexão sobre as consequências de suas escolhas”, afirma.
Para o diretor da peça, sargento Guedes (na foto com a capitão Silvana), algo muito comum entre os policiais que cometem desvios de conduta é ostentar uma posição, ter status e poder. Segundo ele, os policiais que estão cometendo desvios de conduta começam a ostentar esse estereótipo. “Hoje somos respeitados pela nossa capacidade de consumo. Se você consome, você é alguém”, explica.
O coronel Carlos Eduardo Millan Guimarães, atual chefe de gabinete do comandante Mário Sérgio Duarte, ressalta que o desvio de conduta é, muitas vezes, não só um erro da polícia, mas da sociedade em geral, que também participa da corrupção e que muitas vezes julga o policial, se esquecendo que ele também faz parte da sociedade. Ele acredita que uma mudança na PM requer a participação de todos.








Comentários
Contra desvios de conduta, arte
Se a PM tivesse a mesma percepção dos oriundos do sistema prisional, como seria melhor a vida de ex-detendos!
O que se vê na realidade é a manutenção do preconceito. Ex-detendo para a PM em geral é bandido em potêncial: ou está planejando algo, ou acabou de fazer algo ilegal.
Realmente interessante a perspectiva que a PM tem de suas laranjas podres.
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