Cinco por cento que fazem diferença

TCsayonara_do_valle_Seseg_leg.jpgEsta semana, a tenente coronel Sayonara do Valle vai deixar a função de diretora do Colégio Militar para assumir o comando do 5° Batalhão de Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. À frente do batalhão de Harmonia, será responsável pelo policiamento da região da Saúde, Gamboa e Santo Cristo, o que inclui áreas como a Central do Brasil, o Cais do Porto e a Praça Mauá. Comandará cerca de 300 policiais, quase todos homens. Como ela se sente? “É só mais um desafio”, diz, com naturalidade.

Antes de dirigir o Colégio Militar, a oficial foi comandante de outras duas unidades operacionais: os batalhões das cidades de Magé e de Itaboraí, no interior do estado. “Já tenho uma pequena prática”, completa, modestamente.

Comandar homens não a intimida. Ela até lembra dos tempos em que se ouviam piadas em relação à presença de mulheres na corporação, mas garante que hoje isso é raríssimo. A oficial conta que, nos anos 80, quando algo errado acontecia, alguns homens logo diziam “deve ter sido uma fem”, referindo-se à abreviação de feminino no cadastro. “Hoje é tão normal e cotidiano sermos mulheres na PM que nem sentimos diferença. Somos todos profissionais trabalhando para uma sociedade melhor”, resume.

A abertura da PMERJ para mulheres aconteceu há 28 anos. Atualmente, existem 2.055 mulheres na corporação, o que representa 5,4% do total de 37.937 policiais. Por enquanto, apenas duas chegaram ao posto de coronel. Uma delas é a coronel Edith Bonfadini, promovida em dezembro, que comanda o 13º BPM (Praça Tiradentes) - o que melhor atingiu metas de redução de criminalidade. É ela que o comandante geral da PMERJ, coronel Mário Sérgio de Brito Duarte cita como exemplo de sucesso.

"As mulheres são muito zelosas, atenciosas e capazes, e têm qualidades que permitem um bom trânsito no universo operacional. Está muito claro para a gente que elas são grandes motivadoras", afirma Duarte.

De acordo com o coronel, o velho estereótipo de que a mulher, na PMERJ, só serveria para serviço interno está acabando. "Com exceção de algumas funções relacionadas a confronto e força - como em algumas missões do Batalhão de Choque e do Bope - hoje as mulheres assumem quaisquer funções", garante o comandante, que é casado com uma oficial da PM. Segundo ele, isto o ajuda a entender o universo das mulheres dentro da corporação.

Pacificadoras e batalhadoras

capitao_rosana_beltrame_Seseg_leg.jpg

Para o coronel Mário Sérgio, as mulheres são um diferencial nas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). "Como uma das marcas da UPP é a de ser uma polícia de proximidade, vemos nas mulheres um parâmetro de inteligência emocional adequado para lidar, por exemplo, com crianças das comunidades. Haverá, com toda a certeza, mais mulheres comandando UPPs", anuncia.

As UPPs dos morros Santa Marta e Tabajaras são comandadas, respectivamente, pelas capitãs Pricilla de Oliveira Azevedo e Rosana Alves. Cada uma tem 120 homens sob seu comando e ambas afirmam não sentir diferença por serem mulheres.

Segundo a capitã Rosana, o olhar de surpresa não vem dos policiais, mas sim da própria comunidade. Mesmo assim, garante, não há discriminação nem resistência, muito pelo contrário. “Sendo mulher, estou mais próxima à comunidade. As pessoas se sentem mais à vontade de relatar seus problemas, como por exemplo a violência doméstica”, revela, enquanto cumprimenta afetivamente todos que passam.

Rosana e Pricilla são responsáveis pelo policiamento comunitário nas respectivas favelas, que foram previamente pacificadas pelo Bope para a implantação das UPPs. Para Rosana, ser mulher ajuda a fazer policiamento comunitário, mas essa não é uma condição determinante. “Os homens que trabalham aqui também tem um olhar sensível. Todos queremos fazer o trabalho sem perder a ternura”, descreve a capitã, que se diz realizada no que faz.

De acordo com a capitã Pricilla, o sexo não implica em diferença na PM, mas como as mulheres são novidade na instituição, precisam se dar ao respeito. “A gente se forma numa academia onde a maioria é de homens. Depois, no batalhão, 95% da tropa é de homens. Então, com o tempo, passa a ser natural para nós ser minoria. Pode não ser para os homens... Imagino o que as primeiras mulheres passaram, porque se o homem já é machista, que dirá num lugar onde é maioria há 200 anos”, comenta.

capita_Pricilla_leg.jpgPara Priscilla, os soldados que estão chegando agora assimilam com mais facilidade a idéia de serem subordinados a uma mulher, enquanto aqueles que estão há 30 anos na corporação, que viram a entrada das mulheres, podem ter alguma divergência de opinião. “Mas nunca tive problema com ninguém”, frisa.

Pricilla observa que a criação da mulher em casa é diferente, mais preservada, e que a polícia dá a oportunidade de aprender muito. “O trabalho na polícia dá muita experiência de vida, porque na maioria das vezes é preciso lidar com problemas. A gente aprende bastante sobre maldade, porque vê do que o ser humano é capaz. A polícia te muda muito, porque ela te molda, te transforma, mas aquilo que você aprendeu antes fica guardado também”, analisa.

Ela conta que na comunidade sente especial carinho de mães e avós. “Sou um exemplo para elas de que qualquer mulher pode trabalhar em qualquer tipo de atividade. É só querer”, diz.

A capitã afirma que convive bem com a função de comando, “ainda mais mandar em homem”, brinca. Ela é noiva e quer se casar em breve. Mas, na relação, admite que quem manda é ele. “Eu acho bonito o homem chefe de família, que a mulher respeita, o que não significa que ela não tenha opinião”, reflete.

Por ocasião do Dia Internacional da Mulher, a tenente-coronel Sayonara do Valle recomenda que a mulher aposte em si mesma. “Continue se capacitando para galgar o seu espaço, porque você é capaz”, garante.

As capitãs Pricilla e Rosana também estimulam a autoconfiança para mulheres que queiram seguir profissões ditas de homem.

“Todas nós somos capazes. Somos competentes o suficiente para desempenhar qualquer profissão. Não desistam”, diz Pricilla. 

“Tenham coragem de vencer barreiras. Quem diz os limites é a própria pessoa”, afirma Rosana.

Em tempo: segundo a terminologia militar, o correto é “capitão”, mesmo que sob a patente esteja uma mulher. Mas, na prática, se ouve mais "capitã". E como a prática leva à perfeição, parabéns para as capitãs e para toda a tropa "fem".

Comentários

Enviar novo comentário

O conteúdo deste campo é mantido privado e não será publicado.
CAPTCHA
Isso serve para verificar se você é um visitante de verdade e não um robô, evitando, assim, o envio automático de spam.
Image CAPTCHA
Copy the characters (respecting upper/lower case) from the image.